Quase invisíveis

Data de publicação: 24/08/2017

Por Luís Camilo Fidel


Estima-se que os albinos não passem de 12 mil em todo o País. Mas essa gente, que corresponde a 0,006% dos brasileiros, e mal se vê, tem necessidades específicas. Como o direito à visibilidade social

Em um ensaio fotográfico que exigiu sensibilidade, delicadeza e cinco anos de trabalho, o fotógrafo mineiro Gustavo Lacerda, dedicado a produzir imagens de forte impacto artístico, se dedicou a clicar um público dotado de características fotogênicas especialíssimas. Seu livro Albinos, lançado em 31 de julho pela Editora Madalena, de São Paulo (SP), traz retratos, produzidos em estúdio, de 35 crianças, mulheres e homens – de um total de 50 fotografados –, que se esmeram por passar aos olhares um clima de orgulho, vaidade e, por vezes, incômodo. Afinal, não há notícia de outro livro de arte que tenha observado, com tal apuro estético, os portadores de albinismo.
Elaborado em um País onde, culturalmente, as peles bronzeadas são sinonímias para a beleza e a sensualidade, o estranhamento ao trabalho extrapolou fronteiras. As imagens repercutiram bem em bienais e festivais internacionais de fotografia, como Photoquai, no Musée du quai Branly (Paris, França), a Europalia (Bruxelas, Bélgica) e o Photo España (Madri, Espanha). E é provável que vão ainda mais longe, pois as imagens de Gustavo têm livre trânsito em países como França, Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos, Holanda, Itália, Bélgica, Espanha, China, Coreia e Rússia, sem falar do Brasil, claro. Desde 2010, ele possui imagens no acervo do Museu de Arte de São Paulo (Masp).

Timidez – De acordo com o fotógrafo, tudo começou por acaso. Se pode se chamar de “acaso” o olhar diferente de um artista a respeito da realidade ao seu redor. Um dia, ele viu um albino no Parque do Ibirapuera, na cidade de São Paulo, e ficou observando a timidez, a delicadeza e os traços físicos do moço. Segundo ele, era como ver alguém invisível. “Veio a ideia de fotografar os albinos, que, normalmente, não o são devido ao problema da fotofobia (sofrem de aversão à luz pela dor que ela produz em casos de afecções oculares). Eles tendem a se preservar e se esconder da claridade do sol”, explica. Para driblar a dificuldade, ele se preocupou com os flashes e reproduziu, em estúdio, a luminosidade dos dias nublados.
Outra dificuldade foi a timidez, pois eles nunca tinham sido escolhidos para nada que não fosse serem zoados e, de repente, alguém os convidou para uma foto em estúdio com figurinos à disposição, geralmente em tons pastel, fundo infinito neutro e o ritual de se olhar no espelho e se produzir. “Iniciei o trabalho em 2009. Fui me envolvendo e o projeto foi crescendo”, resume Gustavo. As imagens foram produzidas no estúdio do artista, na capital paulista, no Rio de Janeiro (RJ) e no Maranhão, em lugarejos próximos à Ilha dos Lençóis, conhecida pela alta concentração de albinos.  Os deslocamentos, sempre acompanhados de uma figurinista e um assistente, foram possíveis devido aos recursos advindos do Prêmio Conrado Wessel, conquistado por Gustavo em 2011 – ele já havia levado o mesmo prêmio em 2005, 2006 e 2007. Outra distinção importante foi o Prêmio Porto Seguro de Fotografia (2010).

