Irmão dos anjos

Data de publicação: 08/11/2017

Por Maria Inês Carniato, fsp


Morto em combate há 70 anos, o escritor e oficial piloto da 2ª Guerra Mundial Antoine de Saint-Exupéry teve em comum com os anjos o dom de voar na companhia de Deus  

É simples ter os anjos por irmãos! Basta voar e conhecer a terra e o céu. Existiu um único aviador que do céu viu a terra e da terra viu os Céus de Deus. Foi o escritor francês Antoine-Marie-Roger de Saint-Exupéry, autor de O Pequeno Príncipe. No livro, o principezinho e o autor conversam junto ao avião avariado, no deserto do Saara:
“ – Que coisa é aquela?
 – Não é uma coisa. Aquilo voa. É um avião. O meu avião.
Eu estava orgulhoso de lhe comunicar que eu voava...” (III).

Levado por asas − Irmão dos anjos por parte das asas e da comunicação com Deus, o poeta aviador já vive nos Céus, para onde voou 70 anos atrás, no dia 31 de julho de 1944, quando tinha 43 anos de idade e 6 mil e 500 horas de pilotagem sobre oceanos e desertos do mundo. Quando o avião que ele pilotava foi alvejado por um caça alemão, na costa da Itália, durante a 2ª Guerra Mundial, Exupéry mergulhou para sempre onde o infinito azul do céu encontra o mar. Foi-se em silêncio, talvez sentindo aquilo que havia escrito: “O espaço do espírito, o meio onde posso abrir as asas, é o silêncio” (Um sentido para a vida, p. 85). Ninguém ouviu suas últimas palavras. Disse-as apenas a Deus, que, desde muito tempo, era o companheiro de suas longas jornadas solitárias. Talvez naquela hora ele tenha repetido o que escrevera: “Quando eu morrer, Senhor, eu chegarei perto de ti porque trabalhei em teu nome. Construí este círio. Pertence-te acendê-lo. Construí este templo. Cabe-te habitá-lo em silêncio. Construí um homem segundo as tuas divinas linhas de força para que ele caminhe, se vires nisso a tua glória” (Cidadela, p. 263).
A glória de ser um dos primeiros a sobrevoar o oceano de um continente a outro e de ver seus livros baterem asas por dezenas de idiomas do mundo todo não distanciou o poeta alado da simplicidade dos anjos. Só aprofundou-lhe o sentido de humanidade, espiritualidade, contemplação, fé e silêncio, a ponto de o amigo Renné de Saussine escrever: “Seus discursos, quando Antoine se dignava a falar, acordavam ecos” (Cartas do Pequeno Príncipe, p. 155). E, referindo-se ao silêncio do amigo, Saussine completou: “Ele falava com seus grandes olhos negros, cheios de integridade” (Cartas do Pequeno Príncipe, p. 157).
Entre bombas e estrelas − Saint-Exupéry nasceu em Lyon, na França, em 29 de junho de 1900. Com 22 anos, obteve o brevê de piloto, uma profissão nova e perigosa, porque as aeronaves eram pequenas e frágeis, facilmente caíam, dizimando a vida dos jovens aviadores. Em 1926,  foi nomeado chefe da rota Atlântico Sul – Buenos Aires-Paris da companhia aérea francesa Latécoère, a primeira linha de correio aéreo do mundo. Viveu na Argentina e passou várias vezes pelo Brasil, em inspeção às escalas do correio.
Pesquisadores da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) reuniram documentos e memórias de vizinhos do antigo campo de pouso, próximo de Florianópolis, sobre passagens do comandante Antoine de Saint-Exupéry em 1930 e 1931. Frequentador do clube de elite da cidade e amante de música e dança, ele foi também amigo dos pescadores, que o chamavam Zé Perri.
 O irmão dos anjos cresceu e viveu afetado por riscos de morte que lhe despertaram a paixão poética pela vida, pela natureza, pelo ser humano e por Deus. Com 14 anos de idade, viu a França entrar na 1ª Guerra Mundial (1914-1918); em 1937, presenciou a Guerra Civil Espanhola, ao voar na rota de correio aéreo Toulouse – Senegal; em 1939, obteve a patente de capitão da Força Aérea Francesa e lutou heroicamente na 2ª Guerra Mundial, mergulhando na morte entre as asas de um avião de combate.
Amante das estrelas, testemunhas do silêncio contemplativo das viagens noturnas, Exupéry escreveu: “As estrelas nos cultivam o coração. São apelos a uma migração maravilhosa” (Cidadela, p. 387).  Foi em companhia delas que fluiu, de seu coração, a obra literária permeada de humanismo, espiritualidade e oração. Enquanto trabalhou no correio Toulouse – Senegal, ele escreveu o primeiro livro, Correio Sul, no qual mostrou o drama da morte de pilotos pioneiros na aventura da aviação. O livro começa com a frase: “Um céu puro como água banhava e revelava as estrelas” (p. 7). 
O Pequeno Príncipe, que, traduzido em mais de 270 línguas, imortalizou Exupéry, traz o último diálogo do principezinho com o autor, no deserto:  
“ – O que é importante a gente não vê.
– A gente não vê.
– Se tu amas uma flor que se acha numa estrela, é doce, de noite, olhar o céu. Todas as estrelas estão floridas.
– Todas as estrelas estão floridas.
– Onde eu moro é muito pequeno, para que eu possa te mostrar. É melhor assim. Minha estrela será então qualquer uma das estrelas. Gostarás de olhar todas elas. Serão, todas, tuas amigas. Será como se eu te houvesse dado, em vez de estrelas, montões de guizos que riem.
Sei que ele voltou ao seu planeta e gosto de, à noite, escutar, nas estrelas, 500 milhões de guizos” (XXVII).

