A dança em Família

Data de publicação: 17/05/2017

Cleusa e Alvício Thewes


O amor e o respeito passam pela ecologia do coração e jamais caducam



Eduarda, 16 anos
– É estudante, comunicativa, e com ativa presença nas redes sociais. Gosta de música, capoeira, ler e passear. Triste, chorosa, desanimada, há alguns meses, Eduarda desabafa: “Não suporto ficar em casa. Meu pai briga demais comigo. Quando ainda estou à mesa, almoçando, ele já me manda lavar a louça. Para não piorar a situação, eu obedeço. Interrompo o almoço e faço o que ele manda. Ele destrata meus amigos e não me deixa sair. A minha mãe observa quieta. Ela tem medo dele. Desde pequena convivo com meu pai bebendo, diariamente. Não suporto o jeito que me trata”.

Ariel, 15 anos – Inteligente e prático, ele cursa o Técnico em Eletrônica. Eletrônica se aprende mais na prática do que nos livros. Dedicado, Ariel amplia os ouvidos e presta atenção redobrada nas aulas. Em casa, colado ao celular, mantém-se conectado com a galera. Ele faz tudo simultâneo: estuda, ouve música, baixa vídeo, fala no Facebook.
Os pais, furiosos, querem que Ariel faça uma tarefa por vez, e aí começa a pancadaria. O pai arranca-lhe o celular da mão. A mãe grita. Ariel bate a porta...
Na família de Ariel, o estresse inviabiliza o diálogo. O adolescente sinaliza, “Lá, em casa, tá na hora de respeitarmos o jeito de cada um”.

Gerações em confronto – Cada geração introduz hábitos e avanços tecnológicos próprios de sua época na família.  Você viveria no estilo de vida de sua bisavó? Forno de barro, tudo bem, é coisa boa, nada impede que tenha um em sua casa. Mas estamos no século 21 e a inteligência criativa, com seus novos recursos, facilita a vida.
 Nossos antepassados só tinham radioamador e telefone para se comunicar com familiares e amigos distantes. Isso quando tinham. Hoje temos o WhatsApp, o Viber e outros. O Orkut é de um passado próximo, da nossa época. Cadê ele? Já morreu! E o torpedo?  Este anda com receio de morrer ainda na nossa época.
Novos tempos aceleram e revolucionam a tecnologia e oportunizam uma evolução nunca antes vista durante uma geração. A mudança é tão acelerada que descontrola pais. Muitos ainda jovens. Eles bem que buscam o equilíbrio. A maioria, no entanto, admite não saber como lidar com os filhos frente à velocidade da mídia.
A reciclagem familiar passa pela abertura e o acolhimento das possibilidades que viabilizam novas modalidades de interação e de progresso. E isso inclui os pais.
A chegada de novos meios não desvaloriza os aprendizados herdados.
O presente é o passado amadurecido; o futuro será o presente amadurecido. E ambos, eternamente interligados, conduzem a novos aprendizados, estilos de vida, formas de comportamento, de estudar, de agir... Na balança dos prós e contras, parece que aqueles vencem.

Adolescentes queixam-se
– Os adolescentes aderem às novidades, aprendem com facilidade e são os facilitadores do avanço tecnológico nas famílias, empresas, sociedade.
Muitos sofrem com a incompreensão dos pais frente aos seus interesses. Queixam-se então. Os pais se apavoram. Imaginam que seus adolescentes perderam o interesse pela família. Isso simplesmente não é verdade. Eles não estão abandonando a família. Só querem ser compreendidos.
Os bisavôs e avôs eram aceitos quando passavam os fins de semana se embriagando, jogando carta, bocha, no clube, no armazém da vila, ao ar livre.
Será que o jovem conectado ao mundo virtual, dentro de casa, tomando suco ou refrigerante, está errado? E outra: o que ele faria lá fora, ainda imaturo, em uma sociedade desintegrada, imoral, corrupta?
É bem verdade que há excessos. Como também é verdade que a família se sente excluída do relacionamento dos filhos, em detrimento das redes sociais.
Há casos, e são muitos, em que jovens sofrem agressões verbais e físicas dos próprios pais. Estes justificam que desaprovam as escolhas dos filhos. No entanto, tal comportamento paterno não se justifica e só agrava o conflito pais/filhos. No caso, os pais faltam ao respeito, não há dúvida. Pais confiantes e amadurecidos privilegiam a serenidade, o amor, o respeito, transformando o convívio familiar numa rampa segura para os filhos desenvolverem suas habilidades no skate da vida, nas subidas, nas descidas, nos saltos, nas quedas.
No caso de Eduarda, o pai se sente mais seguro quando ela lava a louça, longe dos amigos e do Facebook. As redes sociais e as buscas diferentes da filha são realidades desconhecidas ao pai, sobretudo porque ele nada busca além do esquecimento de sua vida na bebida. Os pais de Ariel criaram a ideia de que o filho, além de se afastar da família, ainda corre o risco de não passar de ano no colégio.
 Os pais precisam curar seus próprios medos, restabelecer a autoconfiança, analisarem-se até, se for o caso. Sem isso, não conseguirão compreender e orientar os filhos. 

Dançar do jeito de cada um – A família é o palco colorido da dança do jeito de cada um. O que é o jeito de cada um? É a manifestação da identidade, dos valores, das qualidades, do estilo, dos defeitos, das buscas e projetos, do ritmo de cada um.
No palco familiar, cada membro devia encontrar espaço receptivo e acolhedor ao próprio jeito.
Viver seu jeito é não ferir, nem interferir, no jeito do outro. As famílias com fronteiras relacionais estabelecidas convivem e dançam num mesmo palco, uns a música dos outros, no tempo e do jeito de cada membro.
Ariel disse o que quer no palco: “Lá, em casa, tá na hora de respeitarmos o jeito de cada um”. A adolescência é o ciclo de vida formador da identidade, fase em que o jovem começa a ensaiar, em família, sua individualidade. Esse ciclo tem extrema importância na vida dele e exige atenção dos pais. É na adolescência que os jovens manifestam quem são e como serão. 
Para que os pais possam orientar seus filhos, devem, antes, compreender seus ensaios, saltos e passos. Isso porque a orientação vem depois da compreensão. Essa é a lógica. Os pais que compreendem seus filhos podem acompanhá-los com segurança e lhes fortalecer a autoestima, ferramenta tão imprescindível para enfrentar a dança da vida, pois fora do ambiente familiar os desafios são bem maiores do que dentro. 
Dançar bem na vida pressupõe muitos ensaios, subidas e quedas, no palco da vida.
Que pais e filhos se abracem e dancem suas músicas, no mesmo palco. Que os pais aprendam com as músicas dos filhos e que estes treinem novos passos e compassos com seus pais. Assim é no palco da vida que o Criador nos deu. 
Mãe Maria, ensine a família a dançar a dança do amor no palco do Criador. Amém!




Fonte: FC edição 946 - Outubro 2014
Postado por: Família Cristã




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