Misericórdia, sem folga

Data de publicação: 18/07/2017

Por frei Luiz S. Turra, ofm cap.
Ilustração: Sergio Ricciuto Conte

Conscientes e acolhedores, ou indiferentes e fechados, agradecidos ou ingratos, justos ou injustos, santos ou pecadores,
Deus atua em nós gratuitamente e o faz sem nossos méritos



Todos necessitamos e desejamos ter uma pausa no programa de nosso dia a dia. Não podemos andar sempre no mesmo ritmo. A rotina faz parte do nosso viver, mas não podemos tornar a vida rotineira. Algumas pausas, alguns feriados, tempos de férias, intervalos e alternâncias ajudam no cultivo da leveza da vida.  Na verdade, o que é circunstancial de nosso viver é assim! Somos seres necessitados de alternâncias! Porém o que é fundamental e permanente para a vida não pode parar, nem ter feriado, nem ser dispensado, nem barrado por leis. Assim acontece com o amor, a fé, a esperança e a misericórdia.
Às vezes, na experiência humana e nas muitas exigências circunstanciais da vida que nos envolvem, corremos o risco de experimentar a sensação do abandono de Deus. Então nos ocupamos e nos preocupamos, como se tivéssemos que aprender a nos virar sozinhos. Não é estranha a ideia de que Deus nos tenha criado e nos tenha deixado ao léu da sorte, num mundo que ele criou e agora nada mais faz, nem por nós ou nem pelo mundo, e ainda está de folga para sempre.
Não está longe, de um mundo secularizado, o imaginário de um Deus aposentado e sentado num trono, assistindo ao conturbado cenário da humanidade perdida. Em consequência dessa visão, tanta gente se revolta ou prefere ser indiferente, outros arriscam se tornar deuses para si mesmos e aventurar um poder sem limites que oprime e rouba as esperanças de um povo.

Meu Pai trabalha sempre – A fé cristã firma-se na pessoa de Cristo e em sua Palavra. Essa fé nos traz a luz para reagir e superar uma vivência humana e religiosa truncada. Para não ficarmos divagando, creio que devamos focar nossa atenção numa cena emblemática de Jesus e numa frase decorrente de sua ação.
No Evangelho de São João capítulo 5, versículos de 1a18, descreve-se a participação de Jesus numa segunda festa, em Jerusalém, onde encontra a primeira oposição à revelação. No cenário está a piscina de Betesda, que significa “casa da misericórdia”. Ao redor, deitados pelo chão, estão numerosos doentes, cegos, coxos e paralíticos, esperando pelo borbulhar das águas. Diante de um enfermo que há 38 anos lá estava na fila de espera, sem poder contar com a ajuda de ninguém, Jesus ordena que ele se levante e se ponha a andar, carregando o seu leito.
A apelação por uma lei fria e sem vida suscitou um conflito injusto tanto ao que fora curado, como a quem o curou em dia de sábado. Então deflagrou uma perseguição intensa contra Jesus, por transgredir a lei do sábado. Aos perseguidores Jesus pronuncia esta frase reveladora da verdadeira e permanente atuação de Deus misericordioso: “Meu Pai trabalha sempre e eu também trabalho”.
Na verdade, jamais se ouviu falar que o verdadeiro amor de mãe faça feriado e garanta leis de abandono para seus filhos. Assim é a misericórdia de Deus, revelada em Cristo e que necessita ser sempre atualizada na Igreja. Não há folga nem proibição humana para a misericórdia de Deus.
Quando ouvimos, ou lemos a afirmação da Primeira Carta de São João: “Deus é amor” (1Jo 4,16), fazemos memória, atualizamos e projetamos a certeza de um amor em permanente ação, ontem, hoje e sempre. Sua misericórdia é eterna. Conscientes e acolhedores, ou indiferentes e fechados, agradecidos ou ingratos, justos ou injustos, santos ou pecadores, Deus atua em nós gratuitamente e o faz sem nossos méritos. “Meu Pai trabalha sempre!”
São Cirilo de Alexandria costumava dizer: “Embora o povo todo pecasse, ainda assim não se esgotariam a misericórdia e o amor que Deus tem por nós. O povo adorou um bezerro de ouro, e Deus não deixou de amá-lo. Os homens renegaram a Deus, mas Deus não se renegou a si mesmo”. Deus é fiel! “Se lhe somos infiéis, ele, no entanto, permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo” (2Tm 2,13).
A consciência de que o “Pai trabalha sempre” em nosso favor, mesmo que a ele sejamos indiferentes, um dia poderá nos acordar, para que nos demos conta do quanto perdemos, imaginando viver sem ele, e quanto poderemos ganhar vivendo nele e acolhendo sua misericórdia. Essa realidade levou um poeta anônimo a dizer: “Decidi amar a Deus, porque ele me amou primeiro, por bondade sua e não por minha esperteza. Ele me tornou seu filho e seu herdeiro, quero tê-lo como Pai e garantir o tesouro de seu Reino”.

Relação filial – A certeza de que o “Pai trabalha sempre” em nosso favor e não nos atropela para estarmos onde deveríamos estar, mas vem ao nosso encontro onde estamos, e a certeza de que Deus nos ama como somos e não como deveríamos ser nos motivam a dar passos de qualidade em todos os aspectos de nosso viver. A misericórdia de Deus é o poder divino que conserva, protege, fomenta, recria e fundamenta a vida.
A nossa relação filial com o Pai misericordioso que “trabalha sempre” em nosso favor poderá ser o argumento radical para a humanidade redescobrir as razões da dignidade humana e crer que é possível construir a civilização do amor. Assim o poeta Mário Branco afirma: “Num só voto cabem os cuidados meus: ser fiel ao Pai por cujo amor existo, ver o mundo inteiro no olhar de Deus e amar os homens no amor de Cristo”.
Tornar-se parceiro do Pai que “trabalha sempre” é atualizar aquela confiança que animou São João a escrever: “Então, ouvi uma voz forte que saía do trono e dizia: ‘Esta é a morada de Deus entre os homens. Deus vai morar no meio deles. Eles serão o seu povo, e o próprio Deus estará com eles. Deus enxugará toda lágrima dos seus olhos. A morte não existirá mais e não haverá mais luto, nem choro, nem dor, porque passou o que havia antes’. “Aquele que está sentado no trono disse: ‘Eis que faço novas todas as coisas’” (Ap 21,3-5).




Fonte: FC edição 967 - Julho 2016
Postado por: Família Cristã




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