Memórias vivas

Data de publicação: 04/10/2016


Fotografias, objetos e gravuras mostram a história de judeus perseguidos pelo nazismo, vítimas do Holocausto, e recontam aquilo que desejamos que nunca se repita

                                       

Por Karla Maria

Marcados na pele, feito gado, bicho com destino selado para a tortura, para a câmara de gás, para a morte. Assim, cerca de 1,1 milhão de pessoas foram tratadas durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), brutalmente assassinadas nos campos de concentração de Auschwitz, na Polônia, próximos da capital Cracóvia, pelo exército de Adolf Hitler.
Os alvos: os judeus. O motivo? Marta Francisca Topel, antropóloga e pesquisadora do Programa de Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaicas da Universidade de São Paulo (USP), esclarece em seu artigo “Por que Hitler odiava os judeus?”. Para Hitler, existiam três raças: as “fundadoras” ou superiores, representadas pelos povos germânicos, as “depositárias”, pelos povos eslavos, e as “destruidoras” ou inferiores, que tinham nos judeus o exemplo paradigmático.
“Obcecado com o ideal de pureza racial, Hitler compreendeu a História como uma permanente luta entre as diferentes raças, na qual a raça superior devia utilizar todos os meios necessários para manter sua pureza”, explica a antropóloga.
Os judeus assim foram transformados no bode expiatório e culpados de todos os males pelos quais atravessava a Alemanha, fazendo com que sua eliminação se tornasse um imperativo de Estado e assim foi, da maneira mais bárbara: um genocídio, o Holocausto.
A história está aí registrada em livros e documentários. Alguns dos campos de concentração, como o de Auschwitz-Birkenau, permanecem lá, com o mesmo portão de ferro que “acolhia” os judeus que chegavam, e nele inscrito Arbeit Macht Frei (O Trabalho Liberta). Diariamente aquele local recebe turistas de todo o mundo para verem com seus próprios olhos o cenário de guerra.

Exposição Viventes – A fotógrafa Marian Starosta foi além, viu mais do que pedras e portões, viu a alma dos que por lá passaram. Fotografou e entrevistou sobreviventes daquela barbárie e produziu a exposição Vivente,s com a curadoria de Eder Chiodetto. Visitou 30 homens e mulheres, com idades entre 70 e 110 anos, que sobreviveram ao Holocausto e por sorte estão vivos para contar.
Seu olhar atento e sensível possibilitou aos públicos do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro que tomassem contato com parte desta história, se indignassem, se emocionassem. Na exposição, cujo conteúdo em breve se tornará um livro, constam retratos dos sobreviventes, fotografias de objetos e áudios com depoimentos, como o de Miriam Brik Nekrycz, de 84 anos.
“Com seu jeitinho fofo, ela nos contou que viu a família toda ser fuzilada. E tinha apenas nove anos de idade. Este é um trabalho pesado, de depoimentos bem tristes e de muita entrega. Acho que o maior objetivo é fazer com que as pessoas não se esqueçam do que aconteceu”, diz a fotógrafa.
Marian também comenta o que lhe chamou a atenção durante as visitas: o envelhecimento, a solidão, o estar sozinho. “Vejo que muitos deles estão muito sozinhos, mesmo depois de lutarem para sobreviver. O fato de eu vir visitá-los, dar carinho e atenção é muito especial. Essa convivência e experiência já me deixam muito feliz”, conta.
Ela é jornalista e mestre em Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em São Leopoldo (RS). Foi coordenadora de Artes Visuais na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre (RS). Já estudou em Nova York, a fim de completar o Programa de Certificado em Tempo Integral em Fotografia no International Center of Photography, e hoje atua como professora e diretora artística e pedagógica no Ateliê da Imagem Espaço Cultural – escola referência do Rio de Janeiro.
A todo o seu extenso e qualificado currículo soma-se o fato de ser mãe de David, 11 anos, motivo que a inspirou a promover esse trabalho ímpar para a cultura e a história também dos brasileiros.
“A geração do meu filho não vai ter a sorte desses depoimentos vivos. Olhando o David eu pensei que queria fazer um inventário de fotografias de sobreviventes que vieram para o Brasil, e aí comecei a fotografar. Com o tempo vi também a importância de colher os depoimentos em áudio”, e o fez.

