O perdão liberta

Data de publicação: 01/12/2016


Uma senhora de 84 anos ensina que o perdão é um processo doloroso e difícil, mas necessário até para a saúde física

                          
Por: Nathan Xavier

É difícil encontrar a casa de Maria Gabriela Oliveira Alves. A simpática e otimista senhora mora numa estreita rua na zona norte da capital paulista, e é preciso ir sem pressa para não passar a entrada da viela. Há quase 20 anos Gabriela se aposentou como professora, mas a sensação é que hoje, com 84, trabalha mais do que em sua mocidade. Ela ministra cursos, palestras e faz pregações Brasil afora para ensinar as pessoas a perdoar. Um trabalho e tanto, afinal, quem já se magoou ou magoou alguém sabe exatamente que o ato de perdoar ou pedir perdão é um processo que leva tempo, mas necessário para a qualidade de vida de todos os envolvidos. Ela coleciona bonitas histórias e, em muitas delas, testemunhou o quanto a falta de perdão ocasionava dores físicas que médico nenhum conseguia curar e traumas que psicólogos não resolviam mesmo após muitas sessões.
Gabriela nasceu em São Paulo (SP), mas ainda bebê se mudou para São José do Rio Pardo (SP). Na infância descobriu que era criada pelos tios, experimentando pela primeira vez o quanto é difícil perdoar. “Eu conheci minha mãe com 13 anos de idade e tive muita dificuldade para perdoá-la. Sentia-me rejeitada, pois ela nunca havia ido me ver.” A vida ainda lhe traria mais provações. “Casei com 21 anos e, 12 anos depois, fiquei viúva. De novo me senti rejeitada, mas dessa vez por Deus. O que me ajudou foram alguns livros sobre oração, mas nada que falasse de perdão. Achei um que falava sobre louvar e, nesse ato de louvar, eu consegui perdoar meus pais e até tirar de mim a revolta que sentia de Deus por ter perdido o marido.”


Doenças físicas –
O trabalho de Gabriela começou a tomar forma quando evangelizava crianças utilizando fantoches na creche das irmãs Filhas de São Vicente de Paulo. Os pais que acompanhavam os filhos até o local procuravam Gabriela para ouvir aconselhamentos de vida. “Eles estavam muito angustiados e aflitos.” Foi aí que Gabriela notou um ponto em comum: “A maioria dos problemas era porque as pessoas não perdoavam”, explica. Não demorou para que o padre de sua paróquia pedisse que ela desse uma palestra sobre o tema para a comunidade da Igreja. A extensa experiência de vida tornou-se um livro, Na Força do Amor e do Perdão, lançado em 2002, e que já está em sua 12ª edição, além de outros livros de orações e um CD.
A palestrante afirma que situações mal resolvidas e pessoas que guardam mágoas e rancor podem desenvolver problemas de saúde. O que Gabriela aprendeu por experiência própria, os cientistas já percebem em suas pesquisas. Na prestigiada Universidade Stanford, na Califórnia (Estados Unidos), o médico Fred Luskin desenvolveu um curso para aprender a perdoar chamado Forgive for Good (Perdoar para o Bem, em tradução literal). O curso baseia-se em pesquisas e dados científicos que ligam patologias físicas a causas emocionais, como o perdão. “Lá é pago, e muito bem pago, e eu ofereço de graça”, diverte-se Gabriela. “Já conversei e fui procurada por psicólogos e médicos que contam de pacientes com doenças que são puramente psicossomáticas e remédios não fazem efeito nesses casos. Dor de estômago que comendo ou não dói do mesmo jeito, faz exames e não acha nada, dores em outras partes do corpo, problemas na hora de dormir e até mesmo alguns cânceres, como os de mama. São sentimentos negativos guardados e que a pessoa vai se autodestruindo psicologicamente refletindo fisicamente. Boa parte desses casos é por falta de perdão.”


