Ritmo Eucarístico

Data de publicação: 16/10/2017

Por Frei Luiz Turra


O ritmo celebrativo da Eucaristia faz pensar, porque muitas vezes, as celebrações diluídas no tempo e no espaço vão privando o povo da experiência de beleza que o rito, na sua unidade diversa nos oferece

O assunto que iremos tratar nesta reflexão não parece ser muito comum. Os manuais e tratados de liturgia, na sua maioria, não mencionam esta questão relevante da Pastoral Litúrgica. Porém, Com frequência, em conversas de rua, entre os católicos se fazem comentários, atingindo diretamente a realidade do ritmo celebrativo das missas. Registramos algumas conversas que circulam por ali:
•    “A missa começou bem, mas não terminava nunca”... 
•    “Algumas partes da missa foram prolongadas demais e outras partes atropeladas, principalmente da consagração em diante”.
•    “Os cantos tinham demais estrofes e o sermão do Padre parecia uma aula de teologia ou uma palestra de moral”.
•    “Fazem-se comentários de leituras mais longos que a própria leitura”.
•    “Os avisos finais viram outro sermão e ninguém leva nada para casa”.
Estes são apenas algumas avaliações espontâneas que nos fazem pensar, porque as celebrações diluídas no tempo e no espaço vão privando o povo da experiência de beleza que o rito, na sua unidade diversa nos oferece.

Porque nos preocuparmos − As comparações podem ajudar a entender a importância do ritmo na celebração Eucarística. Começamos relacionado-nos à música. Confirmamos que não há como pensar nela, sem pensar em ritmo. O ritmo desempenha um papel de organização importante e torna o discurso musical compreensível, ao estabelecer as relações de duração, intensidade e beleza. O ritmo acontece, graças à sucessão de tempos fortes e fracos e vão determinando a cadência dinâmica e viva de uma página musical. Sem ritmo a música e o canto se tornariam inviáveis como linguagem coletiva.
Ritmo é elemento indispensável numa obra de arte, um filme, um teatro, uma poesia etc... A sucessão e alternância de elementos expressivos, movimentos ou situações vão constituindo um conjunto fluente, dinâmico e envolvente. Falamos e precisamos cuidar também do ritmo biológico, da sucessão regular das contrações (sístole) e dos relaxamentos (diástole) do músculo cardíaco. Importante é também o ritmo respiratório, sucessões de inspirações e expirações. Enfim, ritmo é assunto a ser considerado e levado a sério, como elemento indispensável e favorável.
A celebração da Missa é pensada, merecidamente, como a mais preciosa obra de arte, onde se faz indispensável o ritmo, alternando as partes diversas numa unidade profunda no Mistério Pascal. Este mistério é que dá o ritmo certo à vida e à história, à Igreja e o mundo.

Um tesouro em vaso de argila − A Igreja, por séculos e séculos investe em cuidados, estudos, discernimentos para preservar o ritmo de um mistério vivido e celebrado. Todo o sincero e valioso investimento, foi e é motivado pelo tesouro que é a celebração da Missa, como ação de Cristo e centro de toda a vida cristã. Porém, como ação do povo de Deus e seus ministros, a Igreja sabe da fragilidade dos vasos de argila, onde está o tesouro que necessita de cuidados.
No todo da vida e caminhada da Igreja, a natureza da celebração Eucarística define o ritmo que lhe garante o justo cuidado e valorização. “Pois nela se encontra tanto o ápice da ação pela qual Deus santifica o mundo em Cristo, como o do culto que os homens oferecem ao Pai...”(IGMR  1,1). Não é de qualquer jeito que se vive o momento celebrativo da Eucaristia para ser participativo, consciente e frutuoso. Sem o cuidado por um ritmo, corremos o risco da vulgarização. Tudo o que cabe bem dentro de nossas medidas, bem explicável, bem domesticado pelo saber e vontade, perde a força de fascínio sagrado.

Quando perdemos o ritmo? − O ritmo da Missa se perde, quando queremos fazer do momento celebrativo um tempo para tudo, menos para o que deve ser, conforme a sua natureza. Não há dúvida que na Igreja Católica, a celebração Eucarística ainda é o argumento mais forte de convocação.  Por ser assim, não é difícil querer aproveitar a presença dos fiéis para “um pouco de tudo”.
Não são de outro planeta as tentações de fazer da Missa um Show, para aumentar torcedores emocionados. Então, substitui-se a assembleia Eucarística pela animação de uma plateia, desviando o foco do Mistério, a centralidade da Palavra de Deus e da Presença viva do Senhor, o Crucificado Ressuscitado. Neste tipo de Show-Missa vale tudo. Nosso povo de boa fé arrisca substituir o discipulado missionário por um fanatismo passageiro expondo-se a futuras decepções. Não é de estranhar que aumente sempre mais o número dos indiferentes e descrentes.
Perdemos o ritmo da celebração, quando não damos nenhum espaço ao silêncio, quando improvisamos comentários, quando não preparamos a proclamação da Palavra de Deus e nos contentamos em fazer uma leitura corrida. Prejudicamos o ritmo da Missa quando os serviços litúrgicos atuam desconectados do foco unificador atuando como funcionário do culto.

Conclusão − Creio que a santa teimosia da Igreja, em cuidar da inteireza da Missa em sua caminhada milenar, garante a preservação deste mistério e o torna um verdadeiro santuário de fé e de vida. Creio que a atenção ao ritmo celebrativo ajude a favoreça um caminho mistagógico de autêntica experiência da ação de Deus e uma resposta criativa e fiel de nossa ação, como seu povo, reunido em assembleia. 

Perguntas
1.    Na prática, como anda o cuidado pelo ritmo celebrativo em sua comunidade?
2.    Porque é importante dar atenção ao ritmo da Missa?
3.    Qual é o ritmo ideal para uma ativa, consciente e frutuosa participação na Missa?
                                                                                                                  
   
 





Fonte: FC edição 937- janeiro 2014
Postado por: Família Cristã




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