Nação cansada

Data de publicação: 31/05/2017

Por Silvia Torreglossa

Estudo aponta que 98% dos brasileiros entrevistados estão cansados, a rotina acelerada tem deixado a população exausta 


Cada vez é mais comum ouvir a expressão “já acordo cansado” entre os brasileiros. Para mensurar essa atual característica nacional, o painel on-line Conectaí, do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), realizou uma pesquisa em 2013, encomendada pelo Grupo Sanofi. De acordo com os resultados, 98% da amostra de brasileiros se sente um pouco ou muito cansada mental e fisicamente.
As principais causas da fadiga, apontadas pelo estudo, são o estresse e a correria do cotidiano. A falta de condicionamento físico, problemas pessoais, alimentação desequilibrada, acomodação e preguiça sem motivo, problemas no trabalho e de saúde aparecem em seguida. Os 2% que se sentem dispostos dizem que dormem bem, tem equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional, alimentação equilibrada, prioritariamente.
Até na hora da diversão o cansaço impera, somente 17% dizem ter ânimo para desempenhar atividades de lazer e mais da metade dos entrevistados diz que às vezes, frequentemente ou sempre deixa de se locomover por falta de disposição.

E os dias passam...
– A professora do Ensino Fundamental, Cristina Ogando, tem 44 anos e sente-se cansada a maior parte do dia. “Eu já me sinto muito cansada pela manhã e, quando vou dormir, à noite, desmaio. Sempre brinco dizendo que eu morro todas as noites e ressuscito de manhã, não sonho nem acordo por nada”, diz.
Ela trabalha longe de casa e assumiu muitas atividades diárias. Além de lecionar, participa de um projeto da Prefeitura de Guarulhos (SP) e faz mais cinco cursos de aperfeiçoamento. Quando não está em sala de aula, Cristina está sempre conectada à internet. Mesmo dormindo profundamente e sem intervalos, ela sente que o seu sono não foi reparador.
Já a professora universitária Mariangela Ruiz Cintra, de Uberaba (MG), 37 anos, se sente cansada no final da tarde e, à noite, apresenta distúrbio de sono. “Tenho todos os tipos de insônia, é um problema crônico, demoro a dormir, acordo durante a noite ou acordo muito mais cedo que o necessário, isso acontece desde a infância, só parou um pouco no começo da gravidez”, relata.
Durante o dia, Mariangela sente cansaço físico e mental. “Os dias seguintes à insônia são os piores, tenho esquecimento, dores de cabeça e no corpo, e, quanto mais cansaço sinto durante o dia, maior a probabilidade de insônia”, lamenta. Pelo fato de ministrar aulas à noite, ela não realiza nenhum ritual para dormir bem e está sempre com tecnologia à sua volta, como notebook e celular. “O celular também serve como meu despertador, mas já acordei várias vezes com recebimento de mensagens no meio da madrugada”, confessa.

Tecnologia 24 horas – Em casa, no trabalho, na rua, em qualquer lugar, os adeptos à tecnologia estão conectados o tempo todo. Em um mesmo aparelho, por exemplo, podem checar a hora, e-mails, compromissos, redes sociais, jogar, aproveitar a infinidade de aplicativos e também telefonar... Mas o que isso tem a ver com o cansaço dos brasileiros?
A especialista em Medicina do Sono e coordenadora do Serviço de Sono da Itorrinolaringologia, Silke Anna Theresa Weber, professora de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu (SP), diz que essa rapidez de acesso à informação imposta pela sociedade midiática culminou no fato das pessoas dormirem cada vez mais tarde, pois mesmo ao chegarem em elas não relaxam, ficam sempre “ligadas”.
“É um ritmo diferente do de 20 anos atrás, muitas pessoas levam serviço para casa porque antes não éramos tão disponíveis, mesmo nas férias as pessoas não conseguem ficar desconectadas, é como se o ser humano desaprendesse a não fazer nada e, consequentemente, isso tudo diminui o tempo de sono”, alerta Silke.
Todas as questões relacionadas ao cansaço excessivo, ao esgotamento e à sonolência diurna que provém de noites maldormidas, ou não dormidas o suficiente, atingem também as crianças, que acompanham o ritmo dos adultos, muitas vezes para aproveitar a presença dos pais por algum tempo após a jornada diária de trabalho.
“Muitas crianças dormem em frente à televisão ou jogam vídeo game até tarde, além de assumirem muitas atividades diárias e, independentemente do horário que vão para cama, muito cedo já precisam estar de pé para ir à escola.” Muitas delas apresentam distúrbios de sono também. No Brasil, atualmente, 20% das crianças são obesas e 60% delas têm apneia, informa Silke. Se os pequenos crescem sem descansar o suficiente, podem se tornar adultos com problemas cognitivos e com redução da capacidade associativa e de memorização.
A doutora em Psicobiologia e pesquisadora do Instituto do Sono, Camila Hirotsu, enfatiza que “as pessoas constantemente conectadas acabam se expondo à luz no período da noite, prejudicando a secreção do hormônio melatonina, que, além de ser um facilitador do sono, possui propriedades antioxidantes, e sua redução aumenta o risco de desenvolver câncer, independentemente dos outros fatores como a idade”.

Função do sono – A conservação da energia do corpo, a regulação hormonal, a imunidade, a memória e a integridade física e mental são algumas das funções importantes do sono, ou seja, ter uma boa noite de sono é essencial para a manutenção do bem-estar, do equilíbrio e da saúde.
Camila diz que o sono, para desempenhar o seu papel, deve apresentar boa qualidade e quantidade suficiente e “que seja livre de distúrbios como insônia, apneia, distúrbios de movimento, entre outros problemas que são comumente associados com a dificuldade de iniciar e/ou manter o sono”. Por essa razão, períodos muitos curtos de sono ou fragmentação provocam maior sonolência durante o dia.
Muitos estudos têm investigado as possíveis funções do sono por meio de avaliação dos efeitos de privação de sono. Camila diz que “a maioria mostra que a falta de sono ou o comprometimento de sua qualidade durante a noite pode levar a diversos danos, como o estresse, a fadiga, a irritação e o cansaço mental, o aumento no tempo de reação e possíveis lapsos e erros de omissão”, ou seja, uma série de prejuízos que envolvem desde o cardiovascular até o aumento da fome.




Fonte: FC edição 942 - Junho 2014
Postado por: Família Cristã




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