Um pavio curto

Data de publicação: 04/08/2017

Por César Vicente
Explosões emocionais violentas podem ser sinais de que algo não anda bem. Antes de acontecer o pior, é melhor se tratar


“Quando dei por mim não dava para voltar atrás. O estrago estava lá. Foi questão de minutos, talvez segundos. Era um sábado de manhã, tudo estava tranquilo. Até, de repente, o carro que ia entrando na rua onde eu estava, com um senhor de meia idade ao volante, me ver e, mesmo assim, me fechar. Fui atrás dele, parei na sua frente, desci e chutei várias vezes a porta do motorista. Só queria dar vazão à minha raiva e não pensei nas consequências, como sempre acontecia. E fui embora. Logo depois, quando o sangue baixou, senti enorme remorso, uma vergonha sem tamanho. Uma vontade de chorar... Naquele fim de semana, não saí mais de casa. Por isso, tento me controlar. Mas sem auxílio de terapia e medicação, não teria conseguido. Não sei como consegui viver tanto tempo com esse problema ou como não feri ninguém ou, mesmo, nunca levei um tiro.”
O depoimento de João – nome fictício –, professor, 57 anos, pai de dois filhos já adultos, causa estranheza por ter sido dado com voz pausada, gestos contidos e timidez. Mas não deveria. Porque os portadores do Transtorno Explosivo Intermitente (TEI), doença psiquiátrica caracterizada por uma falha no controle da agressividade que gera comportamentos desproporcionais, são, em geral, assim. Longe de se distinguirem por uma falha de caráter ou um espírito de vingança, eles não planejam suas explosões. Ao contrário, não as escolhem nem as controlam. Segundo a Dra. em Psicologia Liliana Seger, coordenadora do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (Pro-Amiti), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (Ipq/HC), de São Paulo (SP), seus pacientes são pessoas corretas, mas rígidas a ponto de terem paciência zero com os erros próprios e alheios. “Eles são os maiores prejudicados por suas explosões, e sabem disso. Mesmo assim, têm dificuldade de se controlar”, diz. 

Prejuízos – Também conhecido como Síndrome do Pavio Curto, o transtorno acomete 3,3% da população adulta. Pode parecer pouco perante os casos de violência testemunhados no trânsito caótico das grandes cidades, onde, muitas vezes, motociclistas ou motoristas vão às vias de fato. Mas há uma razão: nem todos que perdem a paciência em um momento de tensão portam o TEI. “Alguém com o transtorno apresenta uma média de duas explosões por semana durante, no mínimo, três meses”, quantifica a Dra. Liliana. Confirma o diagnóstico ainda o fato de os ataques serem desproporcionais aos acontecimentos geradores, não serem premeditados e eletivos (podem ser destruídos objetos de grande ou pouco valor) e serem seguidos de “ressaca moral”, ou sentimentos de vergonha, culpa e tristeza. “Normalmente, o paciente já possui um caso na família. Aliás, o problema é mais comum em lares que convivem com um clima agressivo e problemas de alcoolismo. Logo, temos uma causa ambiental ao lado de uma biológica, a descarga exagerada e repentina de adrenalina e outros hormônios no sangue”, avalia a Dra. Liliana.
As consequências das explosões podem ser extensas. Em virtude das descargas de adrenalina, não raramente a pessoa desenvolve problemas imunológicos e cardiovasculares, como um acidente vascular cerebral (AVC) e infarto do miocárdio. Há ainda os prejuízos materiais aos quais os pacientes e as pessoas que com eles convivem estão sujeitos em função da destruição dos ataques. Como não bastasse restam os desdobramentos pessoais, familiares e legais, como separações de casais, destruição da vida profissional pelo difícil convívio no ambiente de trabalho e até problemas com a justiça. Tudo isso pode levar o paciente a buscar, como solução, o isolamento social pelo temor de novos ataques que venham a prejudicar os outros. Mas é claro que a solução não está no isolamento e, sim, em procurar ajuda o quanto antes para evitar o pior.

Carneiros e leões
– Segundo a Dra. Liliana Seger, há tratamento e cura para o TEI. “Uma boa terapia cognitiva comportamental, como a que temos no Hospital das Clínicas, aliada a uma medicação antidepressiva, pode alcançar resultados satisfatórios em 15 semanas, com os pacientes recuperando a qualidade de vida”, afirma. De acordo com ela, a chave do tratamento está em fornecer instrumentos para o paciente ter controle sobre sua agressividade, sobre as causas que o levam a agir de forma explosiva. “A proposta de uma boa terapia não é tornar a pessoa 100% passiva, até porque ninguém pode ser assim. Um mínimo de agressividade ajuda o ser humano a sobreviver. Assim como não podemos viver como carneiros em uma selva, também não podemos viver como leões em um jardim. O melhor, sempre, é o equilíbrio. Para uns isso é fácil, para outros nem tanto”, garante a especialista.




Fonte: FC edição 955 - Julho 2015
Postado por: Família Cristã




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