Começar de novo

Data de publicação: 24/04/2017

Por Sérgio Esteves

A solidão nem sempre é o fim de quem ama, a viuvez, por exemplo, pode trazer possibilidades de reconstrução da identidade


Se tudo na vida tem começo, meio e fim, é compreensível que os casamentos, por mais duradouros e felizes, também terminem um dia. E da forma mais natural possível dentro da condição humana da finitude: com a morte de um dos cônjuges, ainda que isso seja de difícil aceitação. Não é fácil mesmo se conformar que, cedo ou tarde, um casal feliz será separado pela natureza ou pelo tempo, ainda mais em uma sociedade que, além de se envergonhar da morte, a esconde e inventa mil subterfúgios para prorrogar a vida artificialmente. Mas, como se diz, a vida continua, e quem sobrevive, se quer viver, deve se esforçar um pouco para se reinventar. “O fim de quem ama não precisa ser a solidão. Como qualquer rompimento de vínculo, sobretudo pela morte, a pessoa enlutada vive um período de adaptação, aprende novas habilidades e desaprende algumas que não são mais necessárias”, explica a psicóloga Maria Helena Franco, fundadora e coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto (LELu), da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo.
A necessidade de procurar motivação para viver deve se sustentar na idade madura quando as pessoas estão mais sujeitas a problemas de saúde e, normalmente, as uniões se prolongam dando, às vezes, ilusão de desafiar o tempo. Um exemplo de que caminhamos para frente vem do ex-comerciante Wilson Ferraracio, viúvo há 14 anos, desde que perdeu a esposa, Heydêe Lúcia, com quem viveu por 40 anos e gerou cinco filhos, aliás fundamentais para ele superar o transe. A mulher não sobreviveu às complicações de uma cirurgia no estômago e deixou muita saudade no marido, que procura não só preencher o tempo do aposentado, mas viver com qualidade: acorda cedo, faz caminhadas, reza suas novenas, acompanha o time de coração – o Corinthinas – e realiza bicos como garçom. “Os filhos tomaram seus rumos e a mim cabe seguir os desígnios de Deus, mas vivendo da melhor forma possível”, diz. Não é pouco para quem completou 81 anos no último Domingo de Páscoa.  

Propósitos de Deus – A exemplo de Wilson, cada um deve procurar mais viver do que sobreviver. “A viuvez foi, é e sempre será uma transição importante na vida das pessoas, seja qual for sua idade, e traz consigo possibilidades interessantes na reconstrução da identidade de um ser humano”, afirma Maria Helena. Ela até parece estar se referindo à coordenadora da Pastoral Familiar para o estado de São Paulo, Maria Célia Pinto, que perdeu o marido, Wanderley, em 2010, quando ambos eram membros ativos dessa Pastoral. Rompendo uma tradição, Célia, mesmo viúva, continuou na liderança do movimento, onde abriu um novo front: realizar palestras junto aos viúvos. “Uma forma de preencher o espaço que Wanderley, com quem estava casada há 32 anos, ocupava em minha vida foi a de continuar e até ampliar o trabalho que fazíamos juntos em casa ou na Igreja”, revela a coordenadora.
Saber se recolocar no mundo é mesmo um dos maiores desafios de quem perdeu um parceiro ou parceira com quem vivia há anos. No caso de Célia, a etapa foi vencida através de uma opção de não viver na tristeza ou na solidão. “Do mesmo jeito que curti minha perda e sinto uma saudade imensa do Wanderley, procurei ajuda espiritual e na terapia, dar valor às pequenas coisas e às palavras e ações que nos deixam mais felizes e alegres. Apoio e solidariedade nunca me faltaram não apenas da família, dos amigos e dos companheiros da Pastoral Familiar, mas também de pessoas que não têm a mesma religiosidade. Aí a gente percebe o valor real da família e dos amigos”, reconhece Célia, que não tem mais dúvida: “Há muita vida após a viuvez. Depois de alguns anos sozinha, faço muitas coisas boas lembrando sempre do que o Wanderley fazia junto comigo. Viajo, vou a reuniões, passeios e tenho grandes amigos. Não me sinto só. Para completar, ainda tenho a alegria de conviver com dois netos gêmeos. Como se vê, Deus sempre tem um propósito para nós”, sentencia.

Ouvir e saber – Célia não é uma exceção ao indicar que o papel da família e dos amigos é fundamental para a compreensão da nova situação. “Certa vez ouvi de uma paciente de meia, idade que havia perdido o marido recentemente que a viuvez não é uma doença, isto porque ela vinha sendo tratada como se tivesse se tornado incapaz pelos filhos. Esse olhar precisa ser revisto, pois nem toda pessoa viúva se deprime ou quer ir ao baile da saudade para encontrar namorado ou namorada”, avisa Maria Helena. De fato, antes de ser vista pela sociedade como uma “coitada” ou alguém que precisa se relacionar amorosamente de novo, a pessoa viúva é aquela que pode estar precisando de ajuda para dimensionar seus projetos, interesses e a disposição para persegui-los. “Não podemos ignorar que ela mesma pode ter seus próprios planos sobre como melhor quer viver. Que tal, então, dispor de um tempo para ouvi-la e saber o que ela quer para a sua vida?”, sugere a psicóloga.




Fonte: FC edição 953 - Maio 2015
Postado por: Família Cristã




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