Pelos cantos da vida

Data de publicação: 03/05/2017

Por Karla Maria
Fotos Sonia Mele


Não duvide quando disserem que quem canta seus males espanta. Entenda aqui os motivos


Às 13h30 começa a aula de canto. Um a um, os cantores chegam à Vila, um espaço cultural em Guarulhos, região metropolitana de São Paulo, para os ensaios e o resgate da saúde e da alegria. “Aqui espero reencontrar amigos e ter novos conhecimentos, porque a mente da gente precisa se renovar. Não sou cantor, mas o canto para mim é alegria”, afirma Augusto José Vicente Júnior, aos 71 anos. Descendente de portugueses e com uma boina que, assegura, ser igual à do avô, ele conserva o sotaque lusitano. Viúvo e sem filhos, desfruta só da companhia do seu cãozinho, Tobe. “Ele morde, mas é tudo na minha vida”, admite. Quem o conhece garante: depois das aulas de canto os sorrisos se tornaram frequentes e a saúde melhorou. Pois o ato de cantar, de fato, previne doenças como a pneumonia aspirativa, aquela causada pela entrada de líquidos, secreções do corpo ou outras substâncias, como farelos de pão e pequenos pedaços de alimentos, através das vias aéreas superiores – nariz, faringe e laringe – para os pulmões.
Segundo a psicóloga e especialista em Gerontologia, Margareth de Andrade, o canto ajuda na prevenção desse tipo de pneumonia porque exercita o aparelho da deglutição, que, na terceira idade, perde o tônus muscular. “Com a técnica do canto, há um treinamento dessa musculatura evitando que partículas de alimento, devido à flacidez muscular, entrem nas vias respiratórias e, como elementos externos, provoquem um processo inflamatório devido ao processo de tentativa de expulsão pelo organismo”, diz. Normalmente, os sinais e sintomas da doença surgem até três dias após o idoso ter sofrido algum engasgamento com alimento ou secreções. O diagnóstico geralmente é dado por um médico pneumologista após uma avaliação da história clínica e de exames complementares, como radiografias do tórax e exame de sangue ou catarro. Mas, como se viu no caso de Augusto José, a prevenção é bem mais prazerosa.

Cirandas e redes – Os benefícios do canto não param por aí. Cognitivamente, a música é a única atividade que trabalha simultaneamente os dois hemisférios do cérebro, ou os lados racional e emocional. “Em resumo, ao cantar e ler a partitura, a pessoa elabora várias sinapses, processos que fazem as transmissões de impulsos nervosos entre as células do cérebro. Isso ajuda a prevenir problemas como a demência senil”, explica Margareth. O que muito bem pode explicar os sorrisos de Augusto José, pois, segundo a gerontóloga, o canto permite expor emoções que não conseguiram ser elaboradas e que precisavam ser colocadas para fora. “O idoso tende a somatizar ou manifestar doenças provocadas por problemas emocionais. Mas, ao cantar, mesmo que inconscientemente, ele se alivia e coloca para fora um pouco de sua angústia”, afirma.
Foi assim, cantando, que Oraides Petiles de Araújo, aos 63 anos, conseguiu exteriorizar toda a frustração adquirida depois de passar por uma retirada radical de sua mama, após um diagnóstico de câncer. Casada, mãe de três filhos e com três netos, encontrou no canto um recomeçar de vida. “Há quatro anos, tive câncer de mama, tirei tudo, e naquele momento minha vida mudou. Eu, que sempre trabalhava como auxiliar de limpeza, tive que parar com tudo, me vi perdida. Aí procurei alguma coisa para preencher o tempo. O coral cura a gente porque você joga para fora tudo o que tem dentro de si e está guardado no peito. Cantar preencheu minha vida”, admite Oraides.
Com 21 anos, a professora de canto Sara Bernardes poderia ser neta de Oraides ou de Augusto José. O que só dá mais vida e disposição aos seus alunos, na grande maioria mulheres. “O canto espanta doenças, a tristeza e a solidão. Eles ficam mais leves e animados”, diz a jovem, dona de uma voz capaz de chamar a atenção dos falantes alunos que, juntos, entoam uma ciranda. “Mandei fazer uma casa de farinha / bem maneirinha que o vento possa levar / Oi passa sol, oi passa chuva, oi passa vento / só não passa o movimento do cirandeiro a rodar.” A ciranda não para, e novos laços de amizade são construídos em torno da música. “O canto coral é em grupo, então você não se isola e compartilha as experiências, o que faz você criar uma rede social”, explica Margareth.

Novos repertórios – Para o maestro Vanderlei Banci, do coral da Vila, além dos benefícios já elencados, a música amplia o referencial de estética da pessoa, daquilo que é belo e bom. “A música e as artes de modo geral mexem com as sensações e percepções. Com o tempo, passa-se a criar um diálogo com as várias linguagens e aos poucos vai abrindo a cabeça, ampliando o repertório e visão de mundo, de vida. A música tem uma força muito grande”, assegura o maestro, que, por meio de seus projetos sociais, leva crianças carentes da periferia de Guarulhos a cantarem, ampliando assim, suas possibilidades e percepções de vida por meio de suas vozes.
Não por coincidência, a professora Sara foi uma dessas crianças e, hoje, ensina os idosos a ter um recomeço de vida. Com cautela e carinho, a juventude de Sara se mistura à experiência de dona Oraides, e de outros idosos, que não vacilam. “Recomendo àqueles que nunca fizeram aula de canto que façam, porque faz bem. Eu estou na aula para aprender a colocar a minha voz, aprender as notas e me sentir feliz. Quem não quer ser feliz nesta vida?”, desafia Oraides.




Fonte: FC edição 945 -Setembro 2014
Postado por: Família Cristã




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