Na Igreja às Ciências

Data de publicação: 16/03/2017

Por Nathan Xavier


Longe de serem antagonistas, fé e ciência se complementam e podem aprender muito uma com a outra



Numa entrevista concedida em 1930, o conhecido físico Albert Einstein afirmou: “Todas as especulações mais refinadas no campo da ciência provêm de um profundo sentimento religioso; sem esse sentimento, elas seriam infrutíferas”. É de senso comum dizer que a religião é inimiga da ciência e que a Igreja silenciou e perseguiu muitos cientistas, com a Idade Média sendo o exemplo máximo dessas teorias. Mas a própria revisão histórica provou que não foi assim, mostrando que a união entre Igreja e poder político fez com que se colocassem na conta da religião muitos condenados da esfera civil. Diferentemente do que muitos imaginam, a Igreja Católica contribuiu de forma significativa para as ciências, pois diversos sacerdotes também eram grandes cientistas.
Edison Minami, mestre e doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP), confirma: “Seria mais fácil perguntar onde não houve contribuição. Foi a Igreja quem criou as universidades, no século 12, ou seja, todo aquele saber universitário, a música, a retórica, a filosofia, enfim, isso tudo foi difundido graças a ela”. Infelizmente, no decorrer da História, houve alguns abusos, mas foram casos isolados, garante o historiador. Na realidade, algumas ordens religiosas tinham verdadeiros peritos em determinadas áreas, como os Jesuítas, por exemplo, no campo da Astronomia. Não é à toa que 35 crateras da lua foram nomeadas por cientistas e matemáticos jesuítas. “Eles observaram, em alguns casos antes de qualquer outra pessoa, as faixas coloridas na superfície de Júpiter, a nebulosa de Andrômeda e os anéis de Saturno (...) o modo como a Lua afeta as marés, bem como a natureza ondulatória da luz”, afirma Jonathan Wright, em seu livro sobre a história da congregação.
Padre Stanley Jaki, estudioso das contribuições da Igreja às ciências, considera que isso aconteceu porque, desde o princípio do cristianismo, a religião católica identificou Deus como racional e ordenado. Por isso, antes de negar a existência de um ser superior, a ciência contribuía para mostrar que o mundo possui uma ordem e uma lógica, logo, essa racionalidade era uma das maiores provas da existência de Deus. A própria ideia de que o universo é infinito se baseou na crença de que Deus também é infinito, logo, ele não faria o universo de forma diferente. Uma ideia que teve a contribuição principal de Nicolau de Cusa, um cardeal que viveu entre os anos 1401 e 1464. Ao propor a infinitude do universo, mudou todos os conceitos de Física: se é infinito, não possui centro, logo nem a Terra nem qualquer outro ponto podem servir de referência no universo.
Conheça alguns importantes cientistas que, tendo como referência a própria fé, contribuíram para as ciências e o mundo moderno.

Frei Roger Bacon, ofm
Hoje o método científico é usado por universidades e cientistas do mundo inteiro graças a Roger Bacon, um Franciscano que viveu na Inglaterra, em 1240. Suas pesquisas eram extensiva e detalhadamente documentadas por ele mesmo para que fossem repetidas por outros cientistas. É daí que surge o método científico como um ciclo repetido de observação, hipótese, experimentação e verificação independente. Seus estudos em óptica possibilitaram a criação dos óculos, telescópios e microscópios, além da contribuição nos campos da Geografia e Mecânica, e ao uso da Matemática no estudo da natureza.

Cônego Nicolau Copérnico
Além de ser cônego da Catedral de Frombork (Polônia), era astrônomo, matemático, jurista e médico. Mas sua maior contribuição foi o desenvolvimento da teoria heliocêntrica em 1543, ou seja, de que o sol é que está parado e os demais planetas, incluindo a Terra, giram ao seu redor. Vale mencionar que ele apenas desenvolveu uma teoria surgida séculos antes, por volta de 1370, proposta por Nicole Oresme, um bispo.

Frei Gregor Johann Mendel, osa
Em 1865 Gregor Mendel formulou e apresentou em dois encontros da Sociedade de História Natural de Brno (na República Tcheca) as leis da hereditariedade, hoje chamadas Leis de Mendel. Considerado o pai da genética, Mendel também era botânico e Monge Agostiniano. Dedicou-se ao estudo do cruzamento de muitas espécies de plantas e árvores frutíferas. Após esses estudos, passou para as abelhas, realizando suas experimentações no mosteiro no qual, algum tempo depois, se tornou abade. Foi lá que produziu uma espécie híbrida entre abelhas do Egito e da América do Sul que produziam um mel considerado excelente, porém muito agressivas, acabaram sendo destruídas.


Padre Georges Lemaitre
Papa Francisco causou burburinhos na imprensa mundial quando, em 2014, ao inaugurar um busto de seu predecessor na Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano, afirmou que “o Big Bang não contradiz a intervenção criadora, mas a exige”. A frase foi alardeada como sendo algo inédito na Igreja, mas a mídia “esquece” que a teoria do Big Bang foi proposta por um padre: Georges Lemaitre, em 1927. Além de sacerdote era professor de Física, com doutorado em Matemática. Ironicamente, quando propôs essa teoria, alguns cientistas da época o acusaram de ser fanático religioso, com ideias nada científicas.

Santa Hildegarda de Bingen
Mulheres também contribuíram para a ciência. De forma mais tímida, pois, até época recente, a sociedade era organizada de forma que elas estudavam apenas o básico. Mas, se segundo a Tradição Cristã para Deus tudo é possível, uma freira em especial contribuiu para uma área que, por muitos anos, foi considerada exclusiva dos homens: a cervejeira. Hildegarda de Bingen, Monja Beneditina, nasceu na atual Alemanha em 1098, tornou-se respeitada como uma autoridade em assuntos teológicos, além de ser mística, compositora e poetisa. Também fez muitas observações da natureza com uma objetividade científica até então desconhecida, especialmente sobre as plantas medicinais, oferecendo métodos de tratamento para diversas doenças. Graças aos seus estudos, descobriu a utilidade do lúpulo para a cerveja, contribuindo para o desenvolvimento da bebida posteriormente pelos monges católicos. Recebeu visões atribuídas a Deus, deixando três livros escritos com as descrições dessas experiências místicas. Em 1584 o papa Gregório XIII autorizou a inclusão do seu nome como santa pela Igreja e, em 2012, papa Bento XVI confirma sua santidade e lhe dá o título de Doutora da Igreja, por suas contribuições na área da Teologia.

Padre Roberto Landell de Moura
“Desejo mostrar ao mundo que a Igreja Católica não é uma inimiga da ciência e do progresso humano”, já dizia, na virada do século 19 para o 20, o padre brasileiro Roberto Landell de Moura. Nascido em Porto Alegre (RS), padre Landell é patrono dos radioamadores brasileiros não por acaso: foi o primeiro a conseguir uma transmissão de som e sinais telegráficos sem fio por meio de ondas eletromagnéticas, o que daria origem ao telefone e ao rádio. Alguns testemunhos atestam que os primeiros experimentos bem-sucedidos surgiram já em 1893. Mas o primeiro público e documentado, data de 3 de junho de 1900, tendo como testemunhas o cônsul britânico em São Paulo, Percy Charles Lupton, autoridades brasileiras, empresários e o público em geral, “as quais foram coroadas de brilhante êxito”, conforme noticiou o Jornal do Commercio.






Fonte: FC edição 968 - Ago-2016
Postado por: Família Cristã




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