O outro na margem do rio

Data de publicação: 01/11/2017

Por Osnilda Lima, fsp
              


No olhar que alcança a outra margem, o barco torna-se para a família Vieira muito mais que um transporte, representa o cotidiano da população ribeirinha nos igarapés e rios da vasta Amazônia
 
Era o terceiro dia, do banco da praça da matriz, a única da cidade, onde as crianças em algazarra se encontram todos os dias à tardinha para brincar, podia-se observar a movimentação naquele barco atracado no pequeno trapiche, neste caso, uma singela ponte de madeira que entra alguns metros na transição entre a terra firme e o rio alcançando o convés da embarcação que não pode se aproximar das margens, sob pena de encalhar no lodaçal.
Na hora das refeições eles lá se reuniam. Quando a noite chegava, uma pequena lamparina dava visibilidade ao barco da família Vieira, em que o casal Olávio Lisboa e Maria Neide com os filhos, Mailaine 15 anos, Jairo, 12, e Raimundo, 7, se encontravam. Os filhos mais velhos migraram para Macapá (AP), em busca de oportunidades.
Atracada, a embarcação da família permaneceu por cinco dias na Baía de Melgaço. Eles estavam participando de um encontro de formação para lideranças, promovido pela Paróquia São Miguel Arcanjo, em Melgaço (PA).  São moradores da Comunidade Perpétuo Socorro, que fica à margem do Rio Anapu, cerca de quatro horas da cidade. Anapu tem origem na língua tupi: anã, que significa “forte, grosso” e pu, que quer dizer “ruído forte”. Possivelmente em referência ao barulho produzido pelo volume da água do caudaloso rio.
Com a fala mansa, tom de voz baixo e o sorriso tímido, Olávio e Neide nos receberam na embarcação, de forma descontraída, ao som natural do suave canto de grilos, como um coro. “O barco é tudo para nós. É também uma morada, onde posso estar com minha família, levar os amigos, os irmãos da comunidade, socorrer os doentes e transportar mercadoria”, conta o “capitão” do barco, conhecido na comunidade como Lavinho. Ele revela que, depois de construir a casa, seu investimento foi o barco. “Um morador ribeirinho não tem como se deslocar se não possuir um barquinho”, diz. Ele calcula que já investiu aproximadamente 12 mil reais na fabricação da embarcação, que foi sob encomenda. O valor veio, quase todo, da produção artesanal de farinha de mandioca. “Pensei no tamanho do barco, para que coubesse a família toda e ainda tivesse espaço para os vizinhos que não têm transporte próprio”, garante.
Neide se encarregou de mostrar as dependências do barco. Destacou que tiveram a preocupação em instalar ganchos para as redes de cada um da família. Com orgulho mostrou a pequena cozinha, a despensa, com pregos para pendurar panelas e copos, a sipopa, parte detrás do barco, e o banheiro. Todo falante, chegou Raimundo, o caçula, perguntando se eu sabia nadar, e andar sozinha de biquita. Respondi que não sabia nadar, e que também não sabia o que era biquita. Neide se antecipou e explicou que biquita é uma pequena embarcação também chamada de casquinho, uma das primeiras que uma criança aprende a se locomover no rio. Segundo Neide, o casquinho é utilizado na pesca do camarão e do peixe, mas também é muito usado no transporte de passageiros para embarcações de maior porte e afastadas do cais.
Em meio à conversa, chega Mailaine com as amigas, e, no toldo do barco, sentam-se para conversar. Os amigos da família se aproximam e o barco, entre tantos outros atracados na Baía de Melgaço, no trapiche que pertence à paróquia, fica povoado.
 
Entre rios e florestas − Melgaço está localizada a 290 quilômetros, em linha reta da capital Belém (PA), no arquipélago do Marajó.  O acesso à cidade é somente fluvial ou aéreo. Partindo da capital do estado, aproximadamente 30 minutos de helicóptero, 8 horas de lancha e 16 horas de navio, este último o transporte mais usado pela população.
O município possui inúmeras ilhas com praias de água doce banhadas pelos rios Amazonas, Tajapuru, Laguna, Anapu, dentre outros em toda a sua extensão rural e urbana. A Baía de Melgaço, na região urbana, se destaca.
Em sua jurisdição está a Floresta Nacional de Caxiuanã, a mais antiga da Amazônia Legal, onde se fundou a Reserva Nacional de Caxiuanã em 1961, sendo instalados a Estação Científica Ferreira Pena e o Museu de história Emílio Goeldi, inaugurado em 1993 com o intuito de apoiar pesquisas regionais de interesse nacional e internacional, em decorrência da grande variedade de espécimes da fauna e flora amazônicas de interesse social, científico e cultural. Devido a isso, o município de Melgaço possui parte de sua área enquadrada como unidade de conservação de uso sustentável pela Reserva Extrativista Gurupá-Melgaço e pela Floresta Nacional de Caxiuanã.
Segundo informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a origem histórica de Melgaço se dá com a fundação da aldeia de Varycuru, também chamada Guarycuru e Arycuru. Fundada pelo Padre Antônio Vieira com os índios Nheengaíba, em1653.
Após a expulsão dos Jesuítas do domínio português, em 1758, a então aldeia de Arycuru foi elevada à categoria de Vila com o nome de Melgaço. Até então, a localidade já tinha se constituído em Freguesia, sob a invocação de São Miguel. Entretanto, com a nova divisão da Província do Pará, em termos e comarcas, em 1833, a Vila de Melgaço foi extinta, sendo restaurada somente em 1856. Com essa condição, entrou para o regime republicano. Mais tarde, em 1936, Melgaço novamente foi extinto e o seu território foi anexado ao município de Portel. Com a expansão da produção da borracha, da seringa, do leite da maçaranduba e outras extrações vegetais, a localidade prosperou, e, em 1961, tornou-se unidade autônoma. O município possui uma área de aproximadamente 6.774 quilômetros quadrados e uma população estimada, em 2010, de 24.808 habitantes, conforme dados do IBGE.




Fonte: FC edição 945- setembroo 2014
Postado por: Família Cristã




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