Mulheres aprisionadas

Data de publicação: 13/11/2017


Por Pablo Villarrubia Mauso

No campo de concentração de mulheres em Ravensbrück, cerca de 132 mil foram aprisionadas junto com centenas de crianças, estima-se que 92 mil foram vítimas de fome e execuções

Durante a Segunda Guerra Mundial, os alemães criaram um campo de concentração destinado às mulheres consideradas inimigas do regime nazista. Estava situado a somente 100 quilômetros de Berlim em uma zona pantanosa e insalubre perto da pequena cidade de Fürstenberg. Em função do vento gelado do inverno e do isolamento no campo, a região era conhecida como “a pequena Sibéria”. Cerca de 130 mil mulheres e crianças de 30 países – além de 20 mil homens – foram deportadas a esse campo entre 1939 e 1945.
A Revista Família Cristã esteve em Ravensbrück no dia 19 de abril de 2015, aniversário da sua liberação – pelo Exército Soviético–, para conhecer de perto aquele antro de terror onde quase 30 mil pessoas perderam a vida entre seus inexpugnáveis muros e cercas de arame farpado. O principal objetivo dos dirigentes nazistas era aproveitar a mão de obra escrava das mulheres para trabalhar em um cinturão de indústrias ao redor do campo. Entre essa empresa estava um nome tão conhecido como o da Siemens, que fabricava componentes elétricos para as “bombas voadoras” ou foguetes V-2, planificados pelo engenheiro nazista Werner Von Braun.
“Milhares de mulheres foram assassinadas pelas forças repressivas e militares da SS nazista, criada por Heinrich Himmler. Outras morreram em consequência da fome, doenças e experimentos médicos a que foram submetidas sem nenhuma anestesia. Além disso, os nazistas instalaram câmaras de gás para matar essas mulheres desprotegidas e logo incinerá-las nos fornos crematórios adjuntos”, diz Montserrat Llor Serra, autora do livro Vivos no Averno Nazi.
Para a autora espanhola – que entrevistou vários sobreviventes do campo de Ravensbrück –, as deportadas, na maioria, era ciganas, testemunhas de Jeová, judias, prisioneiras comuns procedentes de várias prisões ou qualquer outra mulher que tivesse manifestado alguma oposição ao regime nazista de Adolf Hitler. Isto é, as chamadas prisioneiras políticas, ativistas dos movimentos de Resistência em seus respectivos países, entre elas algumas religiosas católicas.
A francesa Élise Rivet ou madre Maria Elizabeth da Eucaristia (1890-1945) foi uma das religiosas católicas mais conhecidas dentro do campo por ter criado uma rede interna de solidariedade entre as presas. Foi acusada pelos alemães de formar parte da Resistência francesa, ajudando a esconder judeus e refugiados dos nazistas, assim como armas e munições da Resistência em seu convento, o de Notre-Dame da Compaixão, na cidade de Lyon, onde era madre superiora. Obrigada a realizar trabalhos forçados, Élise acabou morrendo asfixiada em uma câmara de gás no dia 30 de março de 1945, pouco antes da liberação do campo.
Houve várias religiosas polonesas que morreram em Ravensbrück e também alguns laicos dessa nacionalidade, como Natalia Tulasiewicz, agente pastoral assassinada na câmara de gás. Ela é uma das 108 mártires da Polônia, beatificada no dia 13 de junho de 1999 pelo papa João Paulo II. Natalia, que exercia o apostolado ilegalmente na Cracóvia, foi presa pela Gestapo (polícia secreta política nazista) e torturada antes de ser levada até o campo de concentração.
“Quem tivesse uma Bíblia dentro do campo seria castigada ou mesmo assassinada por enforcamento. Aquilo era o inferno, a alimentação era escassa, o frio insuportável e tínhamos que trabalhar, em muitas ocasiões, mais de 14 horas por dia. No princípio muitas éramos destinadas à difícil tarefa de drenar o pântano que rodeava o campo, com a água gelada até os joelhos e com as mãos cheias de feridas pelo uso de pás e picaretas”, lembra a polonesa Zofia Baranowicz, entrevistada pela Revista Família Cristã em Ravensbrück
Zofia, natural de Varsóvia, chegou de noite a lembra a polonesa Zofia Baranowicz, entrevistada pela Revista Família Cristã em Ravensbrück dentro de um vagão de trem onde se amontoavam outras mulheres.
“A viagem foi terrível. Éramos obrigadas a fazer nossas necessidades lá dentro mesmo, em um balde, e o ar era irrespirável. Quando chegamos, fomos empurradas e esmurradas pelos agentes da SS, que nos esperavam à noite com cães ferozes. Levaram-nos para dentro do campo, onde nos despiram, nos rasparam todos os pelos do corpo e nos despojaram dos poucos bens que trazíamos. Deram-nos um uniforme de riscas azuis, de pano muito fino, incapaz de nos abrigar das inclemências do inverno. Por isso, muitas mulheres morreram congeladas” diz uma das poucas sobreviventes do campo.

