Oportunidade no campo

Data de publicação: 26/07/2017

Por Renan de Souza

Programa em cidade do Rio Grande do Sul mostra aos jovens as oportunidades de empreendedorismo na região rural

O senso comum do “ser urbano” tende a observar o trabalho no campo de uma forma ultrapassada, como se os alimentos brotassem das prateleiras do supermercado. Ou, talvez, como uma grande indústria onde só se veem os campos, as colheitadeiras e os trabalhadores assalariados. No entanto, segundo a Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário do Governo Federal, o modelo de agricultura em que pequenos proprietários rurais têm como mão de obra, essencialmente, o próprio núcleo familiar é responsável por 70% dos alimentos produzidos no Brasil. Os dados do Censo Agropecuário de 2006 mostram que 84,4% do total dos estabelecimentos agropecuários brasileiros pertencem a grupos familiares. Porém boa parte dos jovens de famílias que vivem na agricultura muitas vezes enxerga o campo como última opção e não exatamente como uma boa opção para seu próprio futuro. Mas um projeto sediado no Rio Grande do Sul está conseguindo mudar essa visão, valorizando e abrindo uma gama de possibilidades para o jovem do campo.

Depois dos 18 anos
– Esse é o curso de Empreendedorismo em Agricultura Polivalente – Gestão Rural, que faz parte do Programa de Aprendizagem Profissional Rural do Instituto Crescer Legal. São cinco turmas, cada uma em uma cidade próxima de Santa Maria (RS), sede do instituto, e cada turma com 20 alunos, aproximadamente. Tudo começou em 1998 com um projeto de combate ao trabalho infantil nas fazendas de tabaco da região. “Todo esse local é predominantemente de origem europeia: alemã e italiana, sobretudo; de pessoas que sempre cultuaram muito o trabalho”, explica Iro Schünke, 66 anos, presidente do Instituto Crescer Legal. “Antigamente as famílias tinham muitos filhos e todos trabalhavam com os pais na lavoura, era uma questão cultural. Então, quando começamos em 1998, entramos fortes, conscientizando os pais para que não usassem o trabalho infantil e encaminhassem as crianças para terminarem ao menos o Fundamental. Explicávamos que a criança pode aprender trabalhando sem trabalhar. Como ela pode aprender? Pelo exemplo dos pais e ajudando em certas atividades em casa. Praticamente todos os produtores de tabaco são de agricultura familiar e, numa propriedade assim, há várias atividades em que os filhos ajudam os pais e que podem ajudar. Outras não podem, por exemplo, aplicar agrotóxicos, as que envolvem ferramentas cortantes ou nas atividades ligadas diretamente à cultura do tabaco. As palestras que realizamos, algumas com procuradores do Ministério Público do Trabalho, têm explicado bem aos pais essa diferença entre atividade de convivência familiar e trabalho infantil.” Segundo Iro, o projeto foi bem-sucedido: “Foram anos de conscientização e deu resultado. Houve significativa redução do trabalho infantil e um crescimento de crianças na escola. Hoje, todos os filhos e filhas dos produtores praticamente estão estudando”.
Com as crianças nas escolas, o próximo passo foi atingir o adolescente que, por lei federal, só pode trabalhar nesse tipo de cultura, depois dos 18 anos. “Vimos que os pais estavam conscientizados quanto a certos trabalhos que as crianças não poderiam fazer e de que deveriam estar na escola”, analisa Iro. “Mas quando chegavam ao fim do Fundamental, depois dos 15 ou 16 anos, eles terminavam a escola e ficavam em casa, sem ter o que fazer.” Eram poucas as famílias que tinham condições de enviar os filhos para a cidade a fim de continuar os estudos. “Buscando alternativas para esses adolescentes do meio rural foi que criamos o Instituto Crescer Legal, fundado por pessoas físicas de diversos setores da sociedade, e o Programa de Aprendizagem Profissional Rural.” Voltado aos jovens entre 15 e 17 anos, o programa tem mais de 900 horas e é validado pelo Ministério do Trabalho e Emprego. O curso de empreendedorismo tem por objetivo despertar no jovem as possibilidades que ele pode desenvolver em seu próprio meio.
Fabiane Marines Schlittler, tem 17 anos e mora na região rural de Vale do Sol, interior do Rio Grande do Sul. Na propriedade dos pais, plantadores de tabaco, moram apenas eles e Fabiane, e, para cuidar da fazenda, recebem auxílio do tio, que mora na propriedade ao lado. Ela é uma das alunas do programa Empreendedorismo em Agricultura Polivalente – Gestão Rural. “Ainda estamos no começo, mas já aprendemos sobre nossa identidade e também sobre a nossa propriedade, como ela é formada, quantos hectares, inclusive fizemos croqui. Agora estamos aprendendo sobre a comunidade rural e de que forma podemos contribuir no município.” E está empolgada com as novas possibilidades: “O curso abre bastante portas e aprendemos alternativas para diversificar a produção. Também é a chance de ingressar no mercado de trabalho porque esse é o meu primeiro emprego”. E continua: “Já estou com muitas ideias. Estava pensando em fazer uma estufa de moranguinhos, depois, quando acabar o curso, talvez até plantar menos tabaco e diversificar mais as plantações”.

