Líder dos trabalhadores

Data de publicação: 14/12/2016


O legado de Waldemar Rossi na Pastoral Operária mostra que seu compromisso integral com os trabalhadores foi essencial para a solidificação da classe

                                    
Por:
Renan de Souza

Há dois meses o mundo do trabalho recebeu a notícia de que Waldemar Rossi, um dos fundadores e principal liderança da Pastoral Operária (PO), foi para junto de Deus. Nos seus 83 anos de vida, Waldemar trabalhou por 73 e, mesmo recentemente, com a saúde já debilitada, ainda fazia questão de se inteirar dos rumos e discussões da Pastoral Operária. Natural de Sertãozinho, no interior de São Paulo, era Congregado Mariano e foi lá que teve uma palestra sobre o papel do cristão no trabalho, na escola, na família e em toda a sociedade, sendo sal, luz e fermento na massa. O palestrante era um jovem promotor da cidade, com apenas 25 anos e em seu primeiro mandato: Plínio de Arruda Sampaio. Segundo Waldemar, aquela conversa mexeu com ele e, meses depois, foi chamado pelo Plínio para integrar a Juventude Operária Católica (JOC).

Compromisso –
E foi assim que, a partir de 1955, passou a defender os trabalhadores explorados, “por ver no meu irmão operário, explorado, a figura do próprio Jesus”, afirmava Waldemar, em entrevista para o portal Memórias Operárias. Sempre defendeu uma organização de trabalhadores em que os próprios trabalhadores fossem os protagonistas e a partir do local de trabalho, sem a interferência de patrões e sem precisar de autorização de nenhum órgão do governo para funcionar livremente. Seguindo o exemplo de São Paulo, fez-se um operário para poder falar como um deles: “Se eu quisesse ser realmente fiel aos meus compromissos de classe, compromisso com os valores do Evangelho, da justiça, solidariedade e tudo mais, eu deveria estar entre os trabalhadores num setor de ponta”. Assim, Waldemar torna-se metalúrgico para fazer a evangelização no chão de fábrica.
O trabalho dele na JOC e, posteriormente, na Ação Católica Operária (ACO), fez com que fossem formados pequenos grupos de trabalhadores católicos, que refletiam a realidade vivida no trabalho na ótica das exigências evangélicas da justiça e da solidariedade. Em outubro de 1970, a Pastoral Operária é reconhecida formalmente pela Arquidiocese de São Paulo (SP), na celebração da Missa pelo Salário Justo, pelo cardeal dom Agnelo Rossi. Baseada na Doutrina Social da Igreja, desenvolvida a partir da encíclica Rerum Novarum, publicada pelo papa Leão XIII, em 15 de maio de 1891, que enfatizava a primazia do trabalho sobre o capital, a PO defende um sindicalismo independente e organizado a partir do local de trabalho, principalmente nas fábricas e também defendendo melhores condições de trabalho e salário. Posteriormente a pastoral ganha um novo impulso pelo papa São João Paulo II, que enfatizou o trabalho como chave essencial da questão social, por meio da encíclica Laborem Exercens, de 1981. Hoje está presente em mais de 61 dioceses de 14 estados do Brasil.

Ser cristão – “O Waldemar era uma figura que não tinha como passar impune, sendo presença marcante, muito significativa”, afirma o historiador Paulo Pedrini que conheceu Waldemar no fim da década de 1980, e foi escolhido pelo próprio como um dos continuadores do trabalho na PO. Considera Waldemar como um segundo pai e destaca a coerência de quem sempre fez o que defendia: “E isso é uma virtude, principalmente nos dias de hoje. Outro ponto é que ele poderia discordar profundamente de tudo o que a outra pessoa estava dizendo, mas ele sabia fazer a crítica. Não se omitia, mas fazia a crítica de forma fraterna, construtiva, ajudando a pessoa a ponderar outros aspectos, a refletir”.
Com o engajamento social e a favor dos trabalhadores, não tardou para que Waldemar fosse preso e torturado pela ditadura militar no Brasil. Em 1974 ficou quatro meses preso com outros colegas, pego enquanto fazia uma reunião dentro da Igreja São João Batista, no Brás, bairro de São Paulo. “Uma pessoa que podia ter se revoltado, mas nunca falou sobre o episódio com um sentimento de vingança”, explica Paulo. “Ele tinha clareza que estava cumprindo o papel dele, a favor das liberdades democráticas, organizando os trabalhadores diante daquele quadro de repressão. Fez o que tinha que fazer e não estava cometendo nenhum crime.”
Padre Miguel Pipolo, 75 anos, hoje pároco da Igreja Nossa Senhora Auxiliadora, de língua inglesa, em São Paulo, participava das reuniões da Pastoral Operária na década de 1980, realizadas na Igreja do Carmo, na Bela Vista, outro bairro paulistano, junto com Waldemar Rossi. O sacerdote conta que nos encontros discutiam-se os rumos e as questões que envolviam a classe trabalhadora e se os movimentos representativos estavam dando respostas a essas questões. Também propunham soluções, sempre baseadas no Evangelho. “Ele enfatizava o valor do trabalhador. “Gostava de enaltecer o fato de que o próprio Jesus Cristo era visto e entendido como um filho de carpinteiro, filho de um trabalhador”, afirma o padre. E assim resume a figura de Waldemar: “Era um cristão por excelência. Alguém que procurou ser fiel ao Batismo que recebeu e, acima de tudo, aplicar o Evangelho às situações concretas do cotidiano, principalmente nas questões sociais”.
Um dos fatos marcantes, porém frustrante, na vida do Waldemar, segundo ele mesmo, foi quando dom Paulo Evaristo Cardeal Arns, então arcebispo de São Paulo, o escolheu para representar os trabalhadores na saudação a São João Paulo II no Brasil, em 1980. Porém, a saudação teve uma série de percalços, incluindo o sequestro de Dalmo de Abreu Dalari, presidente da Comissão de Justiça e Paz na época, um dia antes do encontro com o papa. Esfaqueado e atirado em terreno baldio pelas forças de segurança, foi encontrado por vizinhos e levado ao hospital. De lá seguiu, de maca e enfaixado, para fazer uma das leituras da missa. Waldemar também teve problemas no local do evento, pois um general não permitia sua entrada. Após, finalmente, entrar com uma credencial de dom Paulo Arns, o secretário papal pediu que encurtasse a saudação devido aos atrasos dos eventos e à saúde do papa: “(foi frustrante) porque o centro da mensagem trazia denúncias e apelos muito fortes, condizentes com o momento histórico”, disse ele.

Trabalho, liberta –
Nos últimos meses, apesar de já afastado de suas funções na Pastoral Operária, Waldemar Rossi era considerado ainda a principal liderança, tanto que sempre era consultado e ouvido atentamente, inclusive pelos mais jovens. “Ele era um estimulador, animava as pessoas e chamava para o compromisso, com pé no chão”, afirma Arlete Martins, que conhecia Waldemar havia 40 anos. “Tinha uma linguagem e uma facilidade de comunicação muito grande com a juventude, e partia de exemplos concretos, da realidade do grupo com quem ele dialogava.” Via os jovens como os verdadeiros continuadores da pastoral, e era preciso deixar na mão deles as novas discussões sobre a classe trabalhadora.
Segundo dados do Ministério da Justiça, todos os anos mais de 2 mil pessoas são libertadas do trabalho análogo à escravidão no Brasil. São casos de ameaças de morte, castigos físicos, alojamentos sem rede de água e esgoto, sem camas, jornadas que ultrapassam 12 horas por dia, falta de equipamento de proteção e até de alimentação, além de dívidas que impedem o exercício de ir e vir. Minas Gerais lidera a lista de estados com maior número de resgates, seguido por Pará, Goiás e São Paulo. Mesmo nos trabalhos legalizados, há muita precarização, como no caso dos trabalhadores terceirizados, que, muitas vezes, desempenham a mesma função dos contratados, mas com salários menores e sem benefícios. Diante de tantos dados alarmantes, percebe-se que as ações da PO terão ainda que ser mais firmes, para que o legado de Waldemar Rossi permaneça, levando “a reflexão e a ação sobre a realidade da classe trabalhadora, mas, assim como Waldemar, fazendo essa reflexão de forma cristã”, conta Mônica Fidelis, uma das atuais coordenadoras da PO Nacional.




Fonte: FC ediçao 971-NOVEMBRO 2016
Postado por: Família Cristã




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