Voo espiritual − Sensível ao sentido profundo da existência, Exupéry traduziu a fé em poemas de paz, silêncio, amor a Deus e oração. Tendo uma profissão invejável e, sabendo-se admirado como escritor, preferiu viver em silêncio e ansiar por amigos que, como os anjos, compreendessem o seu voo espiritual. Os livros revelam a experiência deste cristão autêntico.
Construir a paz é conseguir que Deus nos empreste seu manto de pastor para abrigar os homens (Um sentido para a vida, p. 67).
O tesouro interior se transmite não por palavras, mas pela filiação no amor. E, de amor em amor, os homens vão legando uns aos outros essa herança (Um sentido para a vida, p. 81).
Eu não disponho do amor como uma reserva. O amor é, em primeiro lugar, exercício do coração (Um sentido para a vida, p. 106).
Silêncio do coração. Silêncio dos sentidos. Silêncio das palavras interiores, porque é bom que tu encontres Deus, que é silêncio desde a eternidade, quando tudo disse e tudo se fez (Um sentido para a vida, p. 114).
Há verdades que são evidentes ainda que não se possam formular (Piloto de guerra, p. 137).
O sabor do pão partilhado não tem igual!  Acontece com o pão o mesmo que acontece com o azeite das candeias, transforma-se em luz (Piloto de guerra, p. 191).
É insensato esperar respostas de Deus se ele simplesmente te recebe, apagando com a mão as tuas perguntas (Um sentido para a vida, p. 114).
Silêncio, porto do navio. Silêncio em Deus, porto de todos os navios (Cidadela, p. 115).
Só aprendes a conhecer Deus no exercício de orações que não obtém resposta (Cidadela, p. 131).
Não passam de vazios os seres que não são janelas ou frestas para Deus (Cidadela, p. 137).
O amor verdadeiro começa onde não se espera mais nada em troca (Cidadela, p. 138).
Só no caminho de Deus existe passagem de ti para o outro (Cidadela, p. 170).
Meus companheiros de verdade são aqueles que se prostram comigo na oração, confundidos na mesma medida, grãos da mesma espiga, em vista do mesmo pão (Cidadela, p. 170).
Aprender a orar é aprender o silêncio (Cidadela, p. 171).
O amor é propriamente exercício da oração e a oração, exercício do silêncio (Cidadela, p. 171).
Grande é a oração à qual só responde o silêncio. Basta que Deus exista (Cidadela, p. 210).
Senhor, dá-me a força do amor! O amor é cajado na ascensão de uma montanha, que faz de mim um pastor pronto a guiar (Cidadela, p. 356).
Envolva-te a paz da árvore e a vida tenha para ti o seu verdadeiro sentido: elevar-te de andar em andar, até a glória de Deus (Cidadela, p. 363).
Quem ama contempla e se comunica no silêncio, com o seu Deus. Como o ramo encontra a raiz, o coração encontra a oração (Cidadela, p. 380).

Para ler
Obras de Antoine de Saint-Exupéry em português
Correio Sul. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.
Piloto de guerra. São Paulo: José Olympio Editora, 1983.
O Pequeno Príncipe – São Paulo: Editora Agir, 1952.
Terra dos homens. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1982.
Voo noturno, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1982.

Obras póstumas do autor
Um sentido para a vida, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1982.
Cidadela, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1982.
Cartas do Pequeno Príncipe. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1986.






Fonte: FC edição 943- julho 2014
Postado por: Família Cristã




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