Viver da uva

Data de publicação: 01/08/2017

Por José Paulo Borges
Fotos: Jesus Carlos/ImagemLatina

No vale dos vinhedos da família Longo, no interior do Rio Grande do Sul,
chega o tempo da vindima, período entre a colheita das uvas e o início da produção do vinho


Amanhece na comunidade rural de São Miguel, a 7 quilômetros do centro da cidade de Bento Gonçalves, na serra gaúcha. Como faz todos os dias, antes das 6 horas, Gema Longo, 67 anos, já havia pulado da cama. Não demorou muito, estava na cozinha na parte inferior da casa ampla e confortável. Num instante, as achas de lenha colocadas por ela no fogão começaram a crepitar. Gema não teve tempo de admirar a curva dos parreirais subindo e descendo nas encostas dos morros ao redor, nem o céu incrivelmente azul desenhando a paisagem de São Miguel. Muito menos, se incomodou com a dorzinha em um dos joelhos que ela sentiu logo ao acordar. Gema tem pressa em preparar logo o café e deixar a mesa bem ajeitada. Afinal, daqui a pouco chegam seus dois filhos, Daniel e Márcio, e os vizinhos Otávio, Matias e Leonardo.  Eles precisam estar bem alimentados e com bastante energia, para enfrentar mais um dia de trabalho pesado neste período de vindima: a colheita anual da uva no Rio Grande do Sul, que se estende pelos meses de janeiro a março.
Dá gosto ver a mesa do café da manhã posta por Gema Longo. É uma fartura de leite e doces caseiros, manteiga e café feito na hora, pão colonial e queijo, salame, polenta e suco de uva. Praticamente, só o açúcar e o café vieram do mercado. O leite, para se ter uma ideia, ela mesma tirou de “Laranjinha”, uma vaca da raça jersey muito dócil e produtiva. O restante que vai à mesa é preparado com o talento culinário de Gema, herdado de suas ancestrais, imigrantes italianas que chegaram à serra há mais de 130 anos. “Com oito anos, aprendi a ordenhar vacas, depois fui aprendendo a fazer polenta, queijo, salame, chimia”, conta ela, sem arredar o pé da cozinha. Ah, sim, chimia é como esses descendentes de italianos chamam os doces de figo, uva, marmelo e pera, por exemplo, preparados em tachos de cobre, no calor de fogueiras acesas no fundo dos quintais. “É preciso ficar mexendo o doce com uma colher de pau o tempo todo, senão ele estraga no tacho”, explica Gema.