A brasileira Ruth – Uma das sobreviventes localizadas por Marian foi Ruth Sprung Tarasantchi. Ela nasceu em Bugojno, uma cidade da então Iugoslávia, atual Bósnia-Herzegovina. Hoje com 84 anos, ela nos recebeu em seu apartamento no bairro do Paraíso, na capital paulista, para falar de suas lembranças e trajetória como sobrevivente.
Vestia vermelho, cor forte, como suas lembranças daqueles anos de guerra, em que fugia com a família dos desmandos de Hitler e Benito Mussolini. Conta que na primeira vez que percebeu algo errado tinha sete anos. Na ocasião, sua mãe, Paola Dohan Sprung, chorava ao saber que o esposo, o médico Rodolfo Sprung, que servira no exército iugoslavo, fora preso pelo exército alemão, assim como seu sogro.
“Dois soldados nazistas chegaram atrás de meu pai e meu avô, na verdade eles queriam dinheiro. Tinha uma lenda de que todo judeu era muito rico. Meu pai era um médico respeitado, e meu avô tinha trigo, uma casa boa, mas não era rico como falavam, então ele foi torturado porque não tinha o que dizer”, conta Ruth.
O avô teve todas as unhas dos pés e das mãos arrancadas. Eram tempos de horror, tanto que a família decidiu fugir. Primeiramente para a cidade de Sarajevo, depois para Split. Em dezembro de 1941, os Sprungs foram presos por soldados italianos e embarcados com destino ao campo de prisioneiros no vilarejo Castelnuovo Don Bosco, próximo de Torino.
 “Era um campo em uma região muito cheia de mosquitos e malária, porque era inundada, e todo mundo ficou com malária, menos eu, minha mãe e irmã, e o engraçado é que não tomávamos um comprimido que diziam combater a malária, porque era amargo que nem fel”, conta, divertindo-se.
Em 1943 foram enviados para o Campo de Concentração de Ferramonti di Tarsia, próximo a Cosenza, no sul da Itália. “Hitler soube que havia judeus na região de Torino e falou para Mussolini nos mandar para os campos de Auschwitz, mas Mussolini não respondeu e nos mandou para o sul da Itália. Era um campo misto e fechado, não podíamos sair, faltava muita comida”, explica Ruth, com uma riqueza de detalhes que surpreende.

O repolho - A falta de comida atormentava a menina, tanto que um dia a pequena Ruth roubou um repolho do “quintal” dos chineses, que também estavam presos no campo. “Eu fui lá e furtei um repolho para a minha mãe, ela estava com tanta vontade de comer uma verdura. Minha mãe ia cozinhar, até que um chinês bateu na porta: ‘senhora’... E a minha mãe devolveu o repolho. Agora eu conto rindo, mas na época era uma tristeza.”
Riu do capítulo engraçado, lembrando-se da esperança que mantinham. “A nossa esperança era de que alguém viesse nos salvar. Pensávamos nos americanos, russos, e na verdade foram os ingleses que nos libertaram, porque eles vieram da Sicília e atravessaram o Estreito de Messina e nos viram lá, presos, naquela situação”, conta Ruth, que é também historiadora.
Depois de um ano estavam libertos, mas não tinham para onde ir. Passaram por Bari, Palermo e Monreale, até que chegaram a Roma, onde residiram por um tempo e o pai pôde abrir um laboratório farmacêutico. Aos dez anos, Ruth estava no Vaticano com a família, e por ali permaneceram algum tempo em um apartamento emprestado pela embaixada do Estado.
A guerra já tinha acabado. A menina ajeitara-se em Roma até que a situação dos refugiados iugoslavos na Itália se complicou diante da disputa entre italianos e iugoslavos pelo território de Trieste. Assim a família passou a procurar outro país para morar, até quando seu pai soube que uma consulesa brasileira estava emitindo vistos aos judeus. Embarcaram em 1947.

