A cura enviada por Deus

Data de publicação: 19/05/2017

Por Frei Luiz Sebastião Turra, ofm cap.

A medicina é importante, mas o que mais consola é a proximidade do amigo que, livremente, decide participar de sua dor


Se a enfermidade humana era enigmática antes da vinda de Cristo, tornou-se ainda mais complexa depois dele. Ficamos perplexos com o destino de martírio sofrido pelo homem que constitui a própria presença de Deus na história. Na verdade, ele não veio explicar nem justificar, mas assumir nossas dores, e nisto está a luz dentro de um cenário obscuro da existência humana. O próprio Deus não teve outra resposta para o mistério a não ser se colocar ao nosso lado, participando de nossa frágil condição. O inocente participou até o máximo de nossa dor, chegando a ser abandonado por seu próprio pai. Humanamente, tudo parece obscuro e trágico. Mas desde logo é bom lembrar que o mistério de Cristo, o Mistério Pascal, está oculto aos olhos humanos e somente Deus nos pode dar a compreensão.
A vida de Jesus constitui-se uma constante convivência com a dor. Passou pela vida sentindo compaixão por todos (cf.Mt 9,35-38; 14,14-15;15,32-39; Lc 7,11-17). Jesus surpreende com seu modo de viver, suas palavras e práticas. É Deus chegando não para os que se dizem e consideram justos e resolvidos, mas para os que sofrem. O que move toda sua ação é o amor compassivo. Sua compaixão era o novo sinal da salvação messiânica (cf.Mt 8,16-17).

Cura dos oprimidos – Cristo se apresenta com uma missão especialmente ligada aos doentes: ele é o médico que não vem para curar quem tem saúde, mas os doentes (cf.Mt 9,12-13). A chegada do Reino passa por este cenário onde todo o tipo de doença precisa de cura, pois se constitui um símbolo do mal e do pecado. Jesus vem cumprir o que o profeta Isaías anunciou: “Ele assumiu as nossas dores e carregou as nossas enfermidades” (Mt 8,17). A missão de Cristo abrange a pessoa na sua totalidade.
Deus não vem dar explicações, nem revelar uma teoria da dor. Teorias não aliviam o sofrimento, nem consolam quem está envolto na dor. A medicina é importante, e os médicos são necessários, mas o que mais consola quem sofre em sua existência é a proximidade do amigo, que, livremente, decide participar de sua dor. A presença dolorosa do autor da vida torna-se o remédio decisivo para nossa condição mortal. A enfermidade não é apenas fato biológico. Os agravantes podem ser diversos, a começar pela condição social, estrutura familiar ou elementos culturais que condicionam conceitos e preconceitos.
Ungido por Deus e com a força do Espírito Santo, Jesus passou pela Terra fazendo o bem e curando todos os oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com ele. Sua primeira atenção era voltada aos desamparados que clamavam por vida, os enfermos da Galileia. Ali, a pobreza apresentava um cenário onde circulavam os abandonados à própria sorte, os cegos, surdos-mudos, paralíticos, portadores de doenças da pele, enfermos incuráveis e outros tantos que arrastavam a vida na miséria e na fome. A pior de todas as enfermidades era não poderem se sentir como os outros filhos de Deus. Por lá também circulavam as angustiantes perguntas: “Por que eu?”, “Por que Deus me abandonou e não me abençoa como os outros?” Para o semita, Deus está na origem da saúde e da enfermidade. Jesus procura atender a multidão dos que se sentiam abandonados por Deus. Não teme tocar os leprosos, devolve a confiança aos que se sentem excluídos do templo e confirma que é o Deus dos que sofrem o desamparo e a exclusão.

Mundo novo – A Boa-Nova do Reino o fazia especial. Ele veio para todos terem vida em abundância (cf. Jo 10,10). Por onde passava, o povo chegava, e a multidão se juntava (cf.Mc 2,2; 3,20; 4,1; 5,21.24). Nesta Boa-Nova estão os muitos serviços à vida: expulsa os maus espíritos (cf.Mc 1,39), cura os doentes e os maltratados (cf.Mc 1,34), consola os tristes (cf.Mc 5,41; Lc 7,13-14) e purifica os que estão excluídos por causa da impureza (cf.Mc 1,40-45). Enfim, um médico especial que nutre incontida paixão pelo Pai.
A gratuidade do amor o fazia ter um estilo próprio de curar. Cura com a força de sua palavra e os gestos de suas mãos. Todos podiam chegar a ele sem se preocupar com os gastos. Jesus não apenas realizava uma cura física, mas a cura integral. Ele busca reconstruir o enfermo a partir de sua raiz. Começa ativando a fé, depois perdoa os pecados e busca devolver a dignidade. Por não admitir fanatismos, pede que não se conte a ninguém. O que Jesus quer é formar discípulos, não fanáticos.
Toda a relação de Jesus com o mundo das enfermidades humanas quer sinalizar um mundo novo possível, onde a vida prevaleça. Por isso o povo simples encontra em Jesus a resposta que confirma o que é de Deus e um tempo novo, cheio de luz, prestes a começar: é o Reino chegando, aurora nascendo e a fonte jorrando. Jesus está vivo no meio de nós.

Perguntas

1.    Em relação ao sofrimento, o que mudou com a vinda de Cristo?
2.    Qual foi a reação de Jesus diante do povo sofrido?
3.    Qual a especialidade de Jesus em suas ações de cura?





Fonte: FC edição 953 - Maio 2015
Postado por: Família Cristã




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