Os clamores não ditos

Data de publicação: 10/04/2017

Por Edson Kretle

Vocês representem o amor do Infinito aqui no finito, e esse gigantesco amor ajuda-lhes a compreenderem meu jeito adolescente de ser.


Querida mãe, querido pai, às vezes é muito difícil expressar a totalidade e a complexidade dos sentimentos e das angústias humanas. Por meio destas poucas linhas desejo, ao menos, dizer o indizível. E, nesta breve reflexão, irei listar os clamores não ditos de um filho aos seus pais. Ressalto que a ordem dos meus clamores não é hierárquica, pois todos os meus desejos se completam, mas escolhi o número sete porque esse número simboliza a perfeição, como afirmou o grande matemático Pitágoras.
1.    Em primeiro lugar, “gostaria de lhes dizer que seus trabalhos os têm sequestrado de mim”. Sei que vivem trabalhando porque buscam o que é melhor para mim. Compreendo suas preocupações e também entendo perfeitamente que o sistema atual nos fez criar necessidades desnecessárias, porém, no “fundo do coração”, mais do que um PlayStation, um iPhone ou uma bicicleta, gostaria dos seus beijos e dos seus abraços antes de ir dormir. Meu pai, minha mãe, o trabalho não pode ser o principal objetivo da vida. Se fosse, vocês gostariam de trabalhar, mas não é isso que vejo quando chegam em casa. Precisamos pensar que os bens materiais são necessários, porém, jamais podem ser buscados como fim último do nosso existir. E nunca esqueçam que não há dinheiro no mundo que compre o aconchego.
2.    Em segundo lugar, peço que vocês me digam não. Não posso crescer pensando que tudo o que eu quero fazer seja feito no momento que eu quiser. Embora não parece, clamo por limites e tenho que aprender que “existe tempo para cada coisa debaixo do céu”. A cada dia tenho mais certeza de vocês manifestam a intuição divina, pois todas as vezes em que me disseram não e eu, com minha “rebeldia sem causa”, desobedeci, quase sempre aconteceu algo ruim. Além do mais, em alguns momentos, o não é a melhor tradução do que é o amor.
3.    Em terceiro lugar, não me deixem ser possuído pelos demônios pós-modernos que se encarnaram nas redes sociais e no WhatsApp. Nos nossos raríssimos jantares juntos, gostaria que nossas conversas não fossem apenas sobre os outros, mas sobre nós. Não tenho certeza, mas acho que, quando trocamos o brilho do olhar pelo brilho das telas, é um grande sinal de que algo na convivência dos humanos não vai bem.
4.    Em quarto lugar, peço-lhes que queiram sempre saber com quem eu ando. Sou um ser em construção, e, nas minhas muitas tentativas de fugir de mim mesmo, na minha constante busca para encontrar uma verdade pela qual viver, sempre me torno presa fácil! E, nesses momentos, as más companhias facilmente me conduzirão pelos caminhos do álcool, das drogas e do sexo casual. Meus amados pais, protejam-me da minha inocência e jamais esqueçam a sabedoria popular, que diz: “Diga-me com quem andas e te direi quem és”!
5.    Em quinto lugar, peço-lhes que não tenham medo de me corrigir! Acho que os filhos de hoje deveriam falar menos e escutar mais. Contam-me que vocês, quando eram crianças, foram educados para se calarem quando os adultos falavam. Até entendo que pode ser nostalgia daquilo que já se foi, mas não sei se foi uma boa deixar no passado o que não deveria lá ter ficado.
6.    Em sexto lugar, peço-lhes que suas vidas sejam sempre meus melhores livros de ética. Lembro-me dos tempos em que ainda não sabia ler e aprendia a julgar o certo e o errado, o bom e o mau por meio dos valores que aprendi de vocês. Hoje estou mais crescido(a), não preciso de muitos sermões e prefiro o antigo método, então continuarei pautando meus atos no que for lendo em suas condutas e delas farei meu horizonte moral.
7.    Por fim, dizem que Deus nos ama incondicionalmente, então creio que, para que jamais nos esquecêssemos desse amor, ele criou você, minha mãe, você, meu pai, e todos os pais do mundo. Assim sendo, vocês representam o amor do Infinito aqui no finito, e esse gigantesco amor ajuda-lhes a compreenderem meu jeito adolescente de ser. Portanto, meu sétimo e último pedido, mas não menos importante, é que me amem, porque sem amor me tornaria um jardim sem flores.
Um grande beijo de seu(sua) filho(a), que já até tentou, mas ainda não conseguiu dizer-lhes pessoalmente “Eu amo vocês”. Espero nunca os envergonhar, pois o pior sentimento do mundo é ser a causa da vergonha de quem amamos! Ouçam meus clamores! Retornem do exílio! Eduquem-me!




Fonte: FC edição 959 - Novembro 2015
Postado por: Família Cristã




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