A família na vindima − Daniel, Márcio e os vizinhos Otávio Matias e Leonardo, também pequenos produtores de uva aqui em São Miguel, acabam de chegar. Barulhentos, alegres e com um incompreensível dialeto italiano na ponta da língua, estão, como diria Chico Buarque, com “uma fome de anteontem”. Enquanto comem, falam da safra que chegou meio atrasada este ano, do forte calor que anda fazendo aqui na serra, da tempestade na madrugada do último fim de semana, que derrubou algumas plantações de uva em propriedades da região. Num instante, a mesa posta por Gema desaparece de cena. Depois, satisfeitos, os homens se ajeitam no reboque de um tratorzinho e lá vão eles colher uva nos parreirais da família Longo, na encosta da serra. Atrás, deixam um monte de louça e talheres para serem lavados por Gema.
 “Na vindima toda a família trabalha, os homens na colheita e as mulheres preparando a comida, lavando a louça, cuidando da casa. Eu até que tenho sorte, meus filhos são grandes. E aquelas que têm filhos pequenos?”, indaga. “Eu sempre digo que aqui na colônia as mulheres trabalham mais que os homens. A mulher nunca para, está sempre fazendo isso ou aquilo”, prossegue. Gema tem razão. Depois do almoço, por exemplo, o homem sempre arruma um tempinho para tirar uma sesta, enquanto a mulher tem de lavar a louça.
Gema não tem sossego. Enquanto os homens estão no campo trabalhando na colheita da uva, ela precisa cuidar do almoço e não há um minuto a perder. Ainda bem que a nora dela, Marlise Dobner, está de licença maternidade. É Marlise quem tira a mesa e lava a louça. Gema está às voltas, outra vez, com o fogão. Não demora muito, o cheiro bom de polenta frita misturado com o de macarrão com galinha e ervilha, e o aroma que sai do feijão cozinhando na panela, borbulhando no fogão, enche a casa. São os pratos principais do almoço nesse dia. A massa do macarrão foi preparada por Gema numa maquineta manual, a ervilha veio da horta cuidada por ela e o feijão ela plantou. E a galinha criada confinada no galinheiro, quem tratou? “Galinha criada solta bica as uvas e faz o maior estrago no parreiral. Aqui na roça, galinha tem que ser criada presa”, pondera.
Por um instante, Gema Longo se distrai dos deveres da casa e divaga: “Bem que eu gostaria de estar lá embaixo colhendo uva”. Mas logo está de volta à realidade, ao cotidiano: “Não dá, preciso cuidar da casa e da comida, paciência”.  Mas, quem disse que ela sossega na cozinha quando sobra um tempinho, geralmente no fim da tarde? Não adianta os filhos reclamarem, Gema coloca o chapéu de palha e vai com eles pra roça. No parreiral, é verdade, a agilidade não é mais a mesma dos tempos em que ela fazia a colheita lado a lado com o marido, Vicente, já falecido. Mas a delicadeza no trato com as uvas essa ela não perdeu: “As uvas são frágeis, é preciso jeito para não apertar e estragar os cachos”. É verdade. A uva exige agilidade na hora de ser colhida e exige muito cuidado quando colocada nas caixas que serão levadas para as vinícolas. “É preciso cuidado pra não tirar a ‘cerinha’ que fica em volta da casca e que protege a fruta”, explica.
Marlise Dobner teve de deixar de lado a lavagem dos pratos e talheres para atender ao choro da pequena Maria Alice, de 3 meses, filha dela com Márcio. A licença-maternidade termina por esses dias e logo Marlise estará de volta ao trabalho de assistente social no Centro de Referência de Assistência Social (Cras), órgão da Secretaria de Habitação e Assistência Social da Prefeitura de Bento Gonçalves. Uma das tarefas de Marlise é visitar famílias que recebem o Bolsa Família, para saber a quantas anda o programa do governo federal nos bairros carentes do município. Nessas visitas, não é difícil Marlise se deparar com um problema que aos poucos vai se alastrando por esses locais: o consumo de crack entre os jovens. “O tráfico de drogas também já está presente na cidade”, afirma. Marlise garante que não seguirá os passos da sogra. “Gosto de trabalhar fora.” E a filhinha dela, Maria Alice, sexta geração dos Longo aqui no alto da serra, em quem irá se espelhar?

 Imigração italiana no RS − Entre os meses de janeiro e março, a exuberância dos parreirais na paisagem da serra gaúcha e o colorido das diferentes qualidades plantadas revelam que as uvas estão prontas para a colheita. Depois de muito trabalho durante o ano nos cuidados com a terra, a expectativa de frutas fartas e de boa qualidade deixa os produtores otimistas. Para os turistas, é uma festa só. Após a degustação de vinhos e sucos sob os parreirais, com muita tarantela, queijo, pão da colônia e salame, os visitantes são convidados a tirar meias e sapatos e participar do ritual – que se mantém como simples tradição – de amassar as uvas com os pés, provavelmente o método mais antigo para se elaborar vinhos.
Orgulhosa do título de Capital Nacional da Uva e do Vinho, a cidade de Bento Gonçalves, a 110 quilômetros de Porto Alegre, espera receber mais de 70 mil turistas na vindima de 2014. Esse número é pouca coisa inferior ao das 84 mil famílias de imigrantes italianos que, entre 1875 e 1914, chegaram à serra gaúcha vindas principalmente da Lombardia, do Vêneto e do Tirol. Se hoje em dia a expectativa de quem chega à serra é encontrar festa e colheita farta, naquela época a chegada dos imigrantes era marcada por um sentimento de medo, incerteza e esperança.
Na Itália natal, a quase totalidade dos imigrantes que embarcava para a aventura no Brasil era formada por trabalhadores rurais, gente sem um teto próprio que vivia precariamente em terras arrendadas. Poucos tinham um título de propriedade. As estimativas apontam que mais de 70% eram analfabetos, muitos estavam subnutridos e grande parte sobrevivia em condições miseráveis. Mesmo assim, não foi nada fácil para eles embarcar no sonho da terra prometida, alardeada pela propaganda do governo brasileiro. Afinal, apesar das duras privações e das raras festividades, a grande massa nascia, vivia e morria no mesmo lugar, à sombra do mesmo campanário, ligada aos mesmos costumes e tradições ancestrais.
Os conhecimentos que se têm sobre a travessia do Atlântico, rumo ao Brasil, estão baseados em relatos orais transmitidos de pai para filho. Documentos escritos pelos imigrantes são poucos. Quase todos os estudiosos da imigração adotam a tese de que a viagem marítima pouco se diferenciava do tráfico de escravos, com a pequena diferença de que os navios negreiros teriam passado por pequenas adaptações e melhorias. Há referências, sempre repetidas, de tempestades, falta de higiene e alimentação adequada a bordo, além de mortes e cadáveres lançados ao mar. No Brasil, a odisseia estava apenas pela metade. A viagem até as colônias de Conde d’Eu e Dona Isabel, no nordeste do Rio Grande do Sul, onde atualmente estão localizados os municípios de Garibaldi e Bento Gonçalves, podia demorar três, oito ou mais dias. Velhos, crianças, doentes e mulheres grávidas viajavam com o grupo, no lombo de mulas, enfrentando um clima hostil, para eles, em picadas estreitas e íngremes abertas na mata, serra acima. Se um migrante morresse durante a subida, era enterrado à beira da estrada.

