Qualificar o viver

Data de publicação: 02/06/2017

Por Cleusa e Alvício Thewes

Aprender a acolher e balancear a dinâmica aritmética da vida, ao acolher que há começo e fim,
 a vida é exatamente assim, acaba aqui, mas continua logo ali



Candinha, 88 anos − Ela é mãe, avó e bisavó. Mantém um relacionamento afetuoso com familiares e amigos.  Trabalhou até os 80 anos, como costureira, ofício que lhe proporcionou satisfação e autonomia financeira. Ao longo desses anos, sempre cuidou bem de sua saúde. Ia regularmente ao médico e fazia os exames de rotina, como ainda o faz. Era uma jovem alegre, otimista, que sempre nutriu sonhos e planos. Assim cresceu e vive até hoje. Isso lhe permitiu ultrapassar dificuldades, dentre elas a viuvez aos 27 anos, mantendo a garra, a esperança e, sobretudo, a fé no Pai Eterno. Filhos, netos e amigos lhe pedem orações. Sorrindo, responde: “Fiquem tranquilos. O que mais faço é rezar”.
Jornais, revistas, rádio e TV são indispensáveis em sua casa, pois adora ler, ouvir rádio, ver TV. Parentes e amigos dizem que é agradável passar horas com ela. O ambiente é alegre, a conversa flui e as risadas são muitas.  O espírito dela parece ficar cada dia mais jovial, embora seu corpo não esconda os sinais do cansaço próprio da idade e já perdeu bastante a resistência. Candinha é uma doce companhia. Ela não permite que rancores habitem no seu coração, nem que lamúrias poluam sua mente.

Cleci, 86 anos − Mãe de sete filhos. Tem uma penca de netos e bisnetos. Professora aposentada extremamente cuidadosa com a saúde corporal, mental e espiritual. Dispensou a hipertensão e o diabetes consumindo alimentos saudáveis. É alegre e faz atividades físicas regularmente. Como ama cantar, desenvolve trabalho voluntário de canto e música com grupos de idosos. Ela afirma: “Eu canto e sou feliz. A dedicação à música e a companhia de outros idosos deram novo sentido à minha vida”. Cleci não tem formação musical. Mas, com os conhecimentos adquiridos, cria seus próprios arranjos musicais, projeta e planeja apresentações. Pesquisa músicas na internet.  Anima os grupos com reflexões extraídas de suas belas leituras. O voluntariado foi uma escolha, uma feliz escolha, que tornou seu viver mais alegre e menos solitário.

A matemática da vida − Na matemática da vida, a primeira pergunta que devemos nos fazer é esta: qual é a vantagem de uma vida longeva? E a resposta pode ser esta: aprender e desfrutar ao máximo dos conhecimentos que a vida disponibiliza, tanto na alegria como na tristeza. Cair e levantar, cair e levantar. Isso faz parte da trajetória de nossas vidas, os saltos e as quedas. As alegrias e as amarguras. Nessa matemática da vida, o idoso ganha disparado, pois, tem mais anos de vida, mais experiência, mais bagagem cultural, emocional e espiritual, mais passos dançados, mais horas cantadas, mais sorrisos encantados, mais palavras faladas, mais lembranças.  Tem também, é claro, mais lágrimas derramadas, mais perdas somadas, mais sonhos extraviados, mais sofrimentos acumulados, mais solidão.  No plano físico, tem mais limitações: menos visão, menos audição, mais esquecimentos, mais dores, mais infecções, reumatismos, doenças cardiovasculares e tantas outras.    Aqui estamos falando do óbvio, do pacote intrínseco ao envelhecimento, da degeneração natural do corpo e seus órgãos.  Daí a grande importância de envelhecer o mais saudável possível. Os menos da vida precisam ser compreendidos, integrados e cuidados com serenidade. Fazem parte do processo natural da vida. Esta é tecida e constituída pela junção dos contrários: os mais da vida se tornam significativos pela presença dos menos. Mais e menos, sinais de intensidades opostas, inseparáveis, a equilibrar, a quantificar e a qualificar o sentir, o viver.
O idoso deve aprender a acolher e balancear a dinâmica aritmética da vida, aceitando dois ditados: tudo que tem começo também tem fim e tudo que morre renasce. E a vida é exatamente assim. Ela se acaba aqui, mas continua logo ali, na eternidade.

Leninha, 80 anos − Adoeceu e, então, precisou morar uns tempos com o filho.  Quando voltou à sua cidade natal, descobriu que os filhos haviam derrubado sua casinha. Ela disse: “Não me resta mais nada aqui, posso partir”. Três meses depois, ela veio a falecer. E a Rosinha, 81 anos? Apoderaram-se do cartão de aposentadoria dela, sacaram seu dinheiro e fizeram as compras do mês. Lá se foram seus dois salários mínimos.  Chocada, Rosinha disse à neta: “Vocês usaram meu cartão e gastaram tudo. Como vou comprar meus remédios, pagar água e luz?”. Os casos de Leninha e Rosinha não são isolados. Também não constituem a regra, é claro. Mas ocorrem com muita frequência. Os idosos são desrespeitados dentro de suas próprias casas, por filhos e netos. Estes não têm o direito de mexer nas coisas dos seus idosos sem consultá-los, com exceção quando eles não dispõem mais do necessário discernimento. 
O idoso tem o direito ao convívio com os seus. Nós, filhos, filhas, netos e netas, devemos sempre nos lembrar disto: nós não existiríamos se não fossem eles. Então, conviva com seu velho, com sua velha, mesmo que sejam rabugentos. Estabeleça um relacionamento de respeito e mútua confiabilidade. Sobretudo, nunca levante a mão para eles. Nunca toque neles, a não ser para fazer-lhes carinhos, agrados, favores... Leve-os ao supermercado, ao banco, à Igreja, para visitar parentes, amigos...  Se precisar, não hesite, socorra-se do Conselho de Idosos de sua cidade. São de muita valia. Acredite.




Fonte: FC edição 958 - Outubro 2015
Postado por: Família Cristã




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