A exclusão não é natural

Data de publicação: 03/11/2017

Por José de Almeida Amaral Júnior

Corrupção, desvios de recursos e abusos de poder estão na ordem do dia

O Grito dos Excluídos 2017, mobilização que aconteceu no País e uniu organizações religiosas, movimentos populares e pastorais sociais, destacou neste seu 23º ano de existência o lema “Por direitos e democracia, a luta é todo dia”. E ele se desenvolveu em um dos piores momentos na história de nossa turbulenta República. Onde a cidadania não tem vez, solapada que é pelos constantes golpes de Estado e violência social.
Frei Olávio Dotto, representante da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Social Transformadora, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), quando abriu os trabalhos para esta edição, enfatizou que é preciso dar visibilidade para “o rosto da exclusão e para o sistema que gera a exclusão”. E não somente no Sete de Setembro. É urgente “irmos para as ruas, mobilizar as rodas de conversa, debater as situações que geram a exclusão diariamente”. Neste momento, o Brasil vivencia uma grande crise política, econômica, social e moral.
A taxa de desemprego atinge 12,8%, apontando a existência de 13 milhões de pessoas sem trabalho no primeiro semestre, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Houve recuo em aproximadamente 1% nessa taxa. Mas, deu-se em especial pela elevação dos trabalhos informais, que são precários, não garantindo direitos. O indicador de investimentos acumula queda de 4,7% ante 2016, segundo indicador Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), de Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF). Há incertezas à vista dos capitalistas pairando para o futuro. Isto, ainda que Michel Temer oferte privatizações de estatais, flexibilizações de leis trabalhistas e propicie perdões e abatimentos de dívidas a grupos específicos. Mesmo assim, o sentimento é de desconfiança entre os que patrocinaram o impeachment. E, para o povo, o governo é apoiado por meros 4% (Pesquisa Vox Populi/agosto). Insatisfação geral.

Acusações recíprocas
– Corrupção, desvios de recursos e abusos de poder estão na ordem do dia. Em meio aos julgamentos midiáticos, expostos à opinião pública diuturnamente, vemos autoridades vaidosas que deveriam ser discretas se insultando e empresários mostrando as garras. Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal, disse que o procurador-geral Rodrigo Janot é “delinquente e chantagista” e o acordo que fez para delação com Joesley Batista da JBS foi uma “tragédia”. Joesley afirmou que Temer é “ladrão” em áudios reveladores. Temer, por sua vez, disse que Joesley é “criminoso”. Janot afirmou que Gilmar Mendes é “decrépito moral” e tem “disenteria verbal”.
Entre outras coisas. Joaquim Barbosa, ex-ministro do Supremo, sintetizou: “O Brasil foi sequestrado por um bando de políticos inescrupulosos que reduziram as instituições a frangalhos” (Valor Econômico, 9/2017). Mas, dá para se admirar? Relembro Emílio Odebrecht, depondo em Brasília (DF), incomodado com a mídia surpresa com os esquemas governos-empresas. Sentenciou: “Essa imprensa sabia de tudo há 30 anos e agora fica nessa demagogia”. Geddel Vieira Lima (PMDB/BA) é mais uma prova promíscua. Hoje réu por obstrução de Justiça, foi pego na Semana da Pátria com 51 milhões de reais em espécie, dentro de apartamento em Salvador (BA). Foi necessário sete máquinas para contar o dinheiro.
 O Ministério Público Federal em julho havia dito que ele era “criminoso em série”. Sujeito que foi ministro mais de uma vez e dirigiu instituições públicas em governos diferentes. Fica uma questão: quanto, então, já passou pelas mãos de Geddel em esquemas além destes espantosos 51 milhões de reais? Para pensar: cortam-se recursos de educação e saúde porque há crise fiscal. Como afirmou frei Dotto, é preciso ir às ruas em peso e manter permanentemente o grito contra a exclusão, porque ela é escandalosamente criminosa e não um fato natural.




Fonte: FC Edição Nº982, Outubro 2017
Postado por: Família Cristã




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