Mãos do mundo

Data de publicação: 06/09/2017

Por Maria de Fátima Zanandrea, especial de Caxias do Sul (RS)*


Com cerca de 10 milhões de artesãos, o Brasil regulamenta a profissão e estabelece diretrizes para as políticas públicas para o profissional

Os cerca de 10 milhões de artesãos brasileiros têm um bom motivo para comemorar. A presidente Dilma Rousseff sancionou o Projeto de Lei 7.755/2010, dia 22 de outubro, que regulamenta a profissão de artesão. O projeto estabelece diretrizes para as políticas públicas de fomento à profissão, institui a carteira profissional para a categoria e autoriza o Poder Executivo a dar apoio profissional a esses profissionais.
O ministro do Turismo, Henrique Eduardo Alves, disse que a regulamentação é um grande avanço para o setor, com potencial para desenvolver a economia e preservar o patrimônio do País. De acordo com o autor do projeto, o ex-senador Roberto Cavalcanti, artesão é toda pessoa que exerce atividade predominantemente manual, que pode contar com o auxílio de ferramentas e outros equipamentos de forma individual, associada ou cooperativada. “Vamos formalizar o nosso reconhecimento e desenvolver, em parceria com governo, políticas públicas que atendam a categoria”, destacou a presidente da Confederação Nacional dos Artesãos, Isabel Gonçalves. A entidade reúne 21 federações de artesãos espalhadas pelo Brasil.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que o Brasil tem em torno de 10 milhões de artesãos. Desse total, 87% são mulheres que aprendem a tradição na família, com as mães e avós. No Rio Grande do Sul, 94% dos artesãos cadastrados são mulheres, enquanto 6% são homens.
O artesanato é tradicionalmente a produção de caráter familiar, na qual o produtor (artesão) possui os meios de produção (sendo o proprietário da oficina e das ferramentas) e trabalha com a família em sua própria casa, realizando todas as etapas da produção. O artesanato costuma ser erudito, popular e folclórico, podendo ser manifestado de várias formas.
O artesanato brasileiro é um dos mais ricos e garante o sustento de muitas famílias e comunidades. Ele faz parte do folclore e revela usos, costumes, tradições e características de cada região. Os índios são os mais antigos artesãos. Eles utilizavam a arte da pintura, usando pigmentos naturais, a cestaria e a cerâmica, sem esquecer a arte plumária como os cocares, tangas e outras peças de vestuário feitos com penas e plumas de aves.

Rio Grande do Sul
− “O artesanato gaúcho está concentrado no meio rural”. A afirmação é da gestora cultural e pesquisadora Letícia de Cássia, ao apresentar o resultado da pesquisa de campo que representa o primeiro mapeamento documentado do artesanato no Rio Grande do Sul. “Seja com indígenas, quilombolas e com os agricultores familiares, o artesanato resgata a cultura da nossa colonização”, destaca.
Denominada Garimpo das Artes Artesanais RS – Saberes e Fazeres, a pesquisa confirmou ainda que mais da metade dos artesãos de artesanato ancestral está na zona rural do estado, quase a metade dos artesãos entrevistados tem Ensino Fundamental incompleto e a grande maioria trabalha com matéria-prima de fios e fibras naturais que ela mesma cultiva. “A ideia é trabalharmos os arranjos produtivos locais, dando visibilidade ao trabalho dos artesãos e favorecendo a criação de uma nova ferramenta de gestão cultural”, adianta Letícia.
Para a coordenadora estadual da área de Artesanato da Emater/RS-Ascar, Ivanir Argenta, a pesquisa é uma forma de divulgar o trabalho realizado pela instituição com os artesãos do meio rural, pelo resgate realizado, empoderando-os e tornando-os protagonistas dessa ação, que gera renda para as famílias.
 No Rio Grande do Sul, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) assessora 16.161 artesãos de 15.069 famílias e presta cursos de formação e capacitação. Em todo o estado, estão cadastrados no Programa Gaúcho de Artesanato mais de 87 mil artesãos, contemplando todas as práticas (46.198 são ativos). Desses artesãos, 2.996 estão envolvidos com os 546 pontos de venda cadastrados pela extensão rural e social. “Isso representa 8,3% do público assistido pela Emater”, destaca Ivanir.
De acordo com a pesquisa, as técnicas mais usadas são tecelagem, cestaria, crochê, tricô, costura, macramê, bordado e trançado. “Muito do nosso artesanato está relacionado ao uso da lã e do couro e também às cestarias e tramas indígenas”, observa a coordenadora da área da Emater.
O projeto abrangeu dez Conselhos Regionais de Desenvolvimento (Coredes), representados por 27 municípios gaúchos, de seis regiões administrativas da Emater/RS-Ascar: Bagé, Pelotas, Caxias do Sul, Santa Rosa, Soledade e Porto Alegre.

Matéria-prima – Os artistas da natureza usam matéria-prima sustentável. Modelos delicados, que se destacam por suas cores e texturas, elaborados de forma sustentável com matéria orgânica, abundante na natureza. Das árvores saem as folhas; do trigo e do milho, as palhas; e das sementes, todos os tipos e tamanhos de objetos.
Dos rios vêm o couro e as escamas dos peixes. A isso soma-se, ainda, uma infinidade de outros materiais, como as sobras de madeira, o vime, a lã e até crina de cavalo. Assim nasce o trabalho que transforma a vida e a realidade social de milhares de mulheres e homens – os artesãos, artistas que dão vida às vidas. Esses, quase anônimos personagens a serviço da arte, emprestam seus talentos para colorir, ensinar e fortalecer a cultura de nações. Com a profissionalização, nasce a possibilidade de resgatar e fortalecer a cidadania a partir das próprias raízes, valorizando a identidade de todos os povos.
 
* Reportagem produzida em parceria com o Jornal Correio Riograndense.




Fonte: FC edição 960- abril 2015
Postado por: Família Cristã




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