O temor de Deus

Data de publicação: 12/09/2017

Por Maria Inês Carniato, fsp*

O temor não é medo de Deus, é admiração por vê-lo tão santo, imenso, infinito e próximo de nós

Dom dos místicos, o temor de Deus, mais do que um sentimento humano, é sobrenatural. Nasce da experiência intensa e inesperada de sentir Deus envolvendo-nos com sua presença e falando-nos ao coração. Essa intimidade nos faz ver o quanto somos pequenos e insignificantes. É uma sensação de infinita distância, que Deus anula com seu amor. 
   

Testemunhos bíblicos − As primeiras páginas da Bíblia falam de uma grande dificuldade do ser humano, o medo de Deus: Adão, depois do pecado, se esconde ao ouvir os passos do Senhor no jardim e sua voz a chamá-lo pelo nome (cf. Gn 3,8-10). O medo vem do sentimento de culpa e da ideia confusa que temos a respeito de Deus. Imaginamos que Ele quer nos castigar e fugimos para longe d’Ele.
Ao contrário do medo, o temor de Deus faz-nos permanecer diante d’Ele, certos de que, mesmo sem merecermos, somos alvos de sua amizade porque, em sua grandeza e santidade, Ele vem ao encontro de nossa fraqueza e pequenez. 
As principais figuras bíblicas experimentaram o temor pela grande surpresa da proximidade de Deus. Abraão “foi tomado de grande e misterioso terror” (Gn 15,12b); Jacó exclamou: “Como é terrível este lugar! Isto aqui só pode ser a casa de Deus e a porta do céu” (Gn 28,17b); Moisés, no Monte Sinai, caiu com o rosto em terra, quando o Senhor disse: “Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó” (Ex 3,6b). Os profetas Isaías e Daniel contam o que viveram naquele momento grandioso: “Ai de mim, estou perdido! (...) Meus olhos viram o rei, o Senhor dos exércitos!” (Is 6,5); “Ele se dirigiu então ao lugar onde eu estava. Quando se aproximou, eu me assustei e prostrei-me, o rosto no chão. (...) Ele falava comigo e eu, assustado, de bruços no chão. Ele tocou em mim e fez-me ficar de pé como estava antes” (Dn 8,17a-18). Compreensivo com o temor do ser humano, Deus se apressa em garantir aos escolhidos que não há perigo, como diz a Gedeão: “A paz esteja contigo, não tenhas medo: não morrerás!” (Jz 6,23).
Os escritos educativos de Israel veem no temor de Deus o sinal da bênção reservada ao justo. Diz o livro do Eclesiástico: “Vós que temeis o Senhor, contai com a sua misericórdia e não vos desvieis, para não cairdes. Vós que temeis o Senhor, confiai n’Ele, e a vossa recompensa não falhará. Vós que temeis o Senhor, esperai coisas boas: alegria duradoura e misericórdia. Vós que temeis o Senhor, amai-o e vossos corações ficarão iluminados (Eclo 2,7-10). 

O espírito do Messias − O temor de Deus reveste o Messias anunciado pelos profetas: “Sobre ele há de pousar o espírito do Senhor, espírito de sabedoria e de compreensão, espírito de prudência e de valentia, espírito de conhecimento e temor do Senhor” (Is 11,2). Jesus converteu o temor em louvor, quando fez reviver o jovem de Naim: “Todos ficaram tomados de temor e glorificavam a Deus” (Lc 7,16a).
O temor de Deus alimenta-se pelo amor aos irmãos. Para quem crê, o temor é reverência e gratidão por Deus, porque Ele se volta para a pequenez humana. Diz a Carta aos Hebreus: “Já que entramos na posse de um reino inabalável, sejamos gratos. E assim, sirvamos a Deus de modo a agradar-lhe, com piedade e temor” (Hb 12,28-29).
   
Dom do céu − O medo do castigo oprime as pessoas que não conhecem o Deus revelado por Jesus, um pai justo que compreende as fraquezas humanas e as perdoa, em vez de punir. Enquanto os que têm medo vivem assustados pelo castigo, os que possuem o dom do temor se assustam pela grandeza de uma bondade que não esperam receber. O medo nos encerra na solidão e o temor nos liberta e abre o nosso coração para Deus e para o que Ele quer de nós.
O temor de Deus não é apenas uma emoção espiritual, é uma graça sobrenatural alimentada na oração e no convívio com quem mais precisa de nossa presença e ajuda.

Santo − O bem-aventurado Charles de Foucauld, um sacerdote francês que viveu no deserto do Saara, junto aos nômades muçulmanos, foi alguém imbuído do temor de Deus.
Nascido em Estrasburgo, na França, em 1858, filho de uma tradicional família cristã e herdeiro de um título de nobreza, Charles de Foucauld cedo perdeu os pais e foi criado pelo avô materno. Quando tinha 20 anos, o avô faleceu, e ele se viu herdeiro de uma fortuna. Como estudante da Academia Militar Francesa, rico e sem família, rapidamente atraiu falsos amigos e, na companhia deles, perdeu a fé, adotou o ateísmo e arruinou os bens em uma vida dissoluta.
Formado como oficial militar e enviado para a Argélia, na África, em 1880, Charles de Foucauld sentiu-se profundamente tocado pelo acolhimento que os nômades islâmicos dedicavam aos estrangeiros. Ele se perguntava por qual motivo aquelas pessoas, pobres mas crentes em Deus, eram tão humanas e gentis, mesmo no contexto de vida mais adverso. Em 1882, decidiu dar novo rumo a sua vida, demitiu-se do exército, passou um tempo no deserto como peregrino, depois foi a Paris à procura de alguém que o ajudasse a reencontrar Deus.
Em 1886, o incansável peregrino conheceu um sacerdote que o reconduziu à fé. A experiência foi tão intensa, que, por toda a vida, Charles de Foucauld repetiu: “Quando encontrei Deus, vi imediatamente que não poderia viver senão para Ele”. Depois de alguns anos como monge na Terra Santa, foi ordenado sacerdote e viveu no meio dos pobres. Em 1904, mudou-se para o deserto do Saara, onde ficou até a morte, entre os nômades Tuareg. Em uma minúscula capela de terra batida e folhas de palmeira, entre a areia e as estrelas, ele passava horas em oração diante de Cristo presente na Eucaristia.
Abismado no amor de Deus, padre Charles de Foucauld a todo momento era interrompido por escravos, doentes e outros necessitados que vinham mendigar atenção e ajuda. Em 1º de dezembro de 1916, assaltantes o assassinaram e nada encontraram  para levar na pequena ermida, onde de tesouro só tinha um santo mergulhado no mistério de Deus e revestido pelo dom do temor, que se expressava em contemplação, sabedoria e amor aos irmãos.

Na próxima edição, começará a série os dez mandamentos.

* Maria Inês Carniato, fsp, é Irmã Paulina e mestra em Teologia.




Fonte: FC edição 942- agosto 2014
Postado por: Família Cristã




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