Maldade na infância?

Data de publicação: 22/02/2017

Por Silvia Torreglosa


Problemas de comportamento em crianças podem demonstrar algum transtorno psíquico,
mas é preciso cuidado para não se deixar levar por um diagnóstico superficial



Contexto e diálogo, palavras de ordem para manter o equilíbrio no diagnóstico de transtorno de comportamento em crianças. Mau comportamento na escola, brigas com os colegas ou irmãos, mentiras podem fazer parte do processo do amadurecimento ou, simplesmente, significar que a criança está pedindo atenção, principalmente, dos professores, dos pais ou de quem é responsável por ela. Mas como saber o limite entre um problema corriqueiro e a necessidade de auxílio profissional, psicológico e/ou psiquiátrico para lidar com os pequenos?
A psicóloga hospitalar Silvia Guellero, especialista em psicologia clínica pela Universidade de São Paulo, USP, diz que muitos distúrbios de comportamento são tratados, atualmente, de forma inadequada. “Existem algumas crianças que já nascem com algum tipo de psicopatia, geralmente os pais devem ficar atentos aos comportamentos ligados às reações da criança, em relação às consequências do que fazem”, explica.
Ela diz que muitas vezes os pais buscam tratamento psicológico para o filho, mas, na verdade, é a família toda que precisa de orientação, pois a criança reflete, em seu comportamento, a educação dada pelos pais, a falta de definição de limites e de atenção. “É preciso verificar, também, se esse comportamento se estende às outras crianças, se é recorrente em outras situações além da escola”, orienta Silvia.
“Ele não me conta nada”, “ele mente”, “não aguento mais tanta reclamação e bilhetinhos da escola!”, será que os pais estão oferecendo oportunidade de diálogo para os filhos? Por isso é importante que haja sempre observação e atenção na educação dada à criança. A psicóloga diz que “a interação familiar é muito importante, muitas vezes o problema não é a criança, mas é ela que manifesta esses desequilíbrios, como um ‘bode expiatório’”.
Trata-se de uma questão delicada, porque as famílias muitas vezes creem que fazem o certo Silvia alerta para o fato de que existem muitas crenças, valores e comportamentos nocivos, e até inconscientes, que cercam a família. Os adultos podem não perceber, mas a criança, por ser mais vulnerável, manifesta como sintoma. Ela lembra que “punir a criança por mau comportamento pode ser para ela um reforço para fazer outras coisas desse tipo, ou piores”.

Alerta – A falta de remorso, a apatia em relação a um mal que a criança causou a alguém, a repetição de atitudes nocivas, como maltratar animais, costumam demonstrar que existe algo a ser investigado mais a fundo. Alguns distúrbios psiquiátricos podem começar a se manifestar na infância.
O psiquiatra Nelson Goldenstein, que coordena a Pesquisa Identificação e Intervenção Precoce de Indivíduos em Risco de Adoecimento Psicótico, realizada no Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, diz que no caso de criança pequena não deve ser feito um diagnóstico fechado em uma única condição ou característica. “Avaliamos o que está mais presente e ajudamos a criança a superar aquilo. Agora, quando isso toma uma proporção muito grande, muito marcante, daí procuramos fazer um diagnóstico para determinar o tratamento a ser feito, afinal, ela está se baseando em quê? Reagindo a quê? São uma série de cuidados e perguntas que podem ser desenvolvidos para fazer um diagnóstico mais preciso.”
Para estabelecer esse limite, é preciso avaliar o nível de prejuízo que o comportamento está alcançando tanto para o paciente, quanto para quem o cerca, e fazer uma abordagem não só descritiva do comportamento, não apenas o sintoma de face, “quando aquela determinada condição começa a atrapalhar tudo, a orientação é ser o mais compreensível possível, em vez de puramente reconhecer a forma, mas também compreender o contexto de como se dá esse comportamento e como a criança está vivenciando aquilo tudo”, observa dr. Nelson.
Normalidade e psicopatia
É essencial verificar se a má conduta se apresenta isoladamente ou representa um desvio do comportamento esperado para uma criança daquela idade. O transtorno de conduta é um dos problemas mais frequentes de encaminhamento ao psiquiatra infantil, caracteriza-se por um tipo de comportamento antissocial que se pauta por ações não aceitas pela sociedade. Mentir, desobedecer ou faltar às aulas pode significar desvio de comportamento e não, necessariamente, transtorno de conduta, pode acontecer devido às companhias, ao ambiente familiar, ou seja, a partir de um contexto familiar, cultural, social.
Já a criança com transtorno de conduta tem a tendência permanente de incomodar, agredir e causar transtornos para os outros sem, portanto, se mostrar com sofrimento psíquico ou algum tipo de constrangimento em relação às suas atitudes.
O tratamento para este tipo de transtorno psiquiátrico é bastante variado, pode incluir terapia familiar e individual ou o ajuste de diferentes procedimentos. E, em alguns casos, é necessário entrar com medicação, quanto mais cedo for identificado o transtorno de conduta, mais benefícios a terapia pode trazer à criança e aos que convivem com ela.






Fonte: FC edição 941 - Maio 2014
Postado por: Família Cristã




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