Amor além da crença

Data de publicação: 05/06/2017

Por Nathan Xavier

Amar é também respeitar a religião do companheiro ou da companheira. Ou até mesmo, em alguns casos, converter-se a ela


Muitas mulheres e homens sonham em casar, constituir uma família e viver felizes para sempre. Mas o clichê de histórias amorosas e românticas não se aplica ao dia a dia de forma tão simples. A hora do casamento, por exemplo, pode tornar-se um impasse quando os noivos são de religiões diferentes. A começar pelo cristianismo, a maioria das Igrejas não reconhece o rito de matrimônio da outra. Mas, então, como conciliar os desejos de cada um dos noivos? E quando os pais entram em jogo?
Mei é uma chinesa que está no Brasil desde 1964. Quando chegou ao País, ela e os pais eram presbiterianos e participavam ativamente da vida da sua Igreja. “Naquela época, só existiam duas comunidades no Brasil com a celebração em chinês, uma em São Paulo e outra em Mogi das Cruzes”, recorda. Toda a família era bem ligada à Igreja Presbiteriana: “Meu pai foi um dos que ajudou a erguer a comunidade no Brasil, que começou em 1961, quando ele e outros chineses presbiterianos chegaram ao País”, diz. Na época, a Igreja ainda estava em construção, e eles se reuniam na casa de um dos companheiros para a celebração religiosa.

Complicações – Mas a vida dá voltas. Vivendo e estudando no Brasil, nada mais natural que fazer amigos brasileiros, não tardando muito a conhecer o futuro marido. Aos 25 anos, cursava Engenharia Elétrica e foi lá que Mei conheceu Antônio. O rapaz, estudante de Engenharia Civil, foi atingido pelo cupido e se apaixonou por ela. O romance durou todo o tempo de faculdade e ficaram noivos após a formatura. Porém, Antônio, e toda a sua família, eram católicos. “Meu pai não aceitou de jeito nenhum e nem a colônia presbiteriana chinesa”, afirma ela. O pai de Mei não foi ao casamento e nunca conheceu o noivo, apesar da mãe e irmãos terem participado da cerimônia católica.
Mesmo com os amigos chineses e a família contra, Mei assumiu a fé católica. “Era mais fácil eu assumir o catolicismo que ele. A comunidade presbiteriana chinesa era muito fechada na época”, conta. Mesmo movida pelo amor a Antônio, Mei relata que não foi fácil aprender os novos ensinamentos. Os presbiterianos, como todos os protestantes, não concordam com muitas doutrinas católicas. Confessar-se com um padre? Pedir intercessão de Maria? Obedecer ao papa? Pão e vinho transubstanciarem-se realmente no corpo e sangue de Jesus? Nada disso, no início, era realidade para Mei. “Foi complicado”, admite. “Quando criança, eu participava da Escola Dominical da Igreja Presbiteriana e aprendia que tudo isso era errado e que santos, por exemplo, não existiam.” Nessa etapa, o Encontro de Casais com Cristo da Igreja Católica ajudou. Para ela, hoje tudo isso é normal. O pai já faleceu, e a mãe respeita a escolha da filha, assim como ela respeita a da mãe, que já participou até do batizado da bisneta numa Igreja Católica e de uma missa de Natal.

Compromissos – Mei acredita que a religião é importante para a família. Respeita casais de religiões diferentes, mas considera que é melhor um dos dois se converter à religião do outro. “Acho que confunde um pouco a cabeça dos filhos se não for o mesmo credo”, acredita. Ela tem um casal de filhos, já casados, que frequentaram, com os avôs, a Escola Dominical Presbiteriana até a adolescência, quando optaram por seguir a religião católica. A mãe deixou os filhos livres na opção e credita a mudança às constantes idas dos filhos, acompanhando os pais, aos Encontros de Casais na paróquia de que participavam.
O catolicismo, em alguns casos, permite esse tipo de união e considera que há duas formas: um é chamado de Casamento Misto, quando os noivos são cristãos, um católico e outro de denominação diferente, mas com batismo válido pela Igreja Católica. E o Casamento de Disparidade de Cultos, quando um dos dois não é cristão ou não possui batismo válido. Nesse caso é necessário um pedido de dispensa dos noivos ao bispo da região. Tem mais: nos dois casos, a parte não cristã deve assumir o compromisso de não se opor à prática e educar os filhos na fé católica. Afinal, a opção foi por casar-se pelo rito desse credo. Porém, há denominações cristãs que são mais restritivas com esse tipo de convivência ou união.