Estigmas – Retratado ao lado da irmã Andreza, estudante de Educação Física, e do irmão Marcos, analista de Tecnologia da Informação, o analista de informática do Tribunal Superior do Trabalho de Brasília (DF) André Cavalli, de 35 anos, aprovou o resultado final. “Ficou um trabalho diferente e muito bonito. Gustavo soube trabalhar bem o fundo infinito e usou cores diferentes.” Os irmãos Cavalli, que já realizaram comerciais para a TV, desfiles de moda – no caso de Andreza – e outros trabalhos para a mídia, inclusive o cinema, se sentiram mais à vontade no estúdio do fotógrafo. “Geralmente temos problema com a luz muito forte dos refletores e holofotes, e a sua abordagem cuidou para que nos sentíssemos confortáveis. A claridade adequada empregada no trabalho pode ser conferida nos olhos dos albinos fotografados, que quase sempre aparecem bem abertos. Nos sentimos mais soltos”, explica.
Outros envolvidos na produção, o escritor, professor de Inglês e de Literatura Roberto Rillo Biscaro, de São Paulo, autor do blog Albino incoerente (www.albinoincoerente.com) e do livro Escolhi ser albino (Editora EdUFSCar, da Universidade Federal de São Carlos), e a economista carioca Ana Beatriz Vassimon, mãe das gêmeas Mariana e Helena, se sentiram representados com dignidade e lisura. “Muitas pessoas querem fotografar as meninas colocando elementos coloridos nelas. As imagens do Gustavo, ao contrário, não têm nada de espetacularização e as trataram de uma forma sensível e lírica”, conta Ana Beatriz. “O mérito do artista foi ter o olhar diferente como um portador da beleza, sem estigmatizar o albino”, interpretou o professor Biscaro.

Proteção – O dermatologista Marcus Maia, coordenador do Programa Nacional de Controle de Câncer de Pele, da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), e criador do Programa Pró-Albino, desenvolvido há três anos na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, viu o livro de Gustavo Lacerda, no qual muitos de seus pacientes aparecem, como uma bela forma de inclusão social para os albinos. “O que eles mais precisam é se integrar à sociedade. Muitos são vítimas de preconceito e, quando crianças, de bullying na escola, quase sempre sob as vistas grossas de educadores não preparados”, explica. Uma das razões da discriminação é, obviamente, a diferença da cor de pele. “Mas o albinismo nada mais é do que uma incapacidade genética do organismo de produzir a melanina, pigmento que dá cor à pele e que serve de filtro natural para os raios solares. Sem ele, o albino não se bronzeia e se queima à menor exposição solar”, explica o especialista.
Desde pequeno, o albino deve ser orientado a se proteger do sol com filtros, chapéus, óculos escuros e roupas que cobrem a maior parte do corpo, pois sua pele é suscetível ao envelhecimento precoce. Sem isso, há risco de um câncer de pele. “Um tumor que, normalmente, aparece aos 70 anos em uma pessoa que produz melanina, pode ocorrer em um albino adolescente se ele não se cuidar”, compara o doutor Marcus. E, como o sol é importante para a constituição óssea, é indispensável o albino repor desde cedo, através de suplementos, a vitamina D fornecida pelos raios solares que ele deve evitar. Caso contrário, estará sujeito à osteopenia, diminuição da densidade mineral dos ossos, proveniente da falta de cálcio e fósforo, e que leva à osteoporose. Outra deficiência que causa problemas, principalmente na idade escolar, é a visão subnormal. “A maioria enxerga menos de 30% do que uma pessoa não albina, devido à falta de pigmentação nos olhos. Uma lente corretiva receitada por um oftalmologista ameniza o problema”, alerta o dermatologista.

Inclusão – Fora esses cuidados extras, o albino é uma pessoa como qualquer outra, garante o criador do Programa Pró-Albino da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. “Tanto, que não se pode falar que o albinismo óculo-cutâneo, que é o nome mais apropriado para a incapacidade deles, seja uma doença e muito menos uma síndrome. Temos, em nosso consultório, albinos engajados à sociedade e que desempenham normalmente as suas funções em diversas frentes. Profissional e intelectualmente, eles podem desenvolver qualquer tipo de trabalho, desde que este não o deixe exposto à claridade solar. Não podemos exigir que eles, por exemplo, sejam cortadores de cana, trabalhadores da construção civil ou vendedores ambulantes em praias ensolaradas. O que a sociedade precisa fazer é apenas ter, em relação a eles, um olhar inclusivo, mais humano e menos preconceituoso”, aponta o doutor Marcus Maia.




Fonte: FC edição 943- setembro 2014
Postado por: Família Cristã




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