Ensinar e viver

Data de publicação: 19/10/2017

Por Maria Júlia Onesko


Como favorecer às crianças da catequese uma verdadeira iniciação à vida de fé em uma  comunidade de pessoas que fazem a diferença na sociedade

As paredes são multicoloridas, são muitas mãzinhas de tintas que, espalhadas desde o chão até o teto revelam que ali é o espaço das crianças.  O ambiente se mostra aconchegante, acolhedor. “No início do ano quando começam os encontros de catequese, as crianças da catequese familiar e pré-catequese ficam numa expectativa enorme de quando irão deixar sua marquinha na igreja”, revela Salete Maria de Prá Bortoli, coordenadora de catequese na comunidade São Francisco de Assis, em Concórdia (SC). Muitas mãos, muitas histórias, apresentações, dinâmicas, assim são os encontros de catequese na comunidade em que Salete a mais de 16 anos como catequista e 6 como ministra da Eucaristia. Ela se mostra empenhada em não somente passar os ensinamentos da doutrina católica às crianças, mas de favorecer, por meio de experiências, o encontro com Jesus Cristo.
“Uma catequese não pode ser muito doutrinal. O são João Paulo II em sua primeira visita ao Brasil, em 1980, disse: ‘Quem diz mensagem, diz mais do que doutrina’. Então, nós precisaríamos de uma catequese menos doutrinal. Uma criança não assimila tanto da doutrina da Igreja. Claro que vamos usar os referenciais e as verdades da fé o que a gente crê o que a gente vive, a moral, o que a gente celebra, os sacramentos, a oração, como está disposto no catecismo da Igreja. Mas a principal preocupação deve ser a experiência de fé. O que a criança vai levar para a vida é a experiência que ela faz de Deus e a experiência de uma vida em comunidade. Daí ser fundamental favorecer à criança o encontro com Jesus Cristo”, salienta padre Roberto Nentwig, que atua na área da Pastoral da catequese, no Paraná e autor do livro Iniciação à comunidade cristã – Paulinas Editora.

Os pais na catequese – Salete conta que ao iniciar o ano catequético, conversa com os pais e entrega a programação do ano todo. A catequista revela que uma vez ao mês tem a formação com os pais dos grupos da catequese e a cada domingo a celebração é com a participação de pais e filhos da catequese familiar, pré-eucaristia, eucaristia e crisma. “No começo eles ficam um tanto mal humorados em participar. Mas eu faço questão de ficar à porta da igreja, cumprimentá-los pelo nome e dar boas-vindas. Aos poucos eles vão se soltando e adoram participar”, assegura Salete.
Padre Roberto reforça que o grande desafio é envolver pais e filhos na catequese. “A maioria dos pais não estão interessados em acompanhar os filhos no processo de formação, de iniciação à vida cristã. Mas algumas iniciativas podem ajudar, e o que mais dá certo é a personalização, não tratar os pais como um grande grupo, mas conversar, atingir cada família, por visitações e diálogos.

Ser comunidade – “Sempre envolvemos as crianças nos momentos fortes da vida em comunidade, nas festividades do Padroeiro, Mês Mariano, Dia das Mães e dos Pais, Páscoa e Natal, eles amam fazer isso. Também estudam e apresentam a vida de santos, isso eles adoram fazer. Fazemos teatros, coroação de Nossa Senhora. Assim eles se envolvem com toda a comunidade. “Sem a comunidade não há catequese. A iniciação cristã tem uma relação absoluta com a comunidade. A criança precisa se sentir dentro da comunidade. É preciso que a catequese tenha experiências, tenha atividades. A criança precisa ser envolvida na liturgia, nas pastorais, nas atividades diversas da  comunidade, ela precisa se sentir parte e importante dentro da comunidade. A catequese não é papel só do catequista, mas de toda a comunidade, lideranças, pároco, famílias”, enfatiza padre Roberto.
Que diz não ser possível viver a vida cristã de modo pessoal e intimista. Pode até ter uma experiência religiosa. No entanto, reforça o padre que vida cristã é a vida de um grupo de pessoas. “Deus quis salvar um povo. Desde o começo a Igreja se organizou em comunidades de fé, afetivas e acolhedoras”, lembra. 
Na apresentação do livro Iniciação à comunidade cristã, o teólogo Agenor Brighenti, lembra que a iniciação cristã é essencialmente introdução à vida de fé em uma comunidade. Daí, a comunidade eclesial deve gerar discípulos missionários de Jesus Cristo. E o grande desafio, segundo o Brighenti, se dá porque em geral e em grande proporção os cristãos não são evangelizados, têm fraca participação comunitária e pouco sentido de pertença enquanto Igreja e deixa-se de lado a comunidade eclesial como sujeito. Contudo segundo ele isso não ocorre por razões pessoais, mas estruturais. E lembra que a Igreja perdeu uma de suas instituições mais importantes, o catecumenato − No fim do segundo século as pessoas que desejavam tornarem-se cristãos eram acolhidas na na Igreja e recebiam a formação que se fundava sobre uma tríplice experiência: ouvir a palavra de Deus de uma forma especial com a catequese; o exercícios ascético-penitenciais − pois era ali que “nasciam” cristãos de alta qualidade, tanto no testemunho como na ação missionária. 

A formação – “Muitos pais querem que os filhos façam catequese, mas eles próprios sabem muito pouco e participam menos ainda da Comunidade. Muitos não sabem nem rezar. E apareceram na Igreja quando vieram batizar os filhos”, expressa com preocupação a catequista Salete. Nesse sentido, Agenor Brighenti, lembra que isso se deu na Igreja por duas razões. Uma devido a teologia do pecado original que levou a batizar crianças em massa. Com isso a inserção na Igreja passa a dar-se por tradição e não por conversão. Já a outra razão foi a avalanche repentina de pessoas que foram feitas cristãs, quase que por decreto com a “virada Constantina” no início do século IV em que, de relegião perseguida, passou a ser “religião protegida pelo Estado e o cidadão passou a ser sinônimo de cristão. Segundo o teólogo a Igreja, de comunidade pequena de convertidos, passou a ser massa de anônimos amorfos na fé.
Com essa realidade, no hoje, de acordo com o padre Roberto se faz urgente fazer da Igreja comunidades de pequenas comunidades em que a iniciação cristã leve à inserção no seio da comunidade eclesial concreta, na comunhão de cristãos iniciados na fé que, por sua natureza, são sujeitos da evangelização. Ele lembra as igreja domesticas fundadas pelo Apostolo Paulo: “Eram pequenas comunidades, não ultrapassando o número de 30 a 40 pessoas. Esse modelo de comunidade para os tempos atuais é inspirador. A pequena comunidade permite mais facilmente a experiência de Jesus Cristo vivo, na fraternidade, na multiplicação de seu Corpo; dimensão essencial para sustentar a esperança do Reino.







Fonte: FC edição 957- setembro 2015
Postado por: Família Cristã




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