Bioética e Religião

Data de publicação: 21/08/2017

Por Léo Pessini

Nosso caminhar necessita ser nutrido pelo respeito, diálogo e compreensão pelo diferente,
sem abdicar de nossas convicções profundas de valores que nos dão “as razões de nossa esperança!”


O pluralismo de valores em nossa sociedade é a marca registrada deste nosso tempo denominado “pós-moderno”. A tão sonhada unidade entre povos e culturas não se conquista através da uniformidade forçada, mas do aprendizado nada simples de respeitar quem é diverso e diferente de nós. Diversidade não pode mais significar “adversidade” e, para além da mera tolerância, precisamos aprender a sermos respeitosos e dialogantes com os “diferentes”. Para além daquilo que nos foi legado pela “tradição”, precisamos construir nossas vidas e projetos em cima de “convicções profundas”, sendo capazes de “darmos as razões de nossa esperança”.  Nesse contexto, sem mútuos anátemas, a bioética tem de reaprender a dialogar com a religião e vice-versa.
William E. Stempsey, em um artigo intitulado “Religião e Bioética: podemos conversar?”, publicado na revista Bioethical Inquiry (2011), ao analisar o processo histórico da “secularização da bioética e a perda da influência da religião”, diz que “o mundo contemporâneo da bioética busca uma língua franca em seu papel como mediadora nas disputas no âmbito do discurso público.
Sabemos que a religião pode ser fator de divisão e assim ganha sentido a busca da bioética em outro lugar, que não a religião para encontrar mediação. Não é que a bioética ignore a religião ou a diminua como não sendo importante. Ocorre que ela se voltou para outras fontes, especialmente para a filosofia analítica, a lei e até mesmo para outras disciplinas, como a literatura, e a tão falada “humanidades médicas”, em suas tentativas de implementar o diálogo.
Esse autor argumenta que “o discurso público sobre questões bioéticas e políticas públicas perdeu algo de essencial quando ele ignora a dimensão religiosa. (...) A bioética perdeu de vista o fato que os substitutos para a linguagem religiosa falham em capturar a importância da contribuição da religião para o discurso bioético . (....) Existe a necessidade de se elaborar um papel renovado para os teólogos e pensadores de outras religiões em articular a importância da fé religiosa para o discurso público da bioética”.

Teologia e bioética − A rejeição da reflexão teológica empobrece a bioética, porque as questões centrais da bioética – relacionadas com a morte e o morrer, início de vida, pesquisa com células tronco embrionárias, abortamento, questões de genética que lidam com a natureza de nós, humanos – são essencialmente questões religiosas. As ideias que estão na fundamentação desses tópicos são aquelas em que a religião está fundamentalmente preocupada. Ignorar os milhares de anos deste insight religioso nestas questões seria empobrecer a discussão.
O desafio para o futuro da bioética, segundo Stempsey, “é encontrar caminhos para articular os elementos transcendentes de nossa experiência do sofrimento humano e morte – matéria prima da bioética – de maneiras que tornamos compreensível para a nossa atual sociedade pluralista, com o objetivo de implementar o diálogo  e a mútua compreensão. (...) A bioética necessita de um novo influxo de teólogos, e mesmo de pensadores religiosos que podem até rejeitar de serem denominados de ‘teólogos’ com novas visões que podem nos ajudar a entender os vários pontos de vista que constituem a experiência pluralista religiosa do século 21 e facilitar o diálogo”.     
Sem cairmos em fundamentalismos intolerantes, nosso caminhar necessita ser nutrido pelo respeito, diálogo e compreensão pelo diferente, sem abdicar de nossas convicções profundas de valores que nos dão “as razões de nossa esperança”! Enfim, temos que assumir nossa condição de sermos eternos aprendizes!





Fonte: FC edição 937 - Janeiro 2014
Postado por: Família Cristã




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