Da terra, a esperança

Data de publicação: 13/09/2017

Por Osnilda Lima


O cultivo da terra realizado por pequenos proprietários rurais, tendo como mão de obra o núcleo familiar, é responsável por 70% do alimento que vai à mesa dos brasileiros


Tarde chuvosa e fria. Cleusa Vieira Lopes, 37 anos, na cozinha prepara a massa para fazer o pão caseiro. Ele, Gilson Valderi Alves, 47, está na lavoura. A chuva fina, intermitente e fria há uma semana não o faz fugir, quer aproveitar o solo encharcado para preparar a terra para o plantio. Eles estão casados há 17 anos. Os filhos, o mais velho, Guilherme Lopes Alves, 15, fica em regime de internato na Escola Agrícola, mas nos fins de semana passa com a família. Carol Lopes Alves, 14, está na escola, cursa o Ensino Médio. Já a caçula, Gisele Lopes Alves, 7, está em casa entretida na montagem de sua casinha, mas não demorou muito saiu para brincar na chuva, juntar pedrinhas com os amiguinhos que vieram visita-la.  A família é produtora rural no município de Boa Ventura de São Roque (PR), a 244 quilômetros da capital paranaense, Curitiba.
De acordo com a Constituição brasileira, na Lei no. 11.326 de julho de 2006, consideram-se agricultores familiares aqueles que desenvolvem atividades econômicas no meio rural e possuem propriedade rural maior que quatro módulos fiscais. O módulo fiscal varia de 5 a 100 hectares, conforme cada município. As propriedades rurais brasileiras de pequeno e médio porte são de trabalhadores que produzem diversas culturas com pouca tecnologia e mão de obra familiar.
“Alguns trabalhadores rurais têm vergonha de andar com a enxada nas costas, não compreendem a importância de nosso próprio trabalho. Acabam arrendando as terras para o agronegócio. O alimento que produzimos, por ser totalmente orgânico, tem muito mais aceitação no mercado”, ressalta Gilson. Já Cleusa adverte: “Mas o desafio para nós produtores rurais é muito grande, pois não temos recursos para poder investir na produção e depois vender o que produzimos”.
Em sua maioria, as propriedades dos pequenos produtores rurais são desprovidas de aplicação de técnicas, tecnologias e conhecimentos. Com isso, o cultivo é de baixa produtividade. Esse retrato rural se encontra nessas condições devido à falta de incentivo; os governos oferecem poucas linhas de crédito com facilidades, amparo técnico e subsídio. Mesmo com as adversidades, esses produtores respondem por grande parte dos alimentos dispostos no mercado interno brasileiro.
Segundo o então Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), o principal responsável pela comida que chega às mesas das famílias brasileiras é a agricultura familiar, que responde por cerca de 70% dos alimentos consumidos em todo o País. O pequeno agricultor ocupa hoje papel decisivo na cadeia produtiva que abastece o mercado brasileiro: mandioca (87%), feijão (70%), arroz (34%), carne suína (59%), leite (58%), carne de aves (50%) e milho (46%) são alguns grupos de alimentos com forte presença da agricultura familiar na produção. Em 2015, a agricultura familiar era responsável por 80% da produção mundial de alimentos e por 90% das propriedades agrícolas.
Apesar da sua importância para o País, as políticas públicas adotadas ainda privilegiam os latifundiários. Como exemplo, tomamos o Plano de Safra 2011/2012, em que 107 bilhões de reais foram destinados à agricultura empresarial. E a destinação para os produtores familiares foi de 16 bilhões de reais mesmo assim, a agricultura familiar gera, em média, 38% da receita dos estabelecimentos agropecuários do País e emprega aproximadamente 74% dos trabalhadores na zona rural. Diante dos fatos, a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação  (FAO) tem exercido pressão junto ao governo para que disponha subsídios e recursos a tais agricultores.
Para a safra 2016/2017, os agricultores familiares terão 30 bilhões de reais para financiamento. O anúncio foi feito pela presidente afastada Dilma Rousseff, em maio, no Palácio do Planalto, em Brasília (DF), durante apresentação do Plano Safra da Agricultura Familiar. O volume recorde de crédito, os estímulos à produção de alimentos que contribuem com o controle dos índices de inflação e a ampliação de políticas para a juventude rural foram as medidas mais comemoradas por representantes de movimentos sociais e agricultores familiares.
Contudo, o governo do presidente interino Michel Temer, na edição de sexta-feira, 13 de maio de 2016, no Diário Oficial da União (DOU), publicou a medida que extingue nove ministérios. Entre eles está o MDA, criado durante o governo de Fernando Henrique Cardoso e que agora foi incorporado à pasta do Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário, sob o comando de Osmar Terra (PMDB-RS). Para o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), Alberto Broch, o fim do MDA,é um retrocesso às conquistas da agricultura familiar e do avanço da reforma agrária.
A preocupação da Contag consiste na a transformação da agenda da agricultura familiar, de desenvolvimento, para política social. Para a Contag, a agricultura familiar é uma proposta de desenvolvimento, e não só social e econômico, mas de segurança alimentar, desenvolvimento do meio rural.
Mesmo com todas essas dificuldades, a família Lopes Alves não pensa em deixar o trabalho na agricultura familiar, pois acredita na importância de seu trabalho para a sustentação da cadeia alimentar que vai à mesa dos brasileiros. Ela produz na esperança de maior reconhecimento e incentivos para continuar a produção.




Fonte: FC edição 966- junho 2016
Postado por: Família Cristã




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