A sede do Mar Morto

Data de publicação: 16/06/2017

Por Maria Inês Carniato, fsp

O Mar Morto, devido ao uso excessivo de sua água, na instável região entre Israel,
Jordânia e territórios palestinos, perdeu 35% de sua extensão nos últimos 60 anos


Se “em terra de cegos quem tem um olho é rei”, em terra de deserto quem tem um lago tem o mar. E aí está ele, para não desmentir o ditado, o transparente Melaj Yam, Mar de Sal em hebraico, ou Bahr al Mayit, Mar Morto em árabe. É um lago de muitos nomes, com águas densas e pesadas, pela salinidade nove vezes superior à da água dos oceanos. A evaporação contínua, sob o clima seco, e os 40 graus de calor do Deserto de Neguev expõem sempre mais o segredo escondido no fundo do Vale do Arabá: o ponto mais baixo do planeta Terra, que fica a 418 metros abaixo do nível do mar, não é de terra, é de sal.

De boca em boca
─ Tão fascinante como intrigante, desde a mais remota Antiguidade, quando as caravanas começaram a viajar pelo deserto, o Mar Morto ficou famoso por prerrogativas únicas. A começar pelo forte odor que exala de sua composição mineral, até as fontes termais sulforosas e a lama negra, que beneficiam a pele e os ossos, por terem alta concentração de magnésio, potássio, bromo, carbono, cálcio e outros componentes. O betume que os antigos usavam como impermeabilizante era nada menos do que a lama, que, em contato com a atmosfera seca, se transforma em rocha semelhante ao moderno asfalto. Por sinal, o termo vem do grego asfaltos, que quer dizer “firme, seguro”. A lama e o sal do Mar Morto eram dois dos ingredientes indispensáveis à técnica de mumificação dos faraós do Egito.
A cultura grega, predominante em todo o Oriente Médio por volta de 2 mil anos atrás, deu mais um nome ao tão falado lago, chamou-o de Asfaltite, que os romanos, na mesma época, latinizaram para Mare Asphalticum. Fosse como fosse, todos o mencionavam, nos quatro cantos do mundo, e diversos filósofos gregos dedicados a desvendar os mistérios da natureza descreveram em seus escritos as características peculiares e estranhas do Mar de Sal.
As fronteiras atuais entre Israel, Jordânia e Cisjordânia, ou Território Palestino, são limitadas pelo Vale do Arabá, que desce do Lago Kinneret, o bíblico Genesaré ou Mar da Galileia, e é serpenteado pela fina linha do Rio Jordão, que corta o território árido, até o grande lago salgado. A foz do Rio Jordão atraiu o olhar dos primeiros artistas, que retrataram um peixe fugindo da água salgada e nadando de volta para o rio. A cena faz parte dos fragmentos do mais antigo mapa conhecido, um mosaico do século 60 encontrado durante as escavações para a construção de uma igreja bizantina na aldeia de Madaba, situada ao sul do Mar Morto, no território da Jordânia.

Falta água no mar ─ Fenômeno, em muitos pontos, inexplicável para os antigos, o Mar Morto sobreviveu por milênios, graças a um frágil equilíbrio de compensação da evaporação intensa, pela afluência do Rio Jordão e de fontes sazonais secundárias que descem das montanhas; equilíbrio perigosamente abalado pela ação humana, que mudou de forma drástica a paisagem da região nas últimas décadas. A verdade é que o lago perdeu dois terços do volume de água nos últimos 65 anos, e a previsão do momento é a de que, se continuar recuando no ritmo médio de 1 metro por ano, ele desapareça do mapa por volta da metade do século 21. Porém o mais agravante do fenômeno é a incidência de dolinas que criam zonas de alto risco de vida para os visitantes.
A dolina, sinkhol em inglês, é uma depressão afunilada profunda, de dimensões variadas, que vem ocorrendo com frequência alarmante em todos os continentes. É produzida por fatores como a infiltração de água da superfície, que dissolve a rocha calcária subterrânea; o esvaziamento de aquíferos; ou a mineração intensa, dentre outros. Com essas ações, os vácuos que se formam no subsolo sugam a camada exterior da terra e causam desmoronamentos.
No caso do Mar Morto, explica o geólogo israelense Eli Raz, da Geology & Environmental Consultation (Geologia e meio ambiente consultoria) de Israel, que as dolinas são o resultado da dissolução do sal subterrâneo como efeito do menor volume de água na superfície. As primeiras apareceram na década de 1980, e, em 1990, havia cerca de 40 delas; em 2005, já eram mil, e, em 2015, existem mais de 3 mil dolinas, afirmou o geólogo, em uma entrevista concedi¬da ao noticiário da rede norte-americana NTD News, em 20 de novembro de 2011. Crateras de até 25 metros de profundidade se abrem em minutos, na cadência de uma por dia, e as rachaduras engolem os escombros de hotéis e spas já abandonados e causam deslizamentos de terra que forçam medidas urgentes, como a obra de contenção da Rota 90, que liga o Vale do Arabá a Jerusalém. A ambientalista Gundi Shachald, habitante das redondezas, afirma que há muita inquietação, pois o turismo é o principal ganha-pão das famílias que circundam o Mar Morto, e este vem diminuindo a cada dia pela falta de segurança no local.
Pode essa situação ser revertida? É a pergunta cabal. Para isso, conforme os cálculos dos ambientalistas, o Mar Morto precisaria receber 800 bilhões de litros d’água por ano. Mas de onde trazê-la? A ideia é transferir água do Mar Vermelho. A queda no relevo favorece a instalação de dutos que não só reporiam as perdas no lago salgado, como ainda poderiam irrigar a região e até gerar energia. O projeto, assinado em 2013, por Jordânia, Israel e Autoridade Palestina, prevê a transferência de 100 bilhões anuais de litros d’água, o que não reverte, mas retarda o destino do Mar Morto. De qualquer modo, já teve seu orçamento de mais de 10 bilhões de dólares aprovado pelo Banco Mundial, mesmo assim, as obras ainda não começaram. E cientistas ambientais alertam para o risco de a mistura das águas destruir a composição mineral desse lago único no mundo.
As soluções dos ambientalistas envolvem mudanças radicais na política hídrica de Israel, que utiliza a maior parte das águas desviadas do Rio Jordão, inclusive para irrigar plantações feitas por colonos israelenses assentados nos territórios palestinos.

