Concertos para a Juventude

Data de publicação: 22/06/2017

Por Sérgio Esteves

A ideia de transformar a música em um instrumento de ressocialização fez do Projeto Banda Liberdade um sucesso que,
no entanto, está ameaçado


Uma entre as muitas razões que justificam não reduzir a maioridade penal no País de 18 para 16 anos é que, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), qualquer pessoa a partir de 12 anos já é responsabilizada por seus atos contra a lei. Outro motivo é que, sabidamente, reduzir a maioridade penal não diminui a violência, a julgar pela má experiência dos Estados Unidos, onde jovens que foram para a cadeia reincidiram no crime mais violentamente. E, como qualquer parlamentar da chamada bancada da bala deveria saber, educar é melhor do que punir. Portanto, mais – boas – escolas e acesso à educação é tudo o que os jovens brasileiros precisam. E, se isso acontecer com uma dose de sensibilidade e tolerância, melhor. Pois é isso o que vem fazendo há tempos o Juizado Regional da Infância e Juventude de Passo Fundo (RS), onde o Projeto Banda Liberdade trabalha com a recuperação de jovens infratores internados através de oficinas musicais.
Criado há sete anos pelo juiz Dalmir Franklin de Oliveira Júnior, que aplica as medidas socioeducativas aos jovens, e pelo psicopedagogo Isair Barbosa Abrahão, do Centro de Atendimento Socioeducativo (Case) de Passo Fundo, o projeto surgiu da ideia em comum de fazer da música um instrumento de transformação e de ressocialização. “Sempre gostei de música e queria trabalhar com ela, ajudando crianças e adolescentes. Como o Isair tinha a mesma ideia, juntamos nossos sonhos. Eu doei alguns instrumentos, ele conseguiu dinheiro para comprar outros e pagar professores. E assim surgiu a Banda Liberdade, informalmente, mas como uma alternativa pedagógica definida, que objetiva a socioeducação de adolescentes privados de liberdade e a  desenvolver o ensino da música entre eles”, recorda Dalmir.

Apresentações
– Até fevereiro deste ano, a direção musical do projeto esteve a cargo do percussionista Marcelo Pimentel, responsável pelas oficinas e ensaios da banda. “O que leva o jovem para a desarmonia com a lei é a falta de cultura e de educação. A arte salva, o faz se preocupar em ser e não em ter, o transforma como cidadão. A ordem dos tambores que trabalho aqui busca um sentido de humanização para os jovens”, afirma o músico. Nesses sete anos, já passaram pelo projeto quase 2 mil jovens, que, na imensa maioria dos casos, tiveram suas vidas alteradas para melhor. Um exemplo: hoje com 23 anos, o pedreiro Gabriel Moreira participou durante seis meses do projeto quando esteve internado no Case. Ele, que já cantava hip hop, acabou descobrindo outros ritmos e atualmente, mesmo em liberdade, não deixa de se apresentar com os garotos do projeto, agora com o nome de Gabriel MC.  Por quê? “A música tem um poder de resgate incrível. Pode posicionar para uma direção correta, de não voltar para o crime. Ela mostra que você é maior do que isso”, responde.
Mais de uma vez o juiz Dalmir também se despiu do papel de magistrado para assumir o contrabaixo, a guitarra ou o violão nas apresentações da Banda Liberdade. Uma dessas vezes teve lugar em fevereiro na última edição do festival Planeta Atlântida, maior evento musical do Rio Grande do Sul e que acontece há 20 anos no balneário de Atlântida, no litoral gaúcho. Seis garotos e mais Dalmir dividiram o palco com uma das principais atrações da noite, o grupo O Rappa, e apresentaram o número  Pescador de Ilusões. A mesma canção, aliás, já havia sido apresentada na TV Globo, no programa Como Será, da jornalista Sandra Annenberg. Ao longo dos anos, o grupo, com diferentes formações, realizou apresentações por várias cidades gaúchas e também nos Cases de Porto Alegre e em universidades. No repertório, constam peças da música popular brasileira, gaúcha, sertaneja e outros ritmos. “Para maior adesão ao projeto, precisamos dar especial atenção ao gosto musical dos garotos”, afirma o juiz Dalmir.

Alternativa
– A reação das plateias vai do apoio ao entusiasmo e, invariavelmente, culmina em aplausos cujos efeitos são impactantes para jovens tão desacostumados a receber algo de bom da sociedade onde nasceram e cresceram. Segundo a coordenadora do projeto, Márcia Santos, essa é a ocasião em que pela primeira vez os jovens foram aplaudidos. “É uma experiência que eu não vou esquecer nunca mais, pois o aplauso tem um significado muito grande para eles e também para nós. Em um tempo que parte da sociedade defende a redução da maioridade penal, nós continuamos apostando no futuro deles”, explica. “Enquanto se discute a redução da maioridade penal, queremos mostrar, através da Banda Liberdade, que existe uma alternativa de responsabilização que agrega o caráter da educação e do ensino. Ou seja, não basta só o castigo, mas proporcionar ao jovem infrator um aprendizado para ele dar um novo rumo à sua vida”, conclui o juiz Dalmir.

A realidade de um Brasil em crise
Desde que o músico Marcelo Pimentel precisou, em fevereiro, deixar a cidade de Passo Fundo (RS), o Centro de Atendimento Socioeducativo (Case) procura um novo profissional que assuma as oficinas do Projeto Banda Liberdade. O que tem sido difícil devido à falta de verba. Uma alternativa seria obter o concurso de um voluntário e outra, mais sustentável a longo prazo, seria a criação de uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) para criar projetos envolvendo a música e a arte junto à população vulnerável. Nesse sentido, a Fundação de Atendimento Socioeducativo (Fase) do governo do estado do Rio Grande do Sul busca possibilidades através do Ministério da Cultura. “Não queremos o fim do projeto e procuramos ajuda”, diz a coordenadora Márcia Santos. “Lamentavelmente, porém, não temos recebido apoio oficial e precisamos recorrer à iniciativa privada”, afirma o juiz Dalmir de Oliveira Júnior, para quem a questão da liberdade dos menores infratores não recebe a atenção necessária por parte dos governos.






Fonte: FC edição 968 - Agosto 2016
Postado por: Família Cristã




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