Comboios da morte ─ A maioria das mulheres deportadas fala de “trens da morte”, que as transportavam até o campo de Ravensbrück em condições desumanas. Em alguns vagões viajavam até quase cem mulheres e crianças, e algumas chegavam mortas ao destino.
Zofia dedica-se a divulgar suas vivências aos jovens de escolas do 2º grau da Polônia, para que as pessoas “saibam o que realmente aconteceu e para que isso não se repita”. A essa mesma missão se dedica Conchita Ramos, hoje com 90 anos. De nacionalidade espanhola, mas residente na França desde criança, Conchita participou de grupos de resistência contra o nazismo. Foi presa pela Gestapo e chegou ao campo em 1944, quando foi alojada em um barracão onde estavam muitas ciganas.
“Dormíamos em beliches, apertadíssimas. Havia várias crianças e muitos piolhos. As vigilantes dos barracões eram as ‘kapos’, que também eram deportadas como nós, mas que trabalhavam para as mulheres SS em troca de alguns favores. Eram impiedosas: nos batiam, açoitavam e castigavam por qualquer coisa que elas considerassem erradas”, – lembra com amargura esta mulher que chegou a ver como a SS, em três ocasiões, matavam bebês:
“Foi algo horrível e que sempre aparece nos meus pesadelos. Uma vez vi uma criança que devia ter somente três ou quatro anos e corria entre os barracões. Uma aufseherinnen gritou para ela parar, mas o pequeno continuou correndo. Então aquela mulher soltou um cão sobre a criança, que acabou dilacerada pelo animal.” As infames aufseherinnen eram, geralmente, guardiãs da SS e recrutadas entre mulheres da classe média ou baixa da Alemanha ou Áustria.  “Eram voluntárias”, relata a pedagoga francesa Geneviève Bardou, de profissões tão variadas como cabeleireiras ou cobradoras de bondes, por exemplo. Geralmente eram corpulentas, fortes e treinadas para cometer crimes. A supervisora de Ravensbrück, Dorothea Binz, a partir de 1942 ensinava técnicas de tortura às suas discípulas da SS. Foi capturada pelos aliados em 1945 e enforcada em 1947, depois de julgada.
Lili Leignel-Rosemberg tinha somente 11 anos quando foi parar em Ravensbrück, em 1943, junto com sua mãe e outros dois irmãos. Ela foi uma das meninas internadas em um campo anexo, chamado Uckemark, destinado às crianças e algumas adolescentes. “Acabamos transferidos ao campo de Bergen Belsen, onde morreu Anne Frank, e fomos libertadas pelos ingleses. Infelizmente, meu pai não sobreviveu, pois foi fuzilado no campo de Buchenwald”, diz, sem reprimir o choro.