Tempo para o perdão -
O perdão é um processo, por isso, as orações que propõem precisam ser feitas diariamente. “Não tem café da manhã sem o perdão”, ensina Gabriela. “Na oração do Pai-Nosso, ao chegar na parte do ‘perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido’, para e fala o nome da pessoa que você precisa perdoar. Eu preciso viver o perdão, não tem outro jeito. A Palavra de Deus é clara”, diz, pegando sua velha Bíblia em mãos e citando um trecho do capítulo 11 do Evangelho de São Marcos, onde Jesus afirma aos discípulos que tudo o que pedirem em oração será atendido, mas... “Esse ‘mas’ é que atrapalha, pois logo depois ele afirma ‘mas, quando vos puserdes em oração, perdoai se tiverdes algum ressentimento contra alguém para que também vosso Pai que está nos Céus perdoe os vossos pecados’”. Jesus termina dizendo que se não fizer isso, também Deus não poderá perdoar. “É o próprio Jesus que fala. E não é que Deus não queira perdoar, ele quer. Mas Jesus fala explicitamente que não pode, pois sou eu mesmo que não deixo, colocando uma barreira que impossibilita o perdão de Deus chegar até a mim.”
 E emenda com uma história: “Uma vez um padre me chamou para dar a palestra do perdão na paróquia dele. Estava aflito porque as pessoas na hora da confissão diziam não perdoar alguém e, sem a pessoa perdoar, ele não pode dar a absolvição! Então a pessoa saía da confissão da mesma forma que entrava. Isso é muito sério”. Em outra história, Gabriela conta de um jovem padre que a procurou para lhe pedir perdão. Ela estranhou porque não conhecia o rapaz. Foi quando ele explicou que quando tinha 13 anos ouviu o CD dela com orações para perdoar e, uma delas, havia a repetição da frase “amo e perdoo, perdoo e amo”. Nesse momento, o então garoto esmurrava a mesa chorando e gritava que não perdoaria o pai e nem aquela moça do CD, que o fazia sentir mais raiva. O inusitado é que, mesmo com todo esse processo, o menino colocava a oração pra tocar no dia seguinte, até que a raiva passou, e ele conseguiu perdoar o pai. “Ele estava me procurando há anos, querendo me conhecer pessoalmente para agradecer e pedir perdão”, conta Gabriela.
E se a situação se inverte? Se foi você quem feriu alguém, e essa pessoa não quer lhe perdoar? “Reze por ela”, afirma Gabriela. “Peça que Deus faça com que o coração dela possa se voltar ao amor. Além de orar, deve agradecer a Deus a graça que ele deu para pedir perdão, louvando a Deus pela pessoa não ter perdoado.” Louvar por não ter sido perdoado? “Sim, é preciso, pois louvando a pessoa que não perdoou, você se sente desprezado, mas faz com que seu coração fique humilde diante de Deus.”
Gabriela alerta que não podemos misturar perdão com sentimento. “Perdão é um ato de decisão. Primeiro a gente toma a decisão de perdoar, aí começamos a fazer o exercício do perdão. No início é apenas da boca pra fora, tem gente que leva meses e até anos nesse processo porque nosso coração é duro. É um perdão doído, porque é feito apenas para cumprir o que Jesus fala, mas depois de uns dias, você sente que vai modificando, vai sentindo mais facilidade para fazer o exercício de perdão. Quando você começa a ter compaixão pela pessoa que lhe feriu, é sinal que o coração começou a se ajoelhar. É aí que perdoamos de coração, é o momento que você consegue romper a terrível corrente que o(a) prende àquela pessoa, tornando-se livre. E quantas doenças são curadas assim? Muitas. Não é impossível perdoar, se fosse, Jesus não teria deixado claro a importância do ato.” E encerra com a frase de São João Paulo II, que inclusive abre um de seus livros, lembrando que também ele passou publicamente pelo processo do perdão, quando da tentativa de seu assassinato em plena Praça de São Pedro: “Somente o perdão pode sanar as feridas do coração”.




Fonte: FC ediçao 971-NOVEMBRO 2016
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

O futuro chegou
O sociólogo Domenico De Masi fala sobre o potencial brasileiro diante da nova configuração econômica e cultural do mundo. Autor de diversos livros entre eles Ócio criativo, o sociólogo participa entre os dias 20 e 22 de março do Refletir Brasil.
Papa Francisco
Pela primeira vez em 1300, a Igreja Católica terá um papa não europeu – confira a relação de papas de fora do velho continente no box abaixo. O novo papa é o religioso argentino jesuíta Jorge Mario Bergoglio, de 76 anos. Ele adotou o nome de Francisco,
Vidas em canção
No ano de 1995, padre Zezinho, scj, lança o álbum: Quando a gente encontra Deus. No verso desse trabalho, há o desenho de alguns jovens e abaixo intitulado: Cantores de Deus, é o começo de uma história
Início Anterior 42 43 44 45 46 47 48 49 50 51

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados