O sentido pascal da vida

Data de publicação: 06/11/2017

Por Frei Luiz S. Turra, ofm cap. * 


O Sacramento da Penitência será sempre mais libertador, quanto mais estiver conectado com o projeto global da vida que clama por um processo de conversão, adequação ao Evangelho

O Sacramento da Penitência, ou Confissão, geralmente é visto e vivido como um ato momentâneo e, às vezes, sentido como humilhante. Faz parte do sacramento o momento ritual, o ambiente propício, o rito e o ministro da reconciliação. Porém, este sacramento será sempre mais libertador, quanto mais estiver conectado com o projeto global da vida. Este projeto clama por um processo de conversão, isto é: uma adequação constante ao Evangelho.
Não é a lista de pecados, que eu elaboro para o momento ritual, a melhor prática que qualifica o meu viver cristão. Pelo aprendizado da leitura pascal da vida, vou me educando para torná-la um projeto de esperança. Num passado recente, acentuava-se muito nas pregações, retiros e mesmo nos processos de formação cristã a prática do exame diário de consciência.
Em geral, o exame de consciência era recomendado como uma tarefa de fim de dia. Não negamos  nem questionamos seu valor. Porém, costumava-se insistir na necessidade de prestar atenção aos erros cometidos e transgressões das leis. Era lógico que, deste procedimento exercitado, adviesse mais o medo da condenação do que a alegria de poder vislumbrar horizontes de ressurreição e vida nova.

Leitura pascal da vida − Com o foco da fé e da vida em Cristo, o Crucificado Ressuscitado, podemos exercitar, diariamente, a leitura pascal da vida. Com esta prática constante, torna-se favorável o caminho de conversão, mais motivado pelo amor do que pelo temor, mais animado pela esperança do que pela rigidez da lei. A dinâmica pascal da vida faz parte fundamental de nossa proclamação da fé cristã. A encarnação pessoal do filho de Deus afeta a todos os homens e se completa em toda a história humana.
Nesta leitura pascal da vida, vamos olhando de frente, a partir de Cristo Crucificado Ressuscitado, nossas mortes e nossas ressurreições, nossos erros e nossos acertos, nossas escravidões e nossas libertações. Cada dia morremos um pouco, mas também vamos ressuscitando. Nesta perspectiva pascal, nosso viver não caminha para a morte, ou para a ruína, mas para a plenitude. “Por isso, não desanimamos. Mesmo se o nosso físico vai se desgastando, o nosso interior vai-se renovando dia a dia” (2Cor 4,16).
Nosso viver está envolvido na solidariedade do “Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20). Ele se fez solidário a tudo o que fazem e ao que são os humanos. Sem ser pessoalmente pecador (cf.Hb 4,15), o Filho de Deus, feito homem, existiu em nossa “carne de pecado”. Ele se submeteu a todas as consequências dolorosas do pecado do mundo até a morte de cruz. “Aquele que não cometeu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nos tornássemos justiça de Deus” (2Cor 5,21).
A leitura pascal da vida nos faz perceber que nossos atos bons ou ruins, nossas atitudes consistentes ou inconsistentes, nossas enfermidades ou nossas vidas saudáveis, não estão soltos no vazio. Toda a nossa existência está no coração do Mistério Pascal. É diferente chegar ao fim do dia e contemplar o que se passou conosco, fazendo uma leitura pascal do que vivemos, mais do que ficar pisando o barro de nossas fraquezas para enlamear nossas esperanças.

Otimismo com fundamento − “Deus, rico em misericórdia, pelo imenso amor com que nos amou, quando ainda estávamos mortos por causa dos nossos pecados, deu-nos a vida com Cristo. Ele nos ressuscitou com Cristo” (Ef 2,4-6). Nesta força incontida de vida inaugurada pelo Crucificado Ressuscitado, confirma-se que o coração do mundo já está mudado. Em Cristo, tudo está recriado. Toda a humanidade, ou seja, toda a criação, “espera ser libertada da escravidão da corrupção, em vista da liberdade que é a glória dos filhos de Deus” (Rm 8,21).
No coração de todas as realidades humanas e terrestres, está para o futuro Jesus Ressuscitado, novo começo, novo nascimento, nova criação para a eternidade. Nosso otimismo cristão funda-se em Cristo, que potencializa nossas humanas possibilidades administradas com fé.

Conclusão − A prática do Sacramento da Penitência, ou Confissão, necessita estar conectada com o dinamismo pascal da vida. Caso contrário, corremos o perigo de nos fechar em nossas culpas e perder o ritmo de vida em direção à sanidade e à santidade. Como Sacramento da Cura, confirmamos a importância de resgatá-lo, como uma das mais preciosas contribuições da Igreja para as pessoas feridas e deprimidas de nosso tempo. Para humanizar o mundo e devolver a esperança em Cristo da humanidade atual, o argumento determinante se fundamenta no Mistério Pascal.

Perguntas
1.    Como podemos resgatar a verdade libertadora do Sacramento da Penitência, ou Confissão?
2.    Em que se baseia o exercício da leitura pascal da vida?
3.    Como tornar o Sacramento da Penitência, ou Confissão, o Sacramento da Cura?





Fonte: FC edição 948- dezembro 2014
Postado por: Família Cristã




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