Tecer o amor

Data de publicação: 31/08/2017

Por Fernando Geronazzo


Projeto reúne mulheres que após a aposentadoria colocam seus dons para produzir solidariedade

É tarde de quarta-feira. Um grupo de senhoras, a maioria aposentadas, começa a chegar ao salão da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, na Vila Arapuá, zona sul de São Paulo (SP). Tudo indica que é mais um grupo semanal de convivência boa terceira idade, comuns nas comunidades pelo Brasil afora. Sim. Elas convivem, trocam experiências, rezam, compartilham os quitutes que cada uma preparou com carinho em casa. Mas o objetivo primordial delas é um só: tricotar.
E o fazem com uma habilidade impressionante. A cada história, risada, receitas trocadas, surgem de suas mãos mantas, sapatinhos, toucas, casacos de bebê... Elas fazem parte do Projeto Tecelãs do Amor Maior, que envolve mulheres de todo o Brasil que enviam enxovais de tricô para o Amparo Maternal, maior maternidade de assistência pública do País.
Dolores Penha Dias, 65 anos, coordena o grupo da Vila Arapuá. Para ela, que esse projeto tem sido uma luz para as muitas mulheres que, depois de se aposentarem, se veem perdidas com a mudança radical da rotina. “Começamos este grupo em março de 2012. Éramos cinco mulheres. Hoje já somos 40”, conta. Só nesse grupo são produzidas mensalmente de 180 a 200 peças de enxovais para os bebês.

Autoestima – Segundo Dolores, o projeto foi muito interessante para os aposentados que melhoraram a autoestima. “Embora a proposta inicial seja ajudar os bebês carentes, o que nós recebemos é muito maior. Todas saem daqui renovadas”, afirma.
Gilda Rosa Bassi, 66 anos, é uma das que observaram uma mudança em sua vida, após ter se tornado tecelã. Ela parou de trabalhar há 14 anos, possuía com o marido uma casa de massas. “Depois que meu marido faleceu, eu perdi o pique e fechei o negócio da família”, lamenta Gilda, que hoje recebe a pensão do marido.
Como se não bastasse a perda do marido, Gilda sofreu há quatro anos a perda do seu filho mais velho e da nora em um acidente de carro. “Depois dessa tragédia, eu entrei numa depressão profunda. Cheguei até a tentar o suicídio. Esse grupo aqui para mim é uma terapia”, ressalta.
Conceição Ribeiro Andrade Santinello, 70 anos, também está no grupo desde o começo. Ela trabalhou mais de dez anos como auxiliar de contabilidade. “Meu marido não gostava muito que eu trabalhasse fora. Até que ele aguentou esperar minha aposentadoria. Mas eu não queria ficar parada. Então eu coloquei uma plaquinha na janela de casa e comecei a vender roupa”, relata Conceição, que, com o dinheiro economizado das roupas, ajudou nas despesas dos dois filhos na universidade. “Hoje temos um filho médico e uma filha bióloga”, conta orgulhosa.

Nunca parar – Embora ainda não seja aposentada oficialmente, a ex-comerciante Maria de Jesus Tomé Sena, 56 anos, parou de trabalhar há três anos, depois que sua loja foi assaltada. “Logo que parei de trabalhar, fiquei quase um ano em casa e evitava sair por medo. Agora eu continuo contribuindo com a Previdência até ter a idade para dar entrada na aposentadoria”, diz.
A convite de uma amiga, Maria entrou para as Tecelãs do Amor Maior e começou a perder o medo de sair de casa. “Ficar em casa é muito ruim. Às quartas-feiras, eu encontrei um ânimo. Dá um pouquinho da gente é bom. Eu costumo dizer que não somos nós que ajudamos ao Amparo Maternal, mas nós que somos mais ajudadas.”
Ana Maria Luciano Alonso Waideman, 57 anos, aposentou-se há seis anos. “Eu trabalhava, há quase dez anos, como auxiliar de almoxarifado esportivo em um condomínio. Quando me aposentei, eu chorei muito, pois me vi em casa sem fazer nada”, afirma. “Eu tinha um sonho de me dedicar em algo para crianças e que pudesse usar as minhas mãos. Quando descobri as tecelãs, eu realizei meu sonho”, acrescenta. 
Aos 72 anos, Maria Aparecida Marim não parou um só instante de trabalhar depois que se aposentou. Após atuar em várias áreas, ela encerrou sua carreira como auxiliar de enfermagem. “Eu faço artesanato, faço pão de mel para vender, sou voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, faço faculdade da terceira idade, faço ovos de Páscoa. Eu não paro”, diz, Maria, que já concluiu o curso de agente social e continua os estudos. “Agora eu estou estudando Direito e Bem-estar na terceira idade”, conta a aposentada, que estuda há sete meses. “Entrei aqui para aprender a fazer sapatinhos de bebê. Agora ninguém me segura.”
Considerado como uma das maiores maternidades da América Latina, o Amparo Maternal conta com mais de 400 colaboradores e 100 voluntários que contribuem para a realização de cerca de 7 mil partos anuais.

Sair de si – Foi olhando para essa realidade que a voluntária Marlene Vilutis começou com as Tecelãs do Amor Maior. “O projeto iniciou-se sem querer quando fui procurada por uma senhora, dona Diná, que sofria de depressão. Ela me procurou para fazer um trabalho aqui no Amparo Maternal, porém, ela não quis ser voluntária devido à depressão e por achar que isso afetaria as mães e os bebês. Minha sugestão foi fazer tricô e crochê, desenvolvendo roupinhas para os bebês mais carentes, ao que ela aceitou prontamente. Foi a partir daí que se iniciou o Projeto das Tecelãs do Amor Maior.”
Para o padre Ricardo Antonio Pinto, pároco da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, o projeto oferece um espaço de convivência de encontros e oportunidade de contato com os desafios sociais. “Não se trata apenas de uma ajuda filantrópica, mas de poder fazer a experiência de deixar uma marca na sociedade, que também recebe os efeitos de um novo modo de se relacionar, de se encontrar, que produz essa ajuda concreta para a sociedade, neste caso, as crianças que nascem no Amparo Maternal.”
Ana Maria deixa o recado para os aposentados que não sabem como colocar seus dons à disposição de quem precisa. “Não pode ficar sentado esperando. Se você tem um sonho, vai atrás dele. Quando entrei neste grupo eu não conhecia ninguém, nem tinha muita experiência com tricô. Mas me receberam de braços abertos” Maria Aparecida aconselha: “Eu aconselho a não parar... Se não sabe fazer um trabalho manual, aprende. Porque o que não dá é para parar”. 
Hoje, mais de 150 pessoas desenvolvem o projeto. Há muitas contribuições na capital paulista e no interior, além do Pará, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Para conhecer mais sobre as Tecelãs do Amor Maior, acesse www.tecelasdoamor.wordpress.com.






Fonte: FC edição 937- janeiro 2014
Postado por: Família Cristã




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