A paz é vocação

Data de publicação: 10/03/2017

Por Antonio de Lisboa Lustosa Lopes


A humanidade inteira carrega a potencialidade da paz,
pois traz consigo o dinamismo da realização de si na construção de relações amistosas e pacíficas



 A atual situação aponta para muitas contradições na sociedade. Vivemos um momento de oposição entre facções religiosas e polarização ideológica das pessoas que têm promovido um verdadeiro maniqueísmo histórico. Mas não faltam agrupamentos humanos civis e religiosos levantando a bandeira da paz e da solidariedade. O que parece ser sinal do anseio de comprometimento com a vida.
Dentro do cristianismo, a paz emerge sob a ampla compreensão de ser uma realidade desejada em níveis diversos; reflexo da ordem e da harmonia que resgata o clima que existia no começo de tudo. Entre Deus e a criatura humana, estabelece-se um tempo e um espaço de paz, que é dom divino e tarefa humana na realização da justiça. A humanidade inteira carrega a potencialidade da paz, pois traz consigo o dinamismo da realização de si na construção de relações amistosas e pacíficas que pode estabelecer consigo, com os outros e com todo o universo criado.
Na linguagem poética dos salmos, a paz é tratada como um bem e uma bênção divinos para quem vive a justiça: “Lealdade e fidelidade se encontram, justiça e paz se beijam; a fidelidade brota da terra e a justiça aparece no céu” (Sl 85,11s). O primeiro Isaías aduz no mesmo rumo de entendimento o enlaçamento da paz com a justiça: “No deserto morará a justiça, e o direito habitará no jardim, o efeito da justiça será a paz, a função da justiça, calma e tranquilidade perpétuas; meu povo habitará no lugar pacífico, em moradas tranquilas, em mansões sossegadas” (Is 32,16-18).
 

Uma consequência – O que decorre dessa maneira de pensar é a conclusão de que aquele homem e aquela mulher que se esforçam por viver a justiça já podem experimentar a paz como uma consequência de seu próprio modo de viver. O esforço de ser bom com os outros traz consigo a sensação de serenidade e paz interior, que termina por alcançar a realidade exterior. O impasse prático para a paz é o pecado, o mal, pois não é possível, se sentir em paz quando as próprias relações com os outros se encontram estremecidas.
São Paulo diz que a paz é um permanente desafio ao viver bem com todos, indistintamente, e apresenta Jesus como a nossa paz (cf. Rm 5,1). “O reinado de Deus não consiste em comidas e bebidas, mas na justiça, na paz e na alegria do Espírito Santo. Quem serve assim o Messias agrada a Deus e é estimado pelos homens. Assim, pois, procuremos o que favorece a paz mútua e é construtivo” (Rm 14,17-19). O discurso paulino confirma que Jesus reconciliou a humanidade com o próprio Deus, eliminando toda hostilidade, toda divisão e estabelecendo a paz entre ambos. E toda a humanidade reconciliada, pacificada, encontra no Espírito Santo o caminho de acesso ao Pai (cf. Ef 2,14-18).
Se prestarmos atenção ao desenrolar da história da salvação vivenciada em nossas celebrações litúrgicas, desde o Advento do Nascimento do Salvador até a Páscoa e o envio dos discípulos pelo Ressuscitado para a missão, encontraremos a paz como um refrão que vai e vem de forma repetitiva, quase que como um recurso metodológico para que ela não seja esquecida.
Quando celebramos o Advento, refletindo com o segundo Isaías, teólogo e poeta do “segundo êxodo”, sobre a expectativa messiânica do povo de Israel, encontramos, entre os atributos messiânicos, a questão de ser o Messias o mensageiro da paz: “Quão formosos sobre os montes os pés do arauto que anuncia a paz” (Is 52,7), que deverá consertar o que está desmantelado e nivelar todas as relações. Ou ainda: o evangelista Lucas retoma este pensamento colocando na boca de Zacarias, pai do precursor João Batista, o anúncio em verso: “Pela entranhável misericórdia do nosso Deus, nos visitará do alto um amanhecer, que ilumina os que habitam em trevas e em sombras de morte, que encaminha nossos passos por um caminho de paz” (Lc 1,78s). A paz como enraizada nas entranhas do próprio Deus é trazida por ele mesmo ao ser humano, para que este a realize no dia a dia de sua própria vida.

Um estímulo de busca – Vendo mais exemplos: nas liturgias do Natal, conforme a narrativa de Lucas, uma “multidão do exército celeste” juntou-se ao anjo que falava do menino aos pastores para bendizer a Deus: “Glória a Deus no alto dos céus, e na terra paz aos homens que ele ama!” (Lc 2,14). Assim, para as primeiras comunidades dos cristãos, a paz é uma saudação (cf. Mc 5,34; Jo 14,27; 20,19.21.26), uma invocação (cf. Lc 10,5s) e um estímulo de busca (cf. Mt 5,39.43-47; 7,12). E, por fim, quando o Cristo Ressuscitado aparece para o seu grupo, que estava “com as portas bem fechadas”, atemorizado pelo clima relativo ao seu processo condenatório e à sua morte, coloca-se em seu meio e diz: “A Paz esteja convosco!”. E na mesma cena repete esta frase e ainda diz: “Como o Pai me enviou, eu vos envio” (Jo 20, 19-21). Essa mesma saudação vai se repetir oito dias depois deste encontro, quando Tomé estará presente.
É com tal intenção de missão que, ao enviar os discípulos, Jesus recomenda com clareza que, quando os mesmos se aproximarem das pessoas em suas casas, comecem com esta saudação: “A paz esteja nesta casa”, pois todo discípulo de Cristo é enviado como uma pessoa de paz (cf. Lc 10,5s). E é a paz vivida intimamente e no pequeno grupo de enviados que deve ser compartilhada com os demais. O sincero desejo de paz já carrega consigo um dinamismo próprio para que se estabeleça uma atmosfera de paz. Por isso, as comunidades eclesiais, enquanto discípulas por excelência de Jesus, são enviadas para o acontecer de seu Reino no mundo e devem ser antes de tudo grupos de pessoas pacificadas e pacificadoras.
Assim nos diz ele: “Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz. Não a dou como a dá o mundo. Não vos perturbeis nem vos acovardeis” (Jo 14,27), pois a ação missionária visa à construção da paz.




Fonte: FC edição 968 - Ago-2016
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Um ritual a serviço da cura
também somos chamados a obedecer ao mandamento de cuidar dos enfermos de nosso tempo (Cf. Mc 16,18).
Atitudes desinteressadas
Se a regra da amizade te convida a amar um homem gratuitamente,Deus deve ser amado ainda mais.
Missa versus ruídos
É o Espírito Santo que deve nos levar para frente,com a sabedoria que é uma brisa suave”(Francisco).
Reações e ações na enfermidade
É a luz do sentido e da esperança que chegam,no caminho da vida,sem a qual tudo tem sabor de absurdo
O sentido pascal da vida
A dinâmica pascal da vida faz parte fundamental de nossa proclamação da fé cristã.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados