Muito pra cabeça

Data de publicação: 18/09/2017

Por Sérgio Esteves


Longe de ser um problema associado à pobreza, à falta de higiene e à baixa renda, os piolhos podem estar até sobre cabeças coroadas

Dos problemas que o homem traz na cabeça, a pediculose, ou a infestação por piolhos, é um dos mais antigos. Arqueólogos já acharam lêndeas – ovos de piolho – em múmias egípcias de 5 mil anos, confirmando a informação do livro do Êxodo: entre as dez pragas do Deus de Israel enviadas sobre o faraó e seu povo, a terceira foi um flagelo desses parasitas. O que explica o costume, no Egito antigo, de homens e mulheres rasparem os pelos do corpo a cada três dias para impedir a fixação dos insetos. No Brasil, embora existissem antes, os piolhos entraram para a História em 1808, quando a família real, fugindo das tropas de Napoleão Bonaparte, aportou na Bahia. A rainha Carlota Joaquina desembarcou não de coroa, mas de turbante, e ato contínuo foi imitada pelas brasileiras que imaginavam se tratar de uma moda europeia. Não era. Durante a longa viagem de mais de um mês, um surto de piolhos atacou a tripulação e toda a Corte Portuguesa a bordo – e a vaidosa Carlota queria apenas esconder a cabeça pelada.
Segundo o biólogo Júlio Vianna Barbosa, pesquisador do Laboratório de Educação em Ambiente e Saúde, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), esconder a pediculose é um jeito de não resolver um problema de saúde pública que acomete principalmente crianças em idade escolar que compartilham pentes, toucas, bonés e presilhas de cabelo, entre outros objetos. “Não há escola sem caso de pediculose. O que há é ocultação e, por tabela, proliferação dos piolhos. A ocultação ocorre porque a pediculose é associada à pobreza, baixa renda e falta de higiene. O que é um equívoco. Piolho gosta de cabeça limpinha”, diz. De acordo com ele, bastam um macho e uma fêmea da espécie Pediculus humanus – esse é o nome científico do bichinho – para se provocar a infestação na cabeça de alguém, pois a fêmea pode pôr até 300 ovos durante seus 30 dias de vida. “A incidência no País chega a 40% e não difere de países desenvolvidos ou não. Nos Estados Unidos, por exemplo, ela oscila entre 40 e 50%”, aponta.

Selfies – As picadas de piolhos provocam coceira que começam atrás da orelha ou abaixo da nuca, além de irritação no couro cabeludo. Como os piolhos são hematófagos e se alimentam de sangue humano, dependendo do grau da infestação, a criança pode sofrer de anemia ou ter infecção no couro cabeludo. Outra consequência é o baixo rendimento escolar, pois a criança, devido à coceira, dorme mal ou perde o sono. A coceira ainda a impede de prestar atenção na aula. Embora não poucos, os problemas se resumem a isso, pois, no Brasil, atualmente, não há registro de doenças graves transmitidas pelo Pediculus humanus. Mas não é impossível haver. No passado, durante as duas grandes Guerras Mundiais, foram registradas, entre os soldados, milhares de mortes provocadas pelo tifo exantemático, enfermidade grave causada pela bactéria Rickettsia prowazeckii encontrada nas fezes do piolho. Logo, é bom evitar e combater a pediculose.
Não é difícil evitar. Ao contrário de alguns mitos, o piolho não salta, como a pulga, nem voa. Assim, a transmissão cabeça a cabeça, se dá mesmo por contato direto entre os corpos e, como já dito, pelo uso comum de objetos pessoais de cabeça como boné, touca, tiara, pentes, escovas e presilhas de cabelo, o que é mais comum entre meninas. Os cabelos longos também facilitam a transmissão entre elas. Quanto maior a extensão dos fios, maior é a capacidade de a fêmea e pôr seus ovos na cabeça – as lêndeas grudam nas bases dos fios. Entre os adultos e adolescentes, a transmissão pode ocorrer com o compartilhamento de travesseiros, bandanas, capacetes e até pelos selfies. Sim, aquelas fotos tiradas em grupos pelo celular. O simples fato de encostar uma cabeça em outra facilita o contágio.

Pente fino – Júlio Vianna alerta que a melhor forma de eliminar piolhos é através de um método já empregado por nossas avós: o uso diário de pente fino. “A criança deve ficar de costas, sentada, com um pano branco nos ombros para facilitar a visualização dos piolhos retirados. Com o cabelo dividido em partes, o pente fino deve ser usado da base até a ponta dos fios. Para facilitar, utilize creme de pentear, do tipo condicionador ou rinse. A orientação é fundamental porque os produtos disponíveis hoje no Brasil não têm efeito sobre as lêndeas, os ovos do piolho. Para retirar a lêndea, use uma mistura de água e vinagre, na mesma proporção. Molhe nela um pedaço de algodão e passe-o, por vez, sobre três ou quatro fios de cabelo, da raiz às pontas. Essa receita caseira é simples, segura e sem riscos à saúde humana”, orienta.
A dica deve ser levada a sério também por outra razão. É arriscado utilizar produtos químicos sobre o couro cabeludo humano, pois este funciona como uma esponja e absorve tudo o que é aplicado sobre ele. “Inseticidas e tinturas de cabelo podem matar os piolhos, mas não eliminam as lêndeas e contêm substâncias que provocam lesões e infecções na criança. Outro mito comum consiste no uso de plantas, geralmente associadas a tratamentos naturais. Seu uso pode gerar alergias e deve ser evitado”, explica o biólogo Júlio Vianna.
Em tempo: os casos de pediculose mais persistentes e que não são resolvidos em casa devem ser encaminhados a um pediatra ou dermatologista, que, como último recurso, utilizam um medicamento via oral.




Fonte: FC edição 958- outubro 2015
Postado por: Família Cristã




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