A vinda para o Brasil – Ruth tinha 12 anos e uma malinha quando chegou ao Brasil. A malinha permanece inteira e está na sala de sua casa como prova de sua peregrinação, de seu refúgio. Ruth era grande para sua idade, calçava sapatos número 38, mas tinha dificuldades de menina.
“Foi um começo difícil porque eu tinha perdido a nacionalidade. Quando eu chegava à classe e a professora fazia aquelas perguntas de onde somos, eu dizia que vinha da Itália, mas que não era italiana. Eu queria morrer quando dizia que era apátrida. Para uma menina não ser nada é uma coisa terrível, eu tinha uma vergonha danada”, lamenta-se a aluna que se tornou mestre.
O dinheiro era curto, mas para a edução o pai não fazia economia, tanto que a menina foi matriculada primeiro no Colégio Santa Inês e depois no Bandeirantes, ambos em São Paulo, mas a vida tinha suas restrições. “Lá na escola tinha a cantina, e eu via meus amigos comendo um doce... A vida inteira eu vi as minhas amigas comendo aquilo e mais tarde, só casada, fui experimentar, e era a paçoca”, conta,divertindo-se.
Ruth tornou-se brasileira. Recebeu sua nacionalidade aos 18 anos e garante que tem orgulho de sua nova pátria. Acredita que teve muita sorte na vida. “Se tivéssemos ido para Auschwitz tinham nos matado. Nós tivemos sorte. Uma irmã do meu pai que estava em Sarajevo não quis deixar a cidade, e uma semana depois que nós saímos soubemos que eles foram levados para Auschwitz e foram mortos.”
Ruth casou-se, teve dois filhos. Respeitando sua vocação artística, deixou o curso de Medicina, que frequentou por dois anos em Sorocaba (SP), e ingressou na Escola de Belas Artes de São Paulo. Em 1974 estava na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), e em 1981 defendeu a dissertação de mestrado A vida silenciosa na pintura de Pedro Alexandrino.
Em 1986 defendeu sua tese de doutorado Pintores paisagistas em São Paulo (1890-1920). Sua história como filha, refugiada, esposa, mãe e “ladra” de repolhos está registrada em gravuras, feitas por suas mãos. Assim como Marian, mas de modo muito próprio, Ruth desenhou cenas do horror vivido em família em gravuras no metal.
Suas imagens são delicadas, mas intensas, um paradoxo tal qual deve ser a vida de uma criança em meio à guerra. Despertam emoções e sentidos. Estão ali, guardados em seu apartamento e ateliê no Paraíso, depois de já terem sido expostas por ocasião de seus 80 anos de vida. São também desenhos sobre seu casamento, filhos e netos. Há inclusive uma gravura do pequeno Bruno, um dos bisnetos de quem Ruth guarda uma paixão escancarada.
“Faço essas gravuras mais para que se saiba o que aconteceu, para que minha família saiba, para que meus filhos e netos saibam. Porque a humanidade infelizmente ainda não aprendeu”, conta-me a brasileira Ruth Sprung Tarasantchi, que também é curadora e restauradora, tanto que durante a entrevista que fizemos em seu apartamento tirava dúvidas via Skype com outra profissional sobre a restauração de uma Torá que estava desgastada pelo abandono e pelo tempo, e que fará parte do acervo do Museu Judaico de São Paulo, do qual Ruth é diretora.
Ela e sua fotógrafa e também artista Marian Starosta esperam em breve poder publicar em livro seus olhares e obras sobre o Holocausto. Uma com delicadas e intensas gravuras de uma vida que ainda pulsa. A outra com fotografias de traumas que não se apagam.









Fonte: FC ediçao 969-SETEMBRO 2016
Postado por: Família Cristã




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