A Igreja é femenina

Data de publicação: 26/06/2017

Por Moisés Sbardelotto

A questão do papel da mulher na Igreja “não é feminismo, é direito!

É um direito de batizada, com os carismas e os dons que o Espírito deu”, papa Francisco

“A Igreja é feminina. A Igreja é mulher. Não é ‘o’ Igreja. É ‘a’ Igreja.” Com essas palavras o papa Francisco se dirigiu a mais de 800 superioras-gerais de todo o mundo, presentes no Vaticano em maio. No diálogo com as religiosas, Francisco levantou diversas questões em torno da importância da mulher na Igreja, reiterando a complementariedade entre homem e mulher nos mais diversos âmbitos eclesiais. E afirmou que irá instituir uma comissão para refletir sobre o papel das diaconisas. Em junho, essa relevância feminina encontrou outra confirmação muito significativa na vida da Igreja, quando o papa elevou a celebração de Santa Maria Madalena ao grau de “festa” litúrgica.
O encontro com as religiosas, no dia 12 de maio, se deu no âmbito das celebrações dos 50 anos da União Internacional das Superioras-Gerais (UISG), que congrega mais de 2 mil institutos religiosos femininos do mundo inteiro. Questionado pelas religiosas, o papa Francisco reiterou a importância da inserção das mulheres nos processos de tomada de decisão nos mais diversos âmbitos eclesiais. E reafirmou que a questão do papel da mulher na Igreja “não é feminismo, é direito! É um direito de batizada, com os carismas e os dons que o Espírito deu”.
Uma novidade proposta pelo papa, nesse encontro, foi em torno do papel das diaconisas na vida eclesial. Uma das superioras questionou Francisco sobre o que impedia a Igreja de incluir as mulheres no diaconato permanente, como acontecia na Igreja primitiva. Em sua resposta, o papa reconheceu a existência de diaconisas na Antiguidade, mas reiterou que não há muita clareza sobre o tema. Assim, afirmou às religiosas que irá pedir que a Congregação para a Doutrina da Fé aprofunde a questão, inclusive com a instituição de uma comissão para estudar o tema. O que se sabe é que as diaconisas existiram, como atesta São Paulo na sua Carta aos Romanos: “Recomendo a vocês nossa irmã Febe, diaconisa da Igreja em Cencreia” (Rm 16,1).

Maria
– Mais de 2 mil anos depois, retomar a reflexão sobre essa antiga tradição da Igreja, que se perdeu ao longo da história, pode ser o primeiro sinal de um importante movimento de atualização, especialmente em um contexto histórico e cultural marcado pela emancipação feminina. Mas Francisco está atento a um risco subjacente a isso: o clericalismo. A resposta eclesial à questão feminina não deve passar, necessariamente, pelo sacerdócio ordenado. Ao contrário, o risco, segundo o papa, é de que uma paróquia, por exemplo, seja liderada com “um espírito clerical, apenas pelo padre, o que não ajuda aquela sinodalidade paroquial ou diocesana”, que é solicitada pelo próprio Direito Canônico.
Por isso, a questão levantada pelas superioras e pelo pontífice não é apenas a defesa da ordenação de mulheres, mas vai além. É o próprio Francisco que deseja superar uma visão hierarquista e clericalista da Igreja, baseada na mera busca pelo poder. Instado pelas superioras, o papa solicita uma verdadeira mudança de mentalidade, de paradigma: a presença e a importância do feminino na Igreja não é uma “concessão” feita por homens ordenados às mulheres, mas a própria Igreja deve ser feminina.
Uma Igreja sem mulheres, afirmou Francisco, é como o Pentecostes sem Maria: “Não há Igreja sem Maria! Não há Pentecostes sem Maria!”. E Maria é mais importante do que os bispos, afirmou o papa na Evangelii Gaudium. Aliás, já nessa sua exortação apostólica, o papa reconhecia que o desafio é “ampliar os espaços para uma presença feminina mais incisiva na Igreja”, pois “as reivindicações dos legítimos direitos das mulheres, a partir da firme convicção de que homens e mulheres têm a mesma dignidade, colocam à Igreja questões profundas que a desafiam e não se podem iludir superficialmente” (nº 104-105).
Em torno da questão feminina da Igreja, há uma necessidade histórica e cultural de oferecer respostas à altura da luta das mulheres hoje. E, também, da própria missão confiada por Jesus, que, contrariando os rabinos do seu tempo, buscava e encorajava a presença feminina. No seu ministério itinerante, “os Doze iam com ele, e também algumas mulheres” (Lc 8,1-2), que são até nomeadas: Maria Madalena, Joana, Susana, o que explicita a sua importância.

Maria de Magdala – Foi também nesse sentido que o papa Francisco decidiu elevar a celebração de Santa Maria Madalena – até então memória obrigatória – ao grau de “festa” no Calendário Romano Geral. Em nota, a Santa Sé explicou que a decisão papal se inscreve no “atual contexto eclesial, que pede que se reflita mais profundamente sobre a dignidade da mulher”.
Santa Maria Madalena – a segunda mulher mais citada no Novo Testamento, depois de Maria, mãe de Jesus – foi por muito tempo confundida com a prostituta que aparece nos Evangelhos. Contudo, a própria Igreja reconheceu que se trata de duas mulheres diferentes. Maria de Magdala é principalmente um exemplo de evangelizadora, por ter sido a primeira testemunha do Ressuscitado e a primeira mensageira que anunciou aos apóstolos a ressurreição do Senhor. Por isso, foi chamada por São Tomás de Aquino de apostolorum apostola, a apóstola dos apóstolos, e é considerada, hoje, exemplo e modelo para todas as mulheres na Igreja. A celebração litúrgica dessa mulher – que fez parte do grupo dos discípulos de Jesus, seguiu-o até os pés da cruz e, no jardim do sepulcro, foi a primeira a “ver o Senhor” (Mc 16,1-8; Lc 24,1-12; Jo 20,1-2) – passa, agora, a ter o grau de “festa”, o mesmo das celebrações dos demais apóstolos no calendário litúrgico da Igreja. O dia 22 de julho, portanto, torna-se uma nova festa “feminina” na Igreja.
Esses pequenos passos vão reforçando a importância da mulher e do feminino na vida eclesial, que vai além de uma mera reorganização do poder institucional, mas passa por uma reforma teológica e pastoral de mentes e corações, em vista da paridade de gênero. E essa complementariedade já está presente no nosso “código genético”, desejada pelo próprio Criador: “E Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus ele o criou; e os criou homem e mulher” (Gn 1,27).





Fonte: FC edição 967 - Julho 2016
Postado por: Família Cristã




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