O tratado e o massacre

Data de publicação: 26/09/2017

Por Felício Pontes Jr.

“O estado do Mato Grosso do Sul continua sendo o mais violento contra os povos indígenas no País”

     Ao mesmo tempo em que os povos indígenas das três Américas celebravam a aprovação de sua Declaração de Direitos, pela Organização dos Estados Americanos (OEA), ocorria um massacre contra o povo indígena Guarani Kaiowá, da Terra Indígena Dourados Amambaipeguá, município de Caarapó, no Mato Grosso do Sul.
    Tudo começou no domingo do dia 12 de junho. A Comunidade Indígena de Tey Kuê, não suportando a espera de décadas pelo governo, reocupou parte de sua área, conhecida como Fazenda Yvu. Os fazendeiros procuraram a polícia com a informação falsa de que os indígenas mantinham reféns em seu poder. O objetivo era expulsar os indígenas sem ordem judicial. O plano não deu certo.
     Os fazendeiros juntaram, então, de 30 a 40 pessoas, em cerca de 20 camionetes e seguiram para a área. No caminho ainda encontraram policiais. Demonstraram indignação pela não retirada dos indígenas à força. E continuaram estrada adentro.
   Já era terça-feira do dia 14 quando o comboio se dividiu e encurralou os indígenas. As pessoas desceram dos carros. Alguns estavam encapuzados e com armas em punhos. E atiraram. Os prontuários médicos mostraram o que aconteceu aos indígenas: Libércio Daniel foi alvejado por quatro disparos de arma de fogo (tórax, flanco direito, membro superior direito e couro cabeludo); Jesus de Souza foi vítima de múltiplas perfurações de intestino delgado, de intestino grosso, lesão traumática do baço, lesão de fígado; Josiel Benites, de 12 anos de idade, foi atingido no hipocôndrio esquerdo, com lesões graves no intestino grosso, transfixação gástrica pelo projétil e transfixação do rim esquerdo; Valdílio Garcia foi vítima de ferimento penetrante por projétil de arma de fogo no hemitórax esquerdo, provocando ferimento pulmonar e hemorragia intratorácica do lado esquerdo”; o líder Norivaldo Mendes foi atingido por projétil de arma de fogo no hemitórax direito; a professora Catalina Rodrigues foi atingida no braço direito; Norivaldo Marques foi atingido por munição menos letal (bala de borracha). O mais grave ainda estava por vir.
     O agente de saúde indígena Cloudione Aquileu Rodrigues de Souza, ao ouvir tiros e gritos, correu no sentido da aldeia para prestar auxílio às vítimas. Antes de chegar, foi alvejado por dois disparos de arma de fogo – um no abdome e outro no peito. O agente tombou defronte à porteira da Fazenda Yvu, vindo a óbito. O laudo necroscópico apontou “choque hipovolêmico, por ferimentos de arma de fogo”. A indígena Braulina viu a cena. Gritou para os assassinos: “Parem de atirar! Vocês já mataram um aqui”. Um deles retrucou: “Eu vou atirar, vou matar mais de vocês, esses bugres, vagabundos. Vão ficar no chiqueiro, seus porcos!”. Esse episódio, que foi batizado como Massacre de Caarapó, resultou na morte de Clodioude, e de pelo menos outros cinco indígenas feridos, sendo uma criança.

Direito à vida – O Conselho Indigenista Missionário (CIMI), no Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil, do ano passado, informava que “o estado do Mato Grosso do Sul continua sendo o mais violento contra os povos indígenas no País. Se todas as terras tradicionais reivindicadas fossem demarcadas, elas ocupariam apenas 2% da área do estado, que tem a segunda maior população indígena do Brasil”. E mostrou que o estado liderou o assassinato de indígenas, com 41 pessoas mortas, ou 29% dos casos. Destes, 68% das vítimas eram do sexo masculino e 32% do sexo feminino. “A faixa etária com maior incidência de vítimas foi a de 20 a 29 anos (32%). Também preocupa o registro de assassinatos na faixa etária de 10 a 14 anos (12% dos casos). Dourados foi o município com o maior número de casos (40%), seguido de Amambai (34%).”
      O Brasil não teve tempo nem estômago para celebrar a aprovação de uma Declaração de Direitos que levou mais de 20 anos para ser escrita, negociada e aprovada entre todos os países das Américas. O Massacre de Caarapó demonstra que não será fácil tirar do papel direitos fundamentais, como, por exemplo, o direito de o indígena não ser discriminado por ser indígena, o direito à terra e o direito à vida.




Fonte: FC Edição Nº968 - Agosto 2016
Postado por: Família Cristã




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