Conversão? – A família de Isabel Cristina Hsieh era batista. Ainda durante a infância de Isabel, os pais afastaram-se da Igreja. A mãe chegou a frequentar a umbanda: “Mas eu nunca me encontrei lá. Não tenho nada contra, mas não era pra mim”, afirma Isabel, que chegou a fazer Primeira Comunhão na Igreja Católica antes de optar, definitivamente, pela Igreja Batista, na adolescência. A mãe nunca mais voltou à Igreja Batista, mas o pai, muito tempo depois, foi a uma celebração e chegou a fazer um discurso na frente de todos. Ao que tudo indica, ele disse que estava arrependido de ter se afastado. Mas ela nunca soube exatamente o que ele disse. No dia seguinte, teve um ataque cardíaco e faleceu. Isabel possui pouquíssimo contato com as tias e a família do lado do pai, que ainda participam na Igreja Batista, e acredita que esse afastamento é devido à diferença religiosa.
Hoje Isabel é casada com Jyh, de família budista. Queria muito ter um casamento na Igreja Batista, mas o pastor não aceitou. O marido precisava se converter, para o casamento ser realizado. Assim, Isabel procurou diversas denominações cristãs sem sucesso. Padres e outros pastores se recusavam a realizar a cerimônia.  Como última tentativa, Isabel foi atrás de um amigo de adolescência, pastor da Igreja Batista, para pedir ajuda. Após uma longa conversa, o amigo pastor concordou em realizar a bênção para os noivos e indicou um templo metodista, onde a cerimônia poderia ser realizada. E, assim, conseguiu realizar o sonho de se casar na Igreja.

Afinidades – Hoje ela tem dois filhos. Um de 27 anos e outro de 17. Como ela lida com a religiosidade em casa se mesmo entre Igrejas cristãs pode haver problemas? “Com respeito”, afirma ela. “Acredito que Deus está em todos os lugares”, completa. Quando ainda era noiva, viu um altar budista na casa dos sogros e não esconde que se espantou. “Estranhei. É diferente de tudo que tinha visto. Eles têm imagens de divindades com aspecto esquisito. Mas respeitei. Se eles acreditavam que aqueles seres traziam alguma bênção, por que iria criticar?”, questionou. Mesmo respeitando as diferenças, Jyh achou mais prudente terminar a faculdade para assumir o namoro diante dos pais. Pois, caso fosse expulso de casa, teria mais chance de arrumar um emprego para sustentá-los. Os dois conviveram por muito tempo, com Isabel indo à casa dos amigos, conhecendo alguns familiares do namorado, mas sem os pais saberem. Isabel só foi conhecer a sogra no dia da formatura de Jyh. Ela já sabia do namoro e, segundo Jyh, foi educada, mas seca.
O pai de Jyh viajava para o exterior na época. Quando voltou, eles foram esperá-lo no aeroporto. O sogro chegou, cumprimentou a esposa e o filho. Na sua vez, Isabel esticou a mão para ele, que a ignorou por completo. O gelo durou alguns meses, mas, aos poucos, respeitando as diferenças religiosas e de nacionalidade de cada um, terminaram por se dar bem. “Com o tempo, peguei afinidade com meu sogro e ele comigo.” E, hoje, emociona-se ao falar do pai de Jyh: “Cuidamos dos dois até falecerem. Foi um momento doloroso. Ela morreu primeiro e, menos de um ano depois, ele também. Eu o chamava de ‘pai’ e ele me tratava como uma filha”, recorda.

Escolhas
– Isabel encara essa convivência com uma cultura e religião diferentes como uma riqueza que teve a oportunidade de experimentar. Por isso, não concorda que um dos companheiros tenha que mudar de religião para se casar. “Eles prezam a família e é bonito o respeito que têm pelos mais velhos. Há uma profunda admiração pelos idosos. A gente podia aprender isso deles”, afirma. Conhecendo na pele os problemas e as alegrias das diversas religiões, hoje ela não se importa com um credo em si, mas, sim, com a religiosidade de um modo geral. Tanto que, mesmo com algumas críticas à Igreja Católica, comprou o terço, as imagens de Maria e do Anjo da Guarda e um crucifixo para os filhos. Também possui em casa uma Bíblia. O marido nunca disse nada a respeito e, às vezes, até assiste a filmes bíblicos. Afirma que ele não vai a templos budistas, mas possui uma imagem budista na carteira.
Desde o convívio com os sogros, de religião totalmente diferente da família dela, até a educação dos próprios filhos, Isabel afirma que o respeito foi a chave para ela e o marido viverem em paz na questão religiosa. Um nunca quis converter o outro. Os filhos frequentaram escolas que possuíam ensino religioso, mas não os induz a nenhum credo. “Quero que meus filhos escolham e tenham uma religião, pois a fé é importante para nossa vida. É fundamental acreditar”, afirma.

Choques – Geralmente, sacerdotes e pastores de diversos credos não recomendam essa mistura de religiões. Segundo a grande maioria deles é preferível escolher e permanecer em apenas uma, participando da comunidade e seguindo seus preceitos. Esse sincretismo, asseguram, atrapalharia a vivência da fé, pois as denominações, em geral, professam crenças que podem entrar em choque uma com a outra. “A pessoa que não professa uma única religião termina por não criar uma identidade religiosa e não se aprofunda num credo”, afirma o frei agostiniano Aparecido Salvador, pároco da Igreja Santa Rita de Cássia, do bairro de Vila Mariana, em São Paulo (SP). E compara: “Uma fé sem raízes profundas é como uma pequena planta que, em meio à tempestade, corre o risco de morrer”.





Fonte: FC edição 945 -Setembro 2014
Postado por: Família Cristã




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