Fontes secas ─ Obras voltadas para o desenvolvimento põem em risco o bioma do Vale do Arabá. Uma delas é a irrigação, que compromete 90% do volume do Rio Jordão e uma grande porcentagem do Lago Kinneret, que, por sua vez, alimenta o rio. Outra é o bombeamento de água do Mar Morto para as fábricas de fertilizantes e para a mineração, somada ao represamento dos escassos regatos sazonais que desciam das montanhas até o lago, na minguada época de chuvas. Assim, o Mar Morto, além de ser exaurido em suas reservas, é privado de todas as fontes afluentes e nem sequer a evaporação natural é compensada, resultando na perda constante do volume de água.
Os danos ao ecossistema hídrico são graves em si mesmos e, ainda mais, quando trazem consequências imediatas para as pessoas. “A queda do nível de água no Mar Morto é resulta¬do da ação dos seres humanos. Algo que provavelmente nunca existiu em condições naturais. Agora, os sistemas estão desequilibrados, por isso há reações como esta, com infraestruturas em colapso”, explicou Eli Raz.
Outro grande desequilíbrio da região é a desigualdade de acesso à água entre as populações que a cercam. A Autoridade Palestina não tem controle algum sobre as águas, já que a Cisjordânia se encontra sob ocupação militar israelense desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967. Ao construir um alto muro na fronteira, Israel bloqueou o acesso dos palestinos ao Rio Jordão, violando o Acordo de Paz assinado em Oslo, na Noruega, em 1993, no qual ficou garantido o direito das duas populações aos recursos hídricos (artigo 11). Uma segunda violação grave do acordo são os assentamentos rurais israelenses em territórios da Cisjordânia e a permissão para os habitantes perfurarem poços profundos até os aquíferos subterrâneos, atividade que é vedada aos palestinos.
Em decorrência da desigualdade de acesso à água, a população palestina vive com menos de 50 litros diários por pessoa, cerca de metade do que a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera como o mínimo necessário para a sustentabilidade humana. Em contraste, os israelenses têm acesso à média de 350 litros de água por dia.
Num lugar seco como o Oriente Médio, a água também tem implicações estratégicas. Disputas entre Israel e seus vizinhos árabes pelos direitos à água na bacia do Rio Jordão contribuíram para as tensões que levaram à Guerra dos Seis Dias. Agora, Israel, que partilha o aquífero das montanhas com a Cisjordânia, diz fornecer aos palestinos mais água dessalinizada do que seria sua obrigação, conforme os acordos de paz em vigor. Os palestinos argumentam que o volume é insuficiente; e o preço, altíssimo.
Só uma nova era de generosidade no que diz respeito à água poderia fomentar as boas relações de Israel com os palestinos, e também com a Jordânia, o que não parece impossível, se for levada em conta a generosidade do povo, tão bem representada no depoimento de uma estrangeira.
A jornalista da rede espanhola RTVE Teresa Aranguren Amézola compôs uma mesa do Fórum Social Mundial de Porto Alegre (RS), em 2012, ao lado de militantes palestinos em um dos espaços de comunicação. Na ocasião, ela descreveu uma cena inesquecível a que assistiu no campo de refugiados palestinos de Jenin, destruído pelo exército israelense, em 2002: “Os prédios foram reduzidos a escombros, e as pessoas estavam sem água e sem luz. Uma mulher, em meio às ruínas, chamou o grupo de jornalistas estrangeiros e ofereceu-lhe água. Fazia muito calor e, com aquele gesto, ela estava dizendo: ‘Destruíram tudo o que eu tinha, mas eu sou uma mulher palestina e não vou permitir que forasteiros sofram sede em frente à minha casa’”.




Fonte: FC edição 961 - Janeiro 2016
Postado por: Família Cristã




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