Sucessão rural – No curso os jovens são contratados pelas empresas e desenvolvem a parte prática no mesmo local da parte teórica, ganhando meio salário mínimo, como rege a legislação do programa Jovem Aprendiz do Governo Federal, criado em 2000 a partir da Lei da Aprendizagem. “É uma oportunidade muito grande para eles, com o programa podem vislumbrar o que querem dali pra frente, tendo melhores condições de escolha. Se ficarem na propriedade rural, poderão gerir melhor o local, ou, se desejarem sair, indo trabalhar em outro lugar, estarão preparados”, explica Iro. Fabiane sonha em ser fotógrafa e já pensa em conciliar o sonho com a fazenda: “Com o curso penso em outros assuntos da fotografia, como registrar as imagens do meio rural. Porque no dia a dia vejo muitas coisas bonitas e que geralmente não são retratadas, as pessoas dão mais atenção a outros tipos de fotografia”.
“Encomendamos uma pesquisa pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul que mostrou que o produtor de tabaco vive melhor do que as pessoas que vivem nas cidades. Então essa redescoberta é importante, é um caminho que mostra para os jovens que eles têm a opção de ficar nas propriedades de seus pais, desenvolvendo um projeto de empreendedorismo na própria comunidade. É nesse sentido, de abrir horizontes a esses adolescentes, que trabalhamos”, finaliza Iro, orgulhoso.
É perceptível que a questão da sucessão rural era um assunto delicado e também importante, até para a economia do País. Mas, na cidade de Santa Maria e região, a preocupação ficou para trás, como mostra Iro: “Temos visto que os jovens já estão mudando sua opinião sobre ir para a cidade. Porque o programa oportuniza a eles conhecer bem sua propriedade e abre possibilidades do que podem fazer lá. São eixos de estudo em que eles mesmos participam da criação, pois aplicam na prática o que aprendem e veem os resultados. Tiveram pais que me confidenciaram que nem eles sabiam o que podiam fazer na própria propriedade. Isso é uma forma de valorizar, de mostrar o quão rico é e como podem aproveitar melhor ainda o meio rural”. Fabiane sabe bem o que quer: “Do meu futuro penso em fazer um curso de fotografia e também de técnico agrícola para ajudar mais na propriedade. Penso em continuar aqui, mas diversificando a produção e auxiliando os demais produtores rurais que têm menos conhecimento de como diversificar a propriedade”, conclui.




Fonte: FC edição 977 - Maio 2017
Postado por: Família Cristã




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