Volver a La Paz

Data de publicação: 08/09/2017

Por Karla Maria

Trabalho precário, preconceito, humildade e esperança são realidades que marcam a vida da família Perez, na cidade de São Paulo

Às 6 horas da manhã, Tecla e Oscar Perez já estão grudados em uma máquina de costura, na oficina que abriram há cinco anos no bairro do Bom Retiro, em São Paulo (SP). Ela tem 33 anos e ele, 32. São naturais de La Paz, que fica na parte alta da Bolívia, 3.640 metros acima do nível do mar, perto da Cordilheira dos Andes. Uma cidade fria.
Foi de lá, em 2006, que o casal partiu rumo a São Paulo em busca de uma vida mais digna para toda a família. Tecla e Oscar têm dois filhos: Danna Gabriela e Eynar Danilo, com 13 e 10 anos, respectivamente. A família não foi a única a decidir deixar a Bolívia, pelo contrário. Dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM) revelam que cerca de 20% da população boliviana se encontra fora do país.
A viagem terrestre de cerca de 3 mil quilômetros entre a cidade sede do governo boliviano e a capital paulista não foi fácil, como não tem sido a vida da família desde a chegada ao Brasil. “Saímos de ônibus de La Paz. Foi muito difícil. Cinco dias em um veículo cheio. Noites inteiras em claro com as crianças. Para passar na fronteira, tivemos que esperar uma semana”, conta Tecla. Ao chegarem a São Paulo, foram morar na região do Bom Retiro, em uma oficina com outras famílias de trabalhadores. A situação era precária. “Vi meus irmãos trabalhando fechados em um quarto. Era assim todos os dias. Meus filhos tinham que ficar neste quarto durante um ano e não tinham direito de ir à escola. Por isso resolvi abrir minha própria oficina junto com Oscar”, conta Tecla.

Mais valia – O trabalho dos bolivianos em oficinas de costura tem sido – de modo geral – considerado análogo à escravidão pela legislação trabalhista brasileira, pois os empregados são submetidos a baixíssimos salários, ambientes insalubres e péssimas condições de higiene e moradia. “Trabalhávamos em um quarto. Eram 12 horas direto, das 6 horas à meia-noite, de segunda a sábado”, diz Oscar, sem, contudo, reclamar. O casal recebia entre 30 e 60 centavos por peça costurada. “Era muito pouquinho”, lembra o boliviano. Tecla, no entanto, não considera seu trabalho escravo. “Trabalhamos com prazos. Se precisa entregar a gente se esforça e faz. Agora, nós somos enganados pelos coreanos. Trabalhamos para eles e quando vamos cobrar eles somem”, denuncia, lembrando que na Rua Prates com Rua José Paulino, também no Bom Retiro, não são raros os bolivianos que saem chorando sem receber o pagamento. “Os coreanos acham que nós somos escravos e temos de aguentar”, conclui.
Se, antes, os filhos Danna e Eynar ficavam confinados no quartinho de trabalho durante todo o dia, hoje eles têm espaço para brincar e, ao mesmo tempo, observar o trabalho dos pais. “Minha mãe fica sentada direto, com dor nas costas e não tem tempo para a gente. É o dia todo só trabalhando com a roupa. Ela não faz mais nada, só trabalha. Fica muito ocupada e não dá pra sair, pra passear, porque tem que fazer o serviço rapidamente, já que o nosso aluguel é caro”, opina a menina, que sonha ser veterinária.
Queixas – A casa onde vivem e trabalham é pequena, ao contrário do aluguel que consome 50% da renda familiar. “Pagamos mil reais de aluguel e o que cobramos dos coreanos é 2 mil reais. Ficamos com quase nada, porque temos que pagar água, luz e alimentos. Moramos há quase cinco anos aqui nesta casinha e juntamos apenas 3 mil reais para voltar para a Bolívia”, lamenta Oscar, que agora diz não ter valido a pena deixar seu país. De fato, com o aumento dos preços no Brasil, o poder de compra das famílias diminui dia a dia. Com o real valendo atualmente 1,81 bolivianos (moeda da Bolívia), o desejo de voltar a La Paz se torna cada vez maior. “Não serviu de nada vir ao Brasil. Outros bolivianos passaram por isso também”, desabafa o pai, ao ver a moeda de seu país relativamente valorizada perante o real.
Tecla também quer voltar, mas a família não tem data para a viagem. Aqui, segundo a mãe, as dificuldades financeiras estão grandes. “Se antes era melhor tentar a sorte no Brasil, hoje possivelmente é mais vantajoso voltar para a Bolívia. Evo Morales, o atual presidente, é melhor do que os antecessores Carlos Mesa e Gonzalo Sánchez de Lozada”, afirma. Mesa governou a Bolívia de 2003 a 2005; e Lozada, de 2002 a 2003. Para Tecla, Morales melhorou as condições de vida dos trabalhadores, principalmente no que diz respeito às leis que os protegem, e implementou um programa social nos moldes do Bolsa Família, que ajudou a melhorar a vida da população. A mãe também se queixa da escola das crianças e considera melhores os centros de educação bolivianos. “Neles, as crianças têm aulas de Ciências, e isso não ocorre nas escolas públicas brasileiras”, compara.

Preconceito – Apesar de gostar do Brasil e, de um modo geral, do povo brasileiro, Tecla sofreu discriminação por ser boliviana. Aliás, a dor em sua voz e rosto tem um nome: preconceito. O problema se estende aos filhos, principalmente o menino, já que a filha, por ser bonita, sofre menos – o problema de Danna são as cantadas dos meninos da escola, algo que a mãe não gosta. Mais do que as dificuldades financeiras, o preconceito consome Tecla. “Sentimos no olhar. No hospital, nos atendem de maneira diferente. Médicos e enfermeiros se sentem mal em nos medicar. Na escola, no trato com os diretores, não há diferença alguma, mas as crianças sentem. Escutei muitas vezes os brasileiros falando que somos feios e, no coração, isso dói muito”, conta a mãe.
Segundo Tecla, a única resposta diante da violência sofrida pelo preconceito é baixar a cabeça e seguir andando. “Crianças pequenas nos empurram e ficamos calados, porque temos medo até de morrer, e tem que continuar a vida, mesmo desse jeito, humilhados”, desabafa, com a voz embargada. Talvez devido a essas situações, a pequena Danna, dona de madeixas longas e negras, deseje voltar à La Paz que guarda na memória. “Tenho vontade de voltar a morar na Bolívia, sim. Não quero morar para sempre no Brasil. Aqui eu acho um pouco chato. Os meninos ficam mexendo comigo, e eu não gosto”, conta a menina, que tem amigas, na maioria brasileiras, com quem costuma conversar e brincar de pega-pega. Já o garoto Eynar não fala muito. Só observa, com olhos curiosos, mas sempre baixos. Talvez busque uma saída que os pais e os países ainda não encontraram para garantir a ele uma vida mais digna.




Fonte: FC edição 960- dezembro 2015
Postado por: Família Cristã




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