Limite X Liberdade

Data de publicação: 17/02/2017

Liberdade e limite não se opõem, mas se complementam, é importante integrar esses dois aspectos na vida é um aprendizado 


Por Nathan Xavier

“Grandes poderes trazem grandes responsabilidades.” Todo mundo que gosta de cinema ou quadrinhos conhece essa frase. Foi a maior lição que Benjamin Parker, ou Tio Ben, deu a seu sobrinho, Peter Parker, na primeira aventura do personagem Homem Aranha, criado por Stan Lee. E faz tempo. Foi em 1962, no 15º volume da revista Amazing Fantasy, mas repetida no filme Homem Aranha, de 2002, dirigido por Sam Raimi.
Na história, o futuro Homem Aranha presencia um assalto a uma pessoa que havia sido injusta com ele. Ao ficar cara a cara com o assaltante, deixa-o fugir quando poderia capturá-lo. É esse mesmo bandido que, logo depois, rouba e mata seu tio. A frase dita por ele antes de falecer ficou gravada no super-herói. Foi ali que o Homem Aranha aprendeu a lição que a liberdade impõe. Poderia ter detido o homem, mas, livremente, escolheu a vingança ao invés da justiça. O preço que pagou foi muito caro. Mas isso é ficção, certo? Certo. Porém a frase do personagem criado por Stan Lee pode servir para nosso dia a dia, assim como seu drama.
A ideia não é nova. Há quem credite a frase ao pensador Voltaire, mas ela possui bastante semelhança com uma passagem bíblica: “A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido” (Lc 12,48). A Igreja Católica, sabiamente, em seu Catecismo, já escreve que “a liberdade é o poder” (CIC 1731). Poder esse que “implica a possibilidade de escolher entre o bem e o mal e, portanto, de crescer na perfeição ou de falhar e pecar” (CIC 1732).
Peter Parker tinha uma escolha. Partiu dele a decisão de não prender o assaltante, pois pensou “pequeno”. Não viu as coisas “do alto”. E quantas vezes não fazemos da mesma forma? Queremos ser livres para escolher, mas sem estarmos preparados para a responsabilidade que essa liberdade traz.

Sem limites − Todo jovem tem o impulso pela liberdade. Livrar-se dos pais, do colégio, ter mais tempo para fazer o que quiser. Acredita que já tem idade suficiente para fazer todas as coisas que os pais falam que não. As férias trazem um alívio: a escola dá um tempo. Quem não quer chegar logo aos 18 anos? Ou aos 21, 25... Ou sair da casa dos pais? E enquanto a idade ou a independência não chegam, os pais e o colégio estão ali para impor limites. É algo bem chato, não? Há o desejo profundo de ter total liberdade, no entanto, há os limites.
A sociedade ensina que liberdade com limites não é liberdade. Mas ser livre é mesmo fazer tudo o que se quer, do jeito que se quer, na hora que quiser? Segundo a psicóloga Cintia Nunes, a pessoa sem limites adquire distúrbios de comportamento. E ela vai além: “Os adolescentes, por estarem inseridos na cultura do ter e não do ser, podem tornar-se mais agressivos e mais propensos ao uso de drogas, por exemplo”. Falando em drogas, temos aí o maior exemplo do que a liberdade sem limites pode causar: escravidão. Mas todo mundo sabe que droga faz mal. E um jogo de computador, fazer compras, ver televisão, fazer exercícios ou ficar na internet? Se não tivermos limites para isso, pouco a pouco nos viciamos também e, o que era para ser bom, se torna mal. Parece vantajoso e tentador no início, mas logo vira um problema.
Numa ponta há o grito por liberdade e na outra há o risco do tornar-se escravo do consumismo, do celular, da internet, dos jogos. Acredita-se que, sendo livre de limites, se pode ser feliz. E há o risco de buscar a felicidade em coisas que escravizam pouco a pouco.
Estudante de Direito, Maria Fernanda Müller, 20 anos, afirma: “Não me considero totalmente livre, e não acho que nenhuma pessoa seja livre de fato. Vivendo em qualquer tipo de sociedade, somos livres de acordo com os direitos e deveres aos quais somos submetidos”. A psicóloga Cintia Nunes explica que liberdade e limite não se separam. “A expressão do desejo vem atrelada à censura interna de cada um e vem junto aos seus processos de escolhas que implicam em riscos e consequências.”

Livres para amar − Para Cintia Nunes, a liberdade é a “expressão de nossa identidade, desejos, valores, pensamentos e limites”. Tudo isso faz parte e serve como limitador do nossas decisões. No fundo, precisamos nos autoconhecer para termos pleno domínio da nossa liberdade. Quando somos jovens, não pensamos muito nisso. Queremos testar tudo, ser livres para tentar de tudo, e é natural. No entanto, com ajuda dos “limitadores externos”, que são nossos pais, professores, até mesmo colegas e irmãos, somos capazes de construir nossos “limitadores internos”. Para isso, precisamos exercitar a humildade e o diálogo. Disley Giovannetti, terapeuta ocupacional, e mãe da Maria Fernanda e do Pietro, 14, concorda: “Sempre tivemos muito diálogo com nossos filhos, e eles sempre nos ouvem. Tudo é com muita conversa”. Ela considera os dois muito responsáveis: “Quando meu filho tinha sete anos, prestei atenção no que estava jogando no video game e achei o jogo extremamente violento. Sentei com ele e conversei sobre aquela violência. Ele olhou pra mim e disse que sabia bem que violência não é boa, que ele não era violento e que aquilo era somente um jogo”. Maria Fernanda acredita que os limites que os pais lhe impuseram na infância e na juventude a ajudaram a formar o que ela é hoje: “Só sou uma pessoa responsável porque meus pais sempre me deram limites. É impossível uma pessoa se tornar responsável sem saber dos limites, pois eles funcionam como uma referência”.
Cintia Nunes lembra que a relação pais e filhos é sempre desafiadora para ambos, mas necessária: “Através do diálogo e da escuta é que se pode perceber a própria liberdade e a dos filhos. Isto é um processo constante de construção”, conclui.





Fonte: FC edição 944 - Agosto 2014
Postado por: Família Cristã




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