Espelho do tempo

Data de publicação: 01/03/2017

Por Cleusa e Alvício Thewes
No rosto, as marcas do tempo; no corpo; o passo lento;
 na mente, o alento da sabedoria no coração, um amor  atento



Nair, 62 anos − Em consequência de uma doença de pele, ela foi proibida, por seu médico, de pintar os cabelos. No espelho, um rosto envelhecido e enrugado, coberto por flocos de neve crescidos sobre a cabeça. Que metamorfose! Levanta os braços e olha as mãos calejadas. As dores constantes e incômodas, que nunca pensou fosse um dia ter, causadas pela síndrome do corpo, impedem-na de diversos movimentos.  Por um longo tempo, chorou nostalgicamente e queixou-se muito. Com o passar dos anos, conformou-se.  Acolheu os cabelos brancos e passou até mesmo a gostar deles.  Hoje sente-as embelezados por seus olhos brilhantes e seu sorriso falante. Recolhendo as mãos doídas, deu oportunidade à sua linda voz, com a qual declama, reza e canta.

Betinha, 70 anos − Está bem de saúde, porém perdeu a firmeza e a agilidade de outrora. Mais lenta nas tarefas e cansando fácil, rendeu-se à fala do corpo, em seu novo tempo, Fazer menos e mais devagar.
Diante da televisão, vendo novelas, às vezes, as lágrimas rolam. Como são esbeltas as atrizes! Ela já foi assim. Que saudade dos seus 20 anos!   O espelho, amigo sempre sincero, chateia-a, ao dizer-lhe: “Teu corpo mudou, tuas curvas acumularam gorduras e murcharam”. Ela vai, lenta como tartaruga, comentar com o marido o que ouviu do espelho.  Ele declama: “Aos meus olhos, tu continuas linda e eu te amo cada dia mais”.

Rugas são rendas − Noeli também permite que as lágrimas passeiem no rosto, entre as ruguinhas.  Por um breve instante, na frente do espelho, abstraindo-se da realidade, vê sua pele lisinha, como queria que ainda fosse, porém, um sábio segundo depois, retorna à realidade. As rugas ainda estão ali. De súbito, um clarão cruza-lhe o cérebro. As rugas são manifestações externas do corpo. Dentro de si, ainda habita uma alma jovem, que possui olhos faiscantes. Então passa a ver as rugas de outro ângulo.  Agora elas são luminosas rendas a iluminar seu sorriso; são as folhas da estação do envelhecer, que ofertam, a ela, e a todos, as flores e os frutos de um novo, contínuo e fecundo ciclo de vida.

Flexibilidade gera vida − Juntas doloridas, flexibilidade construída! As juntas são as dobradiças do corpo. Elas desempenham a função de abrir e fechar, dobrar e girar.  Com o tempo, tornam-se mais rígidas e, por vezes, doloridas, denunciando a idade, a falta de manutenção e exercícios adequados. Se bem cuidadas, elas flexibilizam o corpo por mais tempo, para levantar, sentar e até dobrar os joelhos para rezar.
As juntas carregam o segredo da flexibilidade. Corpo rígido, ideias inflexíveis e sentimentos enferrujados quebram a vida. Os relacionamentos também são juntas, mas juntas sociais, e   exigem flexibilidade para facilitar o bom convívio.
Coluna curvada, humildade ofertada. Para alguns idosos, chega o tempo da coluna curvada. Então é a hora de aprender a conviver com essa etapa da vida. Isso se consegue captando a mensagem do corpo, a qual sempre deixou claro que é preciso se curvar para abraçar, servir, contemplar, silenciar e, assim, com esses gestos singelos, cultivar o jardim da vida.  A coluna curvada conduz ao caminho da humildade ofertada.

Transformar − Coração cicatrizado, amor fortalecido. Há uma queixa comum entre os idosos: “A sociedade nos considera ultrapassados e sem importância”.
Em uma sociedade que idolatra o novo e se orienta pelo selo de validade, os idosos se sentem descartados. Porém não são. Seres humanos criados à imagem e semelhança do Pai, as pessoas prescindem de selo de validade, e suas vidas são regidas pelo Criador, o qual nunca as descarta, mas recolhe-as para junto de si.
Há, nos seres, uma degeneração natural, a qual precisa ser entendida, acolhida, cuidada, respeitada.
Comentava a vovó Vera: “Até minha netinha de 9 anos pensa saber mais do que eu”.
Viver, para quem tem saúde, é simples. Porém conviver é, em regra, difícil. E as feridas abertas e as mágoas incuradas, acumuladas nos anos vividos e convividos, podem virar amargura, pessimismo, depressão. Nota-se, todavia, que os idosos, em sua maioria, transformam a sombra do ressentimento em luz de amor, a qual lhes aquece os corações. Cada vez mais idosos frequentam a escola dos joelhos dobrados e das mãos unidas em oração, perante o Pai. Os idosos, tendo corações cicatrizados e fortalecidos, têm e transmitem uma capacidade enorme de perdoar e amar.

O espelho do coração − Betinha e Nair venceram o desafio do espelho. Acolheram a fala das rugas, o limite das juntas (dobradiças), convivem com o bico de papagaio, a coluna curvada, as dores ainda sentidas e até as saradas.
Nos grupos de terceira idade os idosos encontram espaço de partilha e valorização. Ali superam dores, acolhem amores, lubrificam as juntas do convívio, colorem a vida com as rugas rendadas e trocam o espelho de cristal pelos olhos do coração.
Idosos são, na sociedade e no lar, espelhos que refletem o entardecer e a finitude da vida terrena, de todos nós.
Cuide dos idosos, ó Mãe.  Amém!




Fonte: FC edição 943 - Julho 2014
Postado por: Família Cristã




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