Centro de conversão pastoral

Data de publicação: 19/09/2017

Por Leomar A. Brustolin*

Há muitos desafios para a conversão pastoral da paróquia atual. Um ponto de partida talvez seja reconhecer que nossa atuação não atinge a missão como desejamos


A conversão pastoral implica mudança de estruturas e métodos eclesiais, mas principalmente depende da conversão dos agentes, dos presbíteros, dos religiosos e dos fiéis leigos. A expressão “conversão pastoral” remete, em primeiro lugar, à renovada conversão a Jesus Cristo. Trata-se de uma conversão pessoal e comunitária. É preciso renovar em cada cristão batizado o ardor de ser discípulo do Mestre e Missionário da Boa-Nova. Emprega-se o termo “conversão” para indicar uma mudança necessária. Há muitos batizados e até agentes de pastoral que não fizeram um encontro pessoal com Jesus Cristo. Alguns vivem o cristianismo de forma sacramentalista, sem deixar o Evangelho renovar suas vidas. Outros perderam o sentido do discipulado e esqueceram a força missionária que o seguimento implica.
A mudança supõe uma nova mentalidade. “Quanto à conversão pastoral, quero lembrar que ‘pastoral’ nada mais é que o exercício da maternidade da Igreja. Ela gera, amamenta, faz crescer, corrige, alimenta e conduz pela mão... Por isso, faz falta uma Igreja capaz de redescobrir as entranhas da misericórdia. Sem a misericórdia, temos hoje poucas possibilidades de nos inserir em um mundo de ‘feridos’, que tem necessidade de compreensão, de perdão e de amor”, conforme nos disse Francisco, em um de seus pronunciamentos feitos durante sua visita ao Brasil.
Em sua exortação apostólica Evangelii Gaudium, o papa explicitou as consequências dessa conversão. “A reforma das estruturas que a conversão pastoral exige só se pode entender nesse sentido: fazer com que todas elas se tornem mais missionárias, que a Pastoral Ordinária em todas as suas instâncias seja mais comunicativa e aberta, que coloque os agentes pastorais em atitude constante de ‘saída’ e, assim, favoreça a resposta positiva de todos aqueles a quem Jesus oferece a sua amizade.”

Comunidade amiga – Portanto, são muitos os desafios para a conversão pastoral da paróquia atual. Mas um ponto de partida para isso é reconhecer que a forma como atuamos na pastoral e evangelizamos não está atingindo a missão como desejamos. Em primeiro lugar, deve-se considerar a falta de consciência comunitária que o individualismo moderno instalou até mesmo entre os agentes da Pastoral Paroquial. A cultura do egoísmo e do isolamento determina o cotidiano de muitas pessoas. Algumas paróquias podem até ter uma vida religiosa e sacramental intensa, mas seus membros se descuidam da comunhão entre si. Buscam a experiência com o sagrado sem compromisso com a fraternidade e a solidariedade. Vivem a fé cristã buscando atender apenas às demandas pessoais.
Por outro lado, a crise aponta para uma redescoberta do valor da paróquia na Igreja de nossos dias. Isso implica reconhecer a sede de espiritualidade das pessoas, e estas podem encontrar na paróquia um centro mistagógico, que possibilite uma iniciação aos mistérios da religião. A insuficiência de um território para agregar os membros de uma comunidade também proporciona o alargamento da compreensão da comunidade e da paróquia superando esses limites geográficos. O vazio e a depressão que ameaçam tantas pessoas poderão, assim, ser enfrentados numa comunidade amiga e fraterna, capaz de ser samaritana, acolhendo os caídos pela cultura egoísta e consumista. A conversão pastoral da paróquia exige mudança de mentalidade em relação ao protagonismo do laicato. A falta de presbíteros para atender a comunidade cristã supõe reconhecer que a atuação dos fiéis leigos pode ser mais intensa. 

Encontrar os afastados – Outro importante fator para a conversão pastoral é a acolhida personalizada na comunidade. A sociedade facilmente descarta pessoas e tende à despersonalização. Também as famílias começam a ter dificuldades de vínculo afetivo. Muitos idosos e doentes sentem-se um peso até mesmo em suas próprias casas! E não há como ser cristão sem ser missionário também nesse campo. A comunidade cristã jamais pode se fechar para essas diversas realidades que afetam o seu contexto. Não se trata de um grupo que satisfaz apenas sua dimensão religiosa, mas integra todas as experiências pessoais, comunitárias e sociais, a partir de sua fé em Jesus Cristo. “A fé não é um fato privado, uma concepção individualista, uma opinião subjetiva, mas nasce de uma escuta e destina-se a ser pronunciada e tornar-se anúncio”, volta a nos dizer Francisco em sua encíclica Lumen Fidei.
Enquanto uma comunidade de comunidades, a paróquia deve ter como missão enfatizar a cultura do encontro com os afastados e evangelizar os ambientes que se tornaram indiferentes à mensagem evangélica. Porque, como orienta Francisco na já citada – mas nem sempre, infelizmente, compreendida – Lumen Fidei, “quem crê nunca está sozinho; e, pela mesma razão, a fé tende a difundir-se, a convidar outros para a sua alegria. Quem recebe a fé descobre que os espaços do próprio ‘eu’ se alargam, gerando nele novas relações que enriquecem a vida”.

•    Leomar A. Brustolin é presbítero da Diocese de Caxias do Sul (RS), doutor em Teologia e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Porto Alegre.







Fonte: FC edição 946- outubro 2014
Postado por: Família Cristã




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