Perseguição pela fé

Data de publicação: 16/08/2017

Por Karla Maria

O caso de Paulo, um nigeriano perseguido por ser cristão, explica como a humanidade parece longe de alcançar o universal direito à liberdade de culto

   
Por todo o mundo a perseguição religiosa ainda é realidade. Milhões de cristãos, mulçumanos, hindus e representantes de outras denominações religiosas são forçados a deixar suas casas e seus países para poderem viver e professar sua fé. Essa situação é mais presente e intensa do que alcançam e enxergam os olhos ocidentais. Em países como Iraque e Nigéria, expressar a fé em Cristo e na Igreja fundada por Pedro é morte na certa. O jovem cristão nigeriano, que aqui chamaremos de Paulo, sabia disso e correu tal risco. Aos 23 anos, deixou seu país, família, amigos e sonhos para poder viver e expressar sua fé em uma terra livre de perseguição religiosa: o Brasil. “Todo dia, eles matam pessoas, por isso tive de partir e escolhi vir para cá, porque sei que aqui as pessoas amam a Deus ou ao menos respeitam quem faz isso”, desabafou.
Encontramos Paulo no escritório da Cáritas de São Paulo (SP), organização da Igreja Católica que acolhe e encaminha os refugiados no País. Natural de Kaduna, cidade a 151 quilômetros da capital Abuja, Paulo iniciou a conversa temeroso. Sentiu-se à vontade para falar de seu passado apenas ao saber que uma cristã é quem lhe fazia as perguntas. “É bom saber que somos irmãos, porque na Nigéria se você é cristão deve ser morto”, disse o refugiado, que está na capital paulista há pouco mais de um ano e aguarda seu Registro Nacional de Estrangeiro (RNE) para regularizar a permanência.

Linguagem comum – Durante a entrevista, Paulo contou o que gostaria de ter esquecido ou nunca vivido. “No domingo, um grupo entrou na igreja e matou as pessoas, depois jogaram bomba. O problema está crescendo e algo precisa ser feito porque eles continuam jogando bombas em nossas casas e colocando homens suicidas em nosso meio.” Os ataques que acontecem desde 2009 são de autoria do grupo islâmico fundamentalista Boko Haram, que, recentemente, sequestrou e aprisionou 300 estudantes, na grande maioria, cristãs.
Segundo o arcebispo da cidade de Jos, cidade a 165 quilômetros da capital nigeriana, dom Ignatius Kaigama, os ataques às igrejas têm acontecido em muitos lugares. “Não devemos esquecer que os lugares de culto dos muçulmanos também têm sido alvos. Os repetidos ataques em Kano e Kaduna (cidades da Nigéria) mostram que a luta foi além das religiões do islã e do cristianismo. De fato, muitos muçulmanos e cristãos de boa vontade estão falando uma linguagem comum e agora procuram maneiras de trazer um fim a essa ameaça em comum”, disse o arcebispo.

Voltar? – Paulo partiu da Nigéria sozinho. Questionado sobre sua família, revelou ter perdido muitos parentes e amigos nos ataques. “Eu não quero falar e pensar sobre eles. Por favor, me entenda. Falar sobre o passado, o que vivemos, é difícil”, explicou o jovem, que é solteiro, não tem filhos e hoje conta com uma nova família que o recebeu. “O pastor e sua família, com três filhos, me acolheu. Eles agora são a minha família”, assume.
O nigeriano sonha em voltar ao seu país, mas sabe que o dia está longe. “Quero regressar à Nigéria, mas não agora. Talvez quando os problemas forem resolvidos. Hoje os fundamentalistas do Boko Haram estão gradualmente tomando todos os estados, e nós temos que nos unir contra isso. Eu vejo tudo aquilo e me sinto destruído, tenho vontade de chorar. São bombas para todos os lados. E por quê?”, pergunta Paulo.

Corrupção – A história do Boko Haram começou depois dos ataques terroristas ao World Trade Center e ao Pentágono, que aconteceram em 11 de setembro de 2001. Em 2002, o fundamentalista Mohammed Yusuf fundou o grupo como uma alternativa para a educação ocidental que ele alegou estar prejudicando o desenvolvimento da Nigéria. Naquela época, Osama bin Laden, líder e fundador da organização terrorista Al-Qaeda, que assumiu a autoria dos atentados do fatídico 11 de Setembro, teria enviado um assessor à Nigéria com 3 milhões de dólares em moeda local para distribuir entre os grupos que compartilhassem a missão da Al-Qaeda: impor a lei islâmica. Segundo o International Crisis Group, Organização Não Governamental (ONG) voltada à resolução e prevenção de conflitos armados internacionais, o Boko Haram foi um dos “principais beneficiários”.
Para o arcebispo Kaigama, o grupo ainda hoje recebe investimentos. “Há vários simpatizantes do grupo de dentro e fora do país. Deve haver meios de rastrear estes fundos e outros tipos de suporte, e eu não acredito que nosso governo esteja fazendo isso como prioridade”, denuncia. Kaigama também falou do medo que sente. “É normal ter medo, mas dada a minha tarefa, eu ofereço tudo a Deus e ao seu povo”, disse, apontando que não hesitará se for necessário perder a vida defendendo o direito das pessoas à liberdade de culto.
Em entrevista à Rádio Vaticano, o padre Patrick Tor Alumuku, diretor de Comunicações da Arquidiocese de Abuja, afirmou que muitos nigerianos acreditam que Boko Haram é um grupo invencível. Parte desta percepção viria da corrupção, do desvio de fundos que vão para os bolsos dos policiais e líderes militares que, assim, se vendem ao grupo ao invés de combatê-lo.

Intolerância – Uma pesquisa realizada pelo Pew Research Center, organização estadunidense que difunde conhecimento sobre assuntos estratégicos, apontou que um terço (33%) dos 198 países e territórios incluídos em seu estudo tinha, em 2012, altos níveis de hostilidades religiosas, contra 29% em 2011 e 20% a partir de meados de 2007. As hostilidades aumentaram em todos os continentes do mundo, exceto nas Américas. E o maior aumento foi registrado, exatamente, no Oriente Médio e no norte da África. O estudo aponta ainda que quase 75% da população mundial vive em áreas com graves restrições religiosas, sendo a maioria delas cristãs.
Entre os 25 países mais populosos do mundo, Egito, Indonésia, Rússia, Paquistão e Myanmar (Birmânia) destacam-se como tendo o maior número de restrições às religiões. Por outro lado, Brasil, Filipinas, Japão, África do Sul e República Democrática do Congo têm o mínimo de restrições e hostilidades a elas. A mesma pesquisa detalha a situação religiosa da Nigéria e aponta que, até dezembro de 2012, 49,3% da população local era cristã; 48,8%, muçulmana; e 1,9%, seguidora de religiões nativas e outras, ou não era afiliada a qualquer religião. A pesquisa também previu que, em 2030, a Nigéria terá uma ligeira maioria muçulmana na população (51,5%). Entre os cristãos, 24,8% são católicos; 74,1%, protestantes; e 0,9 % pertence a outras denominações cristãs. Alguns ainda se denominam como cristãos ortodoxos.
Em resumo, o estudo demonstra o quanto a humanidade parece estar longe de alcançar um pleno estado de liberdade de culto, no papel assegurado pelo Artigo 18 da Declaração Universal de Direitos Humanos, na qual está escrito: “Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular”.




Fonte: FC edição 945 - Setembro 2014
Postado por: Família Cristã




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