Emoções que falam

Data de publicação: 06/02/2017

As crianças sentem, amam, sofrem, nem sempre verbalizam, mas as emoções estão ali sendo manifestadas pelos olhares, atitudes e gestos


Por: Silvia Torreglosa
Ilustração: O grande livro das emoções, editora Paulinas

“Olá! Como vai?”
“Eu vou indo. E você, tudo bem?”
Assim começa a música Sinal fechado de Chico Buarque. Assim se iniciam muitas conversas, diariamente as pessoas perguntam e são inquiridas sobre como estão se sentindo, nem sempre esperam que haja resposta, mesmo porque essa indagação, muitas vezes, é feita por educação, algo que está presente na cultura de um povo. Trata-se da função fática da linguagem que tem o objetivo de estabelecer uma relação entre as pessoas que estão falando e serve também para dilatar a conversa.
As respostas mais honestas, nesse caso, podem causar até estranheza, pois geralmente quem pergunta consegue ouvir algo como “assim, assim”, “vou levando”, “empurrando com a barriga”, ou, simplesmente, “estou bem, e você?” devolvendo a questão para o interlocutor.
Desde pequenas as pessoas são acostumadas a não falar de seus sentimentos fácil e abertamente, mesmo quando outras perguntam, mas as emoções se mostram não só com palavras, o corpo fala e demonstra o tempo todo o que a boca cala.

Um livro, muitas emoções – A autora inglesa de mais de 90 livros para crianças, Mary Hoffman, escreveu O grande livro das emoções, ilustrado por Ros Asquith, de Paulinas Editora. Ela inicia sua narrativa fazendo uma pergunta sincera, como se estivesse olhando nos olhos das crianças, com calma, esperando realmente uma resposta sincera: “Como você se sente hoje?”.
Nesse momento, o pequeno leitor encontra vários retratos ilustrados de crianças, representando emoções distintas como ciúme, tristeza, animação, felicidade, tédio, entusiasmo e é levado a identificar o sentimento de cada uma, já observando que “nem sempre é fácil descobrir”, dessa forma desenvolve seu senso crítico ao decodificar o mundo a partir de suas emoções e sentimentos.
Os conflitos do cotidiano também assolam as crianças, e a obra permite de uma forma lúdica e descontraída a abordagem de assuntos sérios, levando as crianças a refletirem sobre o que sentem. Cada emoção é tratada no livro individualmente como, por exemplo, irritabilidade, paciência e perdão, e conta com ilustrações atrativas para complementar e reforçar a ideia.
A combinação do texto com a ilustração caminha harmoniosa, explicitando em palavras e imagens as emoções e, ao falar de sentimentos simples e complexos, consegue demonstrar menos ou mais tristeza: “Um dia chuvoso pode deixá-lo triste. Mas isso passa logo. Mas, quando morre uma pessoa muito querida, a tristeza é tão grande, que parece que uma enorme nuvem de chuva está sobre nós”.
E, ao criar uma imagem que simboliza o ciúme – o monstro de olho verde – a criança é convidada a lidar com a questão “quem sabe você encontra um jeito de destruir o monstro do ciúme?”.
Além das ilustrações contemplarem a diversidade étnica, elas celebram o verdadeiro sentido da inclusão, pois o elenco inclui crianças com cadeiras de rodas, andadores, óculos para deficiências visuais. Essa abordagem é convincente, sem ser artificial.



Quando sentir é confuso
– O psiquiatra Nelson Goldenstein, que coordena a pesquisa Identificação e intervenção precoce de indivíduos em risco de adoecimento psicótico, realizada no Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, afirma que a verbalização dos sentimentos é difícil para as crianças. “Elas reconhecem os sentimentos, mas não possuem a mesma capacidade narrativa de vivência que os adultos e, por isso, nem sempre conseguem transformar o que sentem em palavras de adultos para que se estabeleça a comunicação.”
Dentre as muitas ferramentas e recursos que existem para decodificar o que as crianças sentem, ele garante que a iniciativa apresentada por O grande livro das emoções pode contribuir para que as crianças mostrem aos pais e educadores seu estado de espírito e suas dificuldades através da interação com o livro.
O limite entre a dificuldade de manifestar e verbalizar as emoções e uma condição psiquiátrica é relativo, depende do nível de prejuízo, de comprometimento, que determinado sentimento está causando na vida cotidiana da criança. “Por exemplo, se uma criança não está conseguindo ter aproveitamento escolar, não se relaciona com os coleguinhas e em casa está apresentando um comportamento de maior retração ou dificuldade de interagir com os pais, a avaliação é que vai nos guiar para verificar se está em um nível de intervenção psiquiátrica, ou não”, explica.
Dr. Nelson alerta para o fato de que, ao longo dos últimos 20 anos, “a psiquiatria ficou demasiadamente influenciada por certa abordagem de sintomas de face, ou seja, como se apresentam, hoje, cada vez mais, temos nos preocupado em não só ver a forma descritiva do sintoma, mas poder contextualizar e investigar melhor”.




Fonte: 938 - FC fevereiro 2014
Postado por: Família Cristã




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