Começo sem nada − Ao chegarem à colônia, mais problemas. Os imigrantes eram recebidos por uma Comissão de Terras, que os aloja em barracões precários. Até se instalarem em seus lotes rurais, alimentavam-se de caça, pesca, frutos silvestres e do pouco que era fornecido pelo governo. Nesses lotes, construíam cabanas de pau a pique, cobertas de ramos de árvores. Para dormirem, faziam camas com quatro paus fincados no chão batido, a meio metro de altura. Bem ou mal, era o primeiro abrigo da família, onde, à noite, ardia sempre o fogo para afugentar os animais, e no inverno para as pessoas se aquecerem do frio. Só então iniciaram uma agricultura de subsistência, cultivando milho, trigo e alguns pés de uva trazidos na bagagem por colonos do Vêneto e da Lombardia, regiões reconhecidamente produtoras de vinhos na Itália.
No começo, o vinho era fabricado apenas para o consumo da família. Aos poucos, porém, o negócio prosperou. Passados as primeiras safras, que garantiram a subsistência dos colonos, começaram a surgir os excedentes.  A primeira venda de vinho fora do estado do Rio Grande do Sul foi feita em 1898, em São Paulo. Em 1900 o produtor Abramo Eberle colocou 20 bordalesas (barris com capacidade de 225 litros cada)  de vinho colonial nos mercados paulistas, em São Paulo, Santos e Ribeirão Preto. Em 1883, o cônsul italiano em Porto Alegre relatou: “A videira cresce de modo surpreendente. Já no segundo ano dá uva e no terceiro a colheita é abundante”. Animados, os colonos instalados na serra gaúcha escreviam aos parentes na Europa: “Os ares são melhores que na Itália, é boa a água. Se pensam em vir, tratem de escrever-me o quanto antes, que lhes reservo as terras.”
O convite foi aceito. Ainda hoje, vinhedos plantados há mais de 100 anos pelos colonos pioneiros continuam produzindo.  Na atualidade, 139 anos após a chegada dos primeiros colonos italianos na serra gaúcha, o Rio Grande do Sul se destaca como o maior produtor de uvas para processamento no País. A produção é feita principalmente em milhares de pequenas propriedades, com média de 15 hectares de área total, sendo 2,5 hectares ocupados por vinhedos. Mais de 1.100 famílias de origem italiana, a maioria de pequenos agricultores, reunidos na Cooperativa Vinícola Aurora, produzem cerca de 57 mil toneladas de uvas por ano. A estimativa da Aurora para 2014 é de um faturamento de 320 milhões de reais, diante dos 300 milhões de reais, faturados em 2013. De acordo com dados do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), o volume da safra de 2014 deve girar entre 600 e 700 milhões de quilos de uva. Muitos produtores estão adotando, com êxito, o sistema de produção orgânica de uva, isenta de agrotóxicos. Em 2005, a região da serra contava com 90 produtores de uva orgânica, cultivada numa área de 60 hectares e  produção anual de 700 toneladas. Hoje, são centenas de produtores, e a produção já ultrapassou as 5 mil toneladas anuais. Os imigrantes italianos, certamente, não imaginavam que os parreirais plantados por eles na serra gaúcha iriam produzir tanta riqueza.




Fonte: FC edição 940 - Abril 2014
Postado por: Família Cristã




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