Jovem aos 100 anos

Data de publicação: 08/11/2017

Por Osnilda Lima, fsp


Angelo Spricigo conta sua história, o tempo de menino, o amor à família, a fé em Deus, o cultivo das amizades e a dedicação por máquinas de costura

Era início de noite, fazia frio. Lá estava ele, Angelo Spricigo, com seus 100 anos, aconchegado no sofá, na sala de estar, ao lado da filha, Eni Spricigo Giotto, 76 anos. Com um sorriso generoso e olhar vibrante, recebe a equipe da Revista Família Cristã para a entrevista e para conhecer o Museu Angelo Spricigo. É um museu temático de máquinas de costura constituído por diversas marcas, modelos e nacionalidades, na cidade de Concórdia (SC), a 470 quilômetros da capital catarinense, Florianópolis.
Em 2014 o museu recebeu o troféu de maior coleção de máquinas de costura do Brasil do RankBrasil, Recorde Brasileiros. Também pudera, hoje o acervo conta com mais de 1.300 máquinas, todas catalogadas e organizadas por marca no porão da residência, que tornou-se o museu. O espaço lembra a arquitetura colonial italiana em que o porão semienterrado tinha uso múltiplo, servindo como depósito, cantina e oficina, mas hoje, na casa de Angelo, recebe preciosidades que são as máquinas.
O neto, Valdecir Lucio Giotto, 51 anos, é o responsável pelo museu. Ele conta que chegam máquinas de todo o Brasil. “Antigamente, um dos primeiros presentes que a moça ganhava ao se casar era a máquina de costura. Hoje as pessoas ligam para oferecer a máquina e junto vem uma bonita história familiar. ‘Ah, esta máquina era da minha avó, não queremos nos desfazer dela de qualquer forma, queremos oferecer ao museu, pois sabemos que aí vai ficar bem cuidada’”, conta Valdecir, mostrando cada coleção de máquinas com o mesmo entusiasmo do avô.

O museu – Tudo começou quando no ano de 1997, a esposa de Angelo, Maria de Oliveira Spricigo, com quem foi casado por 62 anos e teve nove filhos, veio a falecer. Angelo, com seus à época 82 anos, viúvo, procurou um sentido para a vida sem a presença de Maria. A esposa tinha uma máquina de costura da marca Pfaff, e ele resolveu restaurá-la. “Desmontou a máquina, limpou e a fez funcionar. Com o tempo as pessoas descobriram que ele estava restaurando máquinas, começaram as doações. O vovô estabeleceu um ritual, recebia as máquinas, de várias marcas, algumas em estado bastante crítico, e fazia com que funcionassem, conhecia bem cada peça”, conta o neto Valdecir. Angelo trabalhou até quando pôde no cuidado com as máquinas e hoje faz questão de acompanhar o museu, a visita dos turistas e a chegada de novas máquinas, por meio de doação ou aquisição.
E o segredo da longevidade? Ele fala sem hesitar: “Nunca me excedi em nada, sempre levei uma vida normal, cultivei amigos, gosto de uma boa música, rezo e sempre que pude ajudei as pessoas. São três coisas que precisamos na vida: Deus, a família e os amigos”, diz com um sorriso quase que segredando na afirmativa. Ah, e ele lembra que nunca na vida tirou férias nem jamais sentiu falta.

Sempre em busca – Angelo Spricigo nasceu em Urussanga, a 185 quilômetros da capital catarinense  no dia 24 de abril de 1915, oitavo filho dos imigrantes italianos Giogio e Joana Spricigo. Passou infância e adolescência com dificuldades para estudar, ajudando os pais no trabalho da casa e na lavoura.
A família Spricigo mudou-se para a sede do distrito de Nova Veneza, município de Criciúma. Com 19 anos, em 1934, conheceu Maria de Oliveira, filha de Francisca Alegre e Julio de Oliveira, residentes em Tubarão, onde Maria nasceu em 20 de julho de 1912. Maria era professora no curso primário e lecionava em Nova Veneza. Não demorou e no dia 29 de julho de 1935 se casaram na Igreja e no cartório do Registro Civil.
Angelo, que até então trabalhava na agricultura, seguiu a profissão de sapateiro e abriu uma pequena sapataria. No ano de 1936, Angelo e Maria tiveram o primeiro filho. Nos dois anos seguintes, nasceram mais duas filhas. Em 1941, Maria, com dificuldade de trabalhar e cuidar dos filhos, deixou de lecionar. Foi quando a família mudou para Sangão, a 9 quilômetros de Criciúma,  nessa localidade nasceram três filhos.
No ano de 1945, a família mudou-se para Concórdia. Angelo continuou na profissão de sapateiro. Em Concórdia nasceram mais três filhos que totalizaram nove. Em 1951, Angelo Spricigo deixou de trabalhar como sapateiro e passou para a construção civil, começou a trabalhar como pedreiro. Em 1956, construiu o primeiro edifício sob sua responsabilidade.
Em 1965, solicitado pelo vigário frei Câncio Berri e pelo Conselho Paroquial da Igreja Nossa Senhora do Rosário, construiu o Santuário de Nossa Senhora da Salete, no bairro Salete, em Concórdia, sob a orientação do autor do projeto, frei Bruno Funks. Na construção civil, Angelo fez história em Concórdia trabalhando como mestre de obras e ao mesmo tempo carpinteiro, armador de ferragens e quando era preciso executava serviços de servente de pedreiro ou ajudante de obra.
No ano de 1972, Angelo Spricigo começou a ter problemas sérios na visão. Foi aconselhado por especialistas a deixar o trabalho. E não podendo fazer o de que mais gostava: trabalhar, comprou um violão e passou a se encontrar com os amigos na praça da cidade. Passavam o tempo relembrando canções que aprendera com os pais.
Pois desde muito jovem se dedicava à musica. Violino, teclado, órgão e, principalmente, violão são instrumentos tocados por Angelo. Sempre gostou muito de cantar. E recomenda: “Cantar faz bem para a saúde”, sussurando quase timidamente a canção religiosa Kyrie Eleison,“Senhor, tende piedade”, que ensaiava como regente no coral da Matriz”.
O neto, Valdecir, e a filha, Eni, lembram que Angelo deu muita atenção à família. Acompanhou e incentivou o estudo dos filhos. Angelo e Maria, católicos praticantes, participavam assiduamente da Igreja Católica.
Angelo diz se preparar para celebrar seus 101 anos em 2016. Com sorriso ele, agradecendo a visita, pergunta se a equipe gostou do museu. E afirma continuar disposto, alegre, cantando e enfrentando a vida conforme suas condições permitem hoje. “Eu me sinto um homem de espírito jovem”, finaliza.





Fonte: FC edição 958- outubro 2015
Postado por: Família Cristã




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