Sabotagem e experimentos ─ Outra espanhola sobrevivente do campo, Neus Català Pallejà, hoje com 100 anos, contou à Revista Família Cristã que costumava sabotar material de guerra. “Éramos obrigadas a trabalhar nas indústrias de armamento nazista. Em uma das fábricas que trabalhei, a de Holleischen, eram feitas balas, dia e noite. Eu e outras companheiras cuspíamos ou punhamos uma gota de óleo misturada com a pólvora. Assim inutilizávamos as balas... Logicamente, se alguma fosse vista fazendo isso era, imediatamente, torturada e assassinada pela SS. De fato, uma amiga minha e a cunhada dela foram mortas, pegas em flagrante sabotando. Foram enforcadas.”
Para a francesa Annette Chalut, de 91 anos, ex-presidente do Comitê Internacional de Ravensbrück, as deportadas eram “apenas um número a mais para os nazistas”. As guardiãs SS chamavam-nas apenas pelo seu número de inscrição e nunca pelo nome: uma forma de anular a personalidade das prisioneiras. Annette auxiliou muitas mulheres doentes em Ravensbrück, pois havia estudado até o primeiro ano de Medicina.
De acordo com ela, uma das situações mais chocantes para as mulheres eram os exames ginecológicos praticados pelas enfermeiras nazistas do campo. “Usavam aparelhos que não eram desinfetados e, além disso, aplicavam injeções para eliminar a menstruação das deportadas. O pior de tudo eram os pseudoexperimentos médicos realizados pelo nefasto dr. Karl Gebhartd, membro da SS. Ele e a sua equipe de autênticos açougueiros. Selecionavam as suas vítimas, as denominadas kaninchen, ou cobaias, que eram submetidas a terríveis sofrimentos e vexações.”
“Estes médicos, que não deveriam ser chamados de doutores, Segundo a ex-deportada holandesa e jornalista Selma Van de Perre –, tentavam realizar transplantes de ossos e músculos entre as moças escolhidas por eles. As extrações eram feitas sem anestesia, e muitas morriam de dor e infecções.
De acordo com Van de Perre, também foram esterilizadas muitas mulheres, especialmente as ciganas, que os alemães consideravam o escalão mais baixo da hierarquia racial. “A intenção era exterminar a raça cigana, que eles odiavam. O mesmo queriam fazer com as mulheres judias”, diz com amargura a ex-deportada holandesa, uma das poucas sobreviventes judias daquele campo e que trabalhou na fábrica da Siemens.
Sob a supervisão do comandante do campo, Fritz Suhren, os médicos Johann Schwarzhuber e Hans Pflaum selecionavam as prisioneiras que eles consideravam inválidas ou “imprestáveis” para exercer qualquer tipo de trabalho produtivo. “Estas mulheres eram levadas para um tipo de caminhão do exército holandês que havia sido modificado pelos alemães. Já dentro, o veículo era hermeticamente fechado, e as prisioneiras eram vítimas de um gás mortal por causa do tubo de escape que estava conectado ao interior. Na verdade, estas infelizes eram vilmente enganadas, pois diziam que seriam transportadas para uma casa de repouso até a sua recuperação”, revela Van de Perre.
Em relação às mulheres grávidas, poucas se salvaram. Nos primeiros anos do campo, os recém-nascidos eram afogados em baldes de água pelas enfermeiras nazistas. As parturientes morriam devido às infecções e más condições dos partos, ou enlouqueciam vendo os seus filhos arrancados de seus braços.
A ativista alemã Olga Benário – companheira do líder comunista brasileiro Luís Carlos Prestes – foi deportada pelo governo de Getúlio Vargas à Alemanha de Hitler. Ela deu à luz em uma prisão a uma menina, Anita Leocádia Prestes. Olga foi levada para Ravensbrück, onde sofreu todo tipo de maltratos até ser internada no campo de extermínio de Bernburg, onde, finalmente, foi assassinada em uma câmara de gás. A sua filha foi uma das poucas crianças – filhas de deportadas – que conseguiu se salvar graças à rede de solidariedade encabeçada pela sua avó.

Superação do trauma  ─ Em meio a tanto sofrimento, alguma esperança surgia já quase no final da existência do campo. No dia 13 de dezembro de 1944, nascia Jean-Claude Passerat. Sua mãe, Helena Palmbach, era uma mulher de 24 anos e não tinha leite para amamentá-la em função da péssima alimentação.
“Foram outras mulheres que me amamentaram. Uma era russa e a outra, cigana. Ambas tinham perdido seus bebês em Ravensbrück. Graças a elas, hoje estou vivo e falando com você. Mamãe também sobreviveu e somente faleceu em 1996, afirma o próprio Jean Claude.
Quase 800 bebês nasceram ao longo da existência do campo. Porém, a partir de 1942, a maioria das gestantes foi obrigada a abortar até antes do oitavo mês de gravidez. Mas, a partir de 1943, os nazistas foram mais permissivos e deixaram que as mães pudessem dar à luz. Foi criado o kinderzimmer, uma espécie de berçário perto do barracão das mulheres doentes. Porém, a maioria morreu de fome e disenteria. Muitos eram mordidos por ratos e morriam. Poucos bebês chegaram com vida no momento da liberação do campo pelos soviéticos. Ao contrário do que se poderia imaginar, muitas mulheres sobreviventes puderam superar o trauma da deportação. Algumas, em pouco tempo, como é o caso de Neus Català.
“Tentei esquecer. Se eu seguisse pensando sempre no que tinha acontecido comigo e com as minhas companheiras, estaria perdida. Quando me reestabeleci fisicamente, comecei a trabalhar. Procurei sempre estar ativa, ocupada, fazendo algo. Não importava o tipo de trabalho que conseguisse. Ao mesmo tempo lutei para ajudar as companheiras que estavam em dificuldade”, nos conta a centenária sobrevivente.
Outra das deportadas entrevistadas pela Revista Família Cristã é Eva Backerová,  judia e eslovena, atual presidente da Amical de Ravensbrück, que viveu a sua infância na clandestinidade desde 1942. Em 1944 foi levada, junto com a mãe e a irmã de três anos, até o campo. O pai foi deportado ao campo de Ebensee, na Áustria, onde acabou morrendo.
“O mais importante foi que, depois de muitos anos em silêncio, muitas de nós começamos a falar sobre nossas experiências em Ravensbrück ou em outros campos. Por isso fundei a associação The Hidden Child. Não podíamos falar devido aos traumas físicos e psicológicos, profundamente arraigados no nosso inconsciente. Hoje nos expressamos abertamente e vamos às escolas, programas de rádio e TV para conscientizar as pessoas. Esta é a nossa missão”, nos diz, orgulhosa, a ex-deportada judia.





Fonte: FC edição 961- janeiro 2016
Postado por: Família Cristã




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