Bodas de arte

Data de publicação: 30/08/2017

Por Karla Maria

Frida e Diego são dois rostos de um mesmo México, cujas formas e cores se misturam a um povo que valoriza suas raízes indígenas

Caminhar pela Cidade do México desperta a vontade de carregar na bagagem suas artes, leituras e fé. Nela, afinal, a mãe de Jesus ganha o nome de Virgem de Guadalupe e uma devoção que não passa despercebida. Ainda pode-se ver a resistência e o encanto nos rostos indígenas explorados pela colonização. Ao andar por Zócalo, coração da cidade onde se encontram resquícios do que um dia foi a capital asteca, a Tenochtitlán, depara-se com a Catedral Metropolitana, cuja construção demorou 200 anos. Com seus 13 retábulos de diferentes concepções arquitetônicas, destaca-se o Cristo Negro na cruz e venerado por transeuntes que transpõem portais datados do século 16. Os espanhóis não foram nada sutis ao impor a essa catedral construída num espaço antes dedicado aos rituais astecas, além da arte e dos costumes europeus, uma violenta sobreposição cultural sobre os povos dominados. 

Caminhando um pouco se chega ao Palácio Nacional, edifício que pertenceu a Montezuma, imperador asteca. Nele, hoje, estão os murais de Diego Rivera intitulados México, através dos séculos, pintados entre 1929 e 1951. Logo nas escadarias o impacto tira o fôlego, dados a beleza, a dimensão e os detalhes dos fatos neles revelados. “Aqui está a história nacional da chegada dos espanhóis ao pensamento revolucionário do século 20”, afirma Guilhermo Westphal, guia mexicano formado em História da Arte. “Por trás do conjunto se destaca um magnífico trabalho de perspectiva e documentação por parte de Rivera”, continua Westphal. Segundo estudiosos, o muralista inspirou-se em Pablo Picasso, Salvador Dalí, Juan Miró e no arquiteto Antoni Gaudí. Uma inspiração nascida em sua passagem pela Europa e, mais tarde, do seu relacionamento com a pintora Frida Kahlo, com quem se casou em 1929. De certa forma, os dois permanecem ligados. Hoje, a figura de Frida estampa uma face da nota de 500 pesos, enquanto a de Diego Rivera está no outro lado.

Sofrimentos – Como Rivera, Frida tem valor imensurável para a cultura mexicana. A começar por sua história de vida. Terceira filha do segundo casamento entre um alemão judeu e uma mestiça mexicana católica, ela teve um vínculo difícil com a mãe. “A relação das duas parecia depressiva e inadequada. A sensação de estar só na sua presença está no quadro Meu nascimento”, afirma a psicanalista Gina Khafif Levinzon, no artigo Frida Kahlo: a pintura como processo de busca de si mesmo. Frida começou a pintar desde menina e, talentosa, aprenderia muito com o marido. Mas aos 18 anos, em 1925, um acidente a marcou. O bonde onde viajava colidiu com um trem provocando fraturas em sua espinha dorsal, sofrimento e sequelas que se estenderam à sua arte. Sem andar, pintava na cama. Um espelho no dossel permitia a Frida se ver e, dessa maneira, ser sua própria modelo.

“O infortúnio não assumiu o caráter de tragédia: sentia que tinha energias para fazer qualquer coisa em vez de estudar Medicina. E, sem prestar muita atenção, comecei a pintar”, escreveu em um de seus diários, revelado pela biógrafa Hayden Herrera, na obra Frida – a biografia. Começou, assim, a série de autorretratos que compõe o melhor de sua obra. “80% de seus quadros são autorretratos”, confirma Westphal. Os dissabores, porém, não parariam por aí. Três abortos sofridos lhe mataram a esperança de ser mãe, constituir uma família ao lado de Diego Rivera e marcaram de forma dramática sua arte, que, depois, se difundiria por todo o mundo. “Foi uma vida de sofrimento durante décadas, cujo início se deu o acidente. Mas a pintura dela, na época, não era considerada importante”, completa o historiador de arte.   

Casa Azul – Ainda assim Frida tornou-se um ícone da arte mexicana e também do universo feminino por ter se mostrado uma mulher à frente de seu tempo. Em uma época que algumas questões eram restritas aos homens, como arte e política, ela tomou posições. Junto ao marido, por exemplo, abrigou em sua casa um dos ícones da revolução russa, Leon Trotski, com sua mulher e netos. O abrigo era a Casa Azul, onde viveram de 1929 a 1954. Depois da morte de Frida, em 13 de julho de 1954, o lugar virou o Museu Frida Kahlo, um dos pontos mais visitados do México. E não é para menos...

Localizada no elegante bairro de Coyoacán, onde caminhar se iguala à leitura de um bom livro, a Casa Azul localiza-se à Rua Londres, 247, esquina com Rua Allende, e permite encontrar fragmentos que um dia foram instrumentos da arte e do dia a dia de Frida. Chegando à porta da casa pintada com um azul único por Diego Rivera, a pedido de Frida, depara-se com uma fila formada, na maioria, por mulheres jovens. “Frida é uma espécie de santa padroeira das mexicanas independentes e liberais. Observe o público visitante”, convida o guia que cresceu no mesmo bairro. O que se vê, de fato, são muitas jovens vestidas com jeans, camisas bordadas com temas indígenas e brincos indígenas.

Arrumação – Do jardim às louças da cozinha tudo está intacto: cartas de amor que enviou a Diego, tintas guardadas em frascos de perfume e livros. Os objetos pessoais ainda estão lá e compõem um quebra-cabeça da mulher-mito que fazia questão de valorizar a cultura popular mexicana em suas roupas que permanecem expostas. É possível visitar os quartos onde Frida passava dias e noites, o atelier de pintura com uma vista ampla e iluminada para o jardim. O quarto onde recebeu por dois anos Leon Trotski permanece arrumado. No Museu ainda há uma amostra da riqueza da produção da artista, com quadros, desenhos e estudos.

Quem visitar a Casa Azul pode estender a caminhada por Coyoacán e visitar outro museu, o de  Anahuacalli, onde há um acervo pré-hispânico idealizado por Diego Rivera. O Museu Leon Trotski, casa onde viveu e morreu o revolucionário russo após sua acolhida na casa de Frida, está ali perto. Outra opção é sentar-se em um dos cafés do bairro e observar o movimento alegre da juventude e o olhar silêncioso dos habitantes mais experientes do bairro. Coyoacán é mais uma joia desta coroa chamada México.

 



 

 




Fonte: FC edição 946- outubro 2014
Postado por: Família Cristã




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