Reações e ações na enfermidade

Data de publicação: 21/11/2017

Por Frei Luiz Turra
 

No sofrimento humano, a religião lança uma luz que nenhuma explicação humana consegue projetar, a luz do sentido e da esperança

Certamente não há como ficarmos indiferentes diante da doença, o sofrimento e a enfermidade. Qualquer aparente indiferença já passa a ser insensibilidade e desumanidade. Aos humanos, nenhum sofrimento é insensível. Enquanto não passa pela dor, o amor não deixa de ser imaturo e infantil. É sempre mais notória a tendência atual e são sempre mais criativas as maneiras artificiais do mundo moderno para acabar com o sofrimento e ocultar a morte. Isso leva a um mundo fictício e a uma mentalidade ilusória, que, em lugar de ajudar, aumenta ainda mais o sofrimento e a dor de quem se vê cercado por limites.

Amadurecer na crise e na dor − Não tratamos aqui dos males que se impõem nos ombros dos outros, especialmente dos indefesos. Esse tipo de artifício dos fariseus é condenado por Cristo: “Amarram fardos pesados e insuportáveis e os põem nos ombros dos outros, mas eles mesmos não querem movê-los, nem sequer com um dedo” (Mt 23,4). A dificuldade é a hora da solidariedade. Trata-se de encarar de forma humana e cristã o sofrimento e a dor, como o crisol que testa e aprofunda o valor das relações humanas. Como é animador quando se recorda alguma dor ou sofrimento passado que resultou no surgimento ou fortalecimento da amizade ou na união de duas vidas!
Assim como a provação no sofrimento já amargurou muitas vidas e deixou tantos revoltados e descrentes, muito mais foram e são as pessoas que se converteram na pior hora de sua existência. Basta lembrar São Francisco de Assis, Santo Inácio de Loyola, São Camