Música de rua

Data de publicação: 11/01/2017



O músico Denis Guilherme tem 25 anos, um violão e o sonho de levar cada vez mais música e esperança aos moradores em situação de rua

                            
Por: Karla Maria

As águas termais de Poços de Caldas, em Minas Gerais, são famosas por suas propriedades curativas e terapêuticas. Elas são um dos grandes motivos de orgulho da cidade, atraindo turistas de todas as partes há muito tempo.
O que os turistas passam a perceber também, especialmente se caminham pela região central da cidade, é a frequente presença de moradores em situação de rua. Estão nas praças, bancos e marquises apontando um problema que não é exclusivo ao povo poços-caldense.
Não há pesquisas sobre o número de habitantes da cidade nessa situação, mas o Mapa de Pobreza e Desigualdade – Municípios Brasileiros 2003, feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela um índice de 10,44% de incidência de pobreza da população da cidade, que conta com cerca de 165 mil habitantes.
No Brasil, também segundo o IBGE, existem cerca de 1,8 milhão de moradores em situação de rua, o que representa quase 1% da população, e foi olhando para essa realidade que o mineiro de Poço Fundo, Denis Guilherme Machado, 25 anos, resolveu fazer sua parte para minimizar o impacto da pobreza na vida do povo de Poços de Caldas.

                      

Projeto de esperança –
Não tinha dinheiro para grandes doações, mas tem talento para cantar e por isso saiu às ruas da cidade para alegrar a vida dos moradores em situação de rua. “Sempre tive a ideia de unir música a esse lado social. Você percebe que tem muita gente na rua, e eles estão perdidos. Já há doação de roupa, de alimento, não tinha um lazer, então fui doar a minha música”, conta.
E assim surgiu o Projeto Morador de Rua, que já caminha para o terceiro ano. “O projeto dissemina cultura e música de qualidade para todo tipo de faixa etária e classe social, descentralizando as atividades culturais e não as deixando à disposição somente dos mais favorecidos”, explica o jovem.
A Praça Pedro Sanches, na região central da cidade, é um dos pontos onde Denis toca para os que fazem da rua seu lar. Ficam ali pessoas que tiveram desavenças em casa, que se tornaram dependentes químicos, sem esperança e meios de recomeçar a vida e fora dos padrões de socialização, incapazes de seguirem regras comuns que normatizam o dia a dia dos cidadãos.
Prova disso são alguns dos relatos apresentados por pessoas em situação de rua de Poços de Caldas aos pesquisadores do estudo Vozes da Rua: Um Relato de Experiência com Moradores de Rua.
 “Na rua, vai indo, a gente esquece de tudo, deixa de lado a higiene pessoal.” “Na rua a gente não tem que pagar uma conta de água, uma conta de luz... a gente não tem responsabilidade com nada.” A gente tem que beber pra poder pedir (dinheiro), porque aí a gente tem vergonha de pedir de cara limpa...”.
Valdeci da Silva, 35 anos, conhece bem essa realidade. Lida com ela todos os dias na Casa de Passagem São Francisco de Assis, onde é monitor. A Casa está localizada no centro da cidade, recebe apenas homens que estão em situação de rua e Denis, com seu projeto social de levar música aos que estão desprovidos do que é mais essencial: uma família, um lar.
“É muito interessante o trabalho que Denis desenvolve e muito positivo, porque nos dias que ele vai as pessoas interagem, pedem músicas, se divertem e isso é raro, já que eles não gostam de ficar no abrigo. Dizem que na rua conseguem comer mais e melhor, além de ganhar mais dinheiro”, conta Silva.
A Casa de Passagem São Francisco é mantida atualmente pela Associação Católica Divinos Corações, que manifestou publicamente através de uma carta sua admiração pelo trabalho do músico. “A associação reconhece e acredita que o Projeto Morador de Rua contribui para a mudança de vida e dos valores culturais das pessoas atendidas por essa entidade.”

                     
Música na vida –
Mas Denis não quer parar em Poços de Caldas, pretende ampliar o projeto para todo o estado e depois para o Brasil. Com o intuito de bancar os custos do projeto na cidade, o músico fez parceria com uma advogada e recebeu apoio da prefeitura por meio de um edital de fomento à cultura no município. “Agora, quero através da lei de incentivo estadual levar esse projeto a todo o estado de Minas e depois através da Lei Rouanet (Lei Federal de Incentivo à Cultura, que institui políticas públicas para a cultura nacional) chegar ao Brasil. Meu grande sonho é conseguir executar meu trabalho nessas entidades. Esse é meu objetivo desde moleque.”
Além de levar a música, o jovem, que também é autor de composições e já possui mais de 400 canções, quer com a ampliação do projeto levar o ensino de violão e produzir um CD com as letras compostas pelos próprios moradores em situação de rua. “Há muitos artistas espalhados pelas ruas, pessoas talentosas que não conhecemos, e eles também precisam de espaço para mostrar esse talento, isso pode mudar a vida de uma pessoa”, acredita o músico.
Seu amor pela música também é coisa de moleque. Tinha 11 anos quando tudo começou. Na adolescência, tocou em bandas e há sete anos segue vivendo profissionalmente da música, tocando em bares e casas de show. Seu estilo musical é eclético: rock, Música Popular Brasileira, sempre voltado para o violão instrumental. É som de qualidade.
É casado com Márcia Maria Massafera, 32 anos, há um ano e enxerga nela o apoio incondicional para seguir com seu sonho de viver da música e de levá-la para os mais pobres. “No começo foi complicado viver de música e ser respeitado por essa decisão, as pessoas não acreditavam, mas graças a Deus hoje conseguimos manter nossa casa com nossos trabalhos”, conclui o jovem.

Box

Facebook @projetomoradorderua
Sobre o músico: tnb.art.br/rede/denisguilherme
 




Fonte: FC ediçao 972-DEZEMBRO 2016
Postado por: Família Cristã




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