Quem faz o quê?

Data de publicação: 22/05/2017

Por Nathan Xavier

Com as mulheres ocupando espaços no mercado de trabalho, a divisão das tarefas do lar tornou-se imprescindível,
mas nem sempre assimilada pelos jovens casais


Os comerciais de TV dos anos 1950 e 1960 mostravam o pai lendo jornal no sofá, crianças brincando à sua volta e a mãe na cozinha. Esta lidava com a educação dos filhos e afazeres domésticos enquanto o provedor trabalhava fora e trazia dinheiro para casa. Porém, com a entrada da mulher em todos os níveis da sociedade, esse contexto mudou. Relatório do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) da região metropolitana de Belo Horizonte (MG), elaborado entre 2010 e 2011, destacou a inserção feminina no mercado de trabalho como uma nova estratégia de sobrevivência familiar. A necessidade de uma remuneração familiar maior fez a mulher migrar do fogão para as fábricas, escritórios e setores de serviço. Saindo de casa para trabalhar no mesmo horário que o marido, às vezes antes, e chegando em casa junto com ele, ou depois, elas provocaram uma alteração na dinâmica familiar.
Os homens precisaram se adaptar. Em 1977, o instituto norte-americano Families and Work pesquisou 46 mil pessoas e registrou que 74% deles se sentiam no dever de bancar a casa. Hoje esse percentual caiu para 42%, mostrando o quanto a sociedade mudou de pensamento em menos de 30 anos. A mudança parece óbvia pela simples constatação empírica, mas, na prática, as coisas não funcionam assim. Para as mulheres, protagonistas das transformações, têm sido mais fácil assimilar as novas divisões de tarefas, porém nem sempre essas são digeríveis no universo masculino. Um sintoma disso é a posição do marido que “ajuda” em casa, sem ter a consciência de que, mais do que ajudar, ele faz parte do processo.

Percepções – O livro Gênero, família e trabalho no Brasil (Editora FGV), das sociólogas Clara Araújo e Celi Scalon, mostra que, entre as mulheres, o percentual de respostas “sempre eu” ou “geralmente eu” variava de 73,5% a 95,7%, quando perguntadas sobre quem realizava algumas tarefas domésticas. Em uma das questões, sobre “cuidar dos filhos”, as respostas foram totalmente diferentes entre mulheres e homens: para 56,2% deles a tarefa era dividida igualmente, e entre elas a porcentagem era de apenas 0,9% para os homens! Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Celi Scalon credita a discrepância na diferente percepção dos gêneros. “O homem sai para passear ou brincar com a criança e entende isso como cuidar, mas pouco ajuda em tarefas como trocar fralda. Ele parece assumir mais as funções no espaço público, mas, dentro de casa, quem segura a onda é a mulher”, explica a socióloga. 
A licença-paternidade, no Brasil, reflete essa cultura. A mulher recebe, no mínimo, quatro meses, podendo ser ampliado para até seis meses. E o pai apenas cinco dias corridos a partir do nascimento do bebê. Esse direito é garantido pela Constituição de 1988. Em outros países, a licença-paternidade costuma ser maior, porém, nem sempre remunerada integralmente como no Brasil. Na Alemanha, o afastamento paterno pode chegar a 14 meses com o pai recebendo 67% dos rendimentos. Na França, existe a opção de 15 dias com remuneração integral ou até três anos sem remuneração. Na Islândia, Suécia, Japão e Canadá, a licença varia de semanas a anos, mas pode ser distribuída entre pai e mãe, como decidirem. Esse formato tende a agradar mais por ser flexível e adaptável segundo a configuração familiar e a divisão de tarefas de cada casal.

Contas – Há não muito tempo as mulheres eram educadas pelas mães ou avós para exercerem tarefas do lar. Porém isso praticamente não existe mais e não são raros os jovens casais que, ao “juntarem trouxinhas”, não fazem ideia de como lavar roupa ou cozinhar arroz. Nessas horas, as ligações para os pais ou os acessos à internet são expedientes frequentes. Afinal, na web é possível encontrar até planilhas para facilitar e dividir igualmente as tarefas do lar para os casais.
Cláudia Giancoli Mesquita e José Paulo Mesquita de Azevedo estão casados há três anos e ainda não têm filhos. No início da vida em comum, eles tentaram definir as funções de cada um, mas perceberam que não daria certo. “Nossos horários são flexíveis, então quem chega primeiro faz o que precisa ser feito”, afirma José Paulo. O casal conta com uma diarista que passa roupa e limpa a casa uma vez por semana, mas as tarefas cotidianas são divididas, assim como as contas. Como José Paulo ganha vale-alimentação, essa parte da despesa fica com ele. Já a luz, água e condomínio recaem sobre Cláudia. “Menos o cartão de crédito, que é o José Paulo quem paga”, aponta a jovem.

Surpresas
– Para José Paulo, que já convivia com a divisão de responsabilidades e tarefas pelo fato de os pais trabalharem fora, a rotina de casado não foi complicada. Já para Cláudia, cujos pais tinham um casamento mais tradicional – pai trabalhando fora e mãe cuidando dos filhos – foi preciso se acostumar. “Minha mãe me aconselhava que eu nunca deixasse de trabalhar”, lembra Cláudia, cuja atitude, hoje, reflete a independência feminina na sociedade. “Eu quero sempre ter meu dinheiro e não depender de ninguém”, diz. Trata-se de algo que José Paulo entende: “Se o casal pretende crescer junto, os dois devem crescer e não um só”, afirma.
Mas se eles dividem as tarefas de casa, quem faz o quê? Quem lava a roupa e quem troca a lâmpada? Existem “tarefa de mulher” e “tarefa de homem”? Eles silenciam alguns segundos e respondem quase simultaneamente: “Não!”. “Lá em casa sou eu quem troca a lâmpada”, dispara Cláudia. “Ela é arquiteta e entende mais do que eu de troca de lâmpada, decoração e iluminação”, isenta-se o rapaz, responsável por lavar a roupa quando o trabalho não sobra para a diarista.
Se a mulher está tomando o mercado de trabalho, em posições antes predominantemente do homem, nada mais natural que este também aprendesse a fazer as tarefas da casa. Mas para isso não é preciso excluir o romantismo. Nos aniversários de casamento e namoro, José Paulo sempre leva Cláudia a um jantar-surpresa, mesmo que, às vezes, não seja tão surpreendente. “Ela é curiosa e sempre me pergunta aonde vamos. Dou dicas e quase sempre ela descobre, apesar de eu despistar”, confessa. Enfim, coisas de casal...




Fonte: FC edição 947 - Novembro 2014
Postado por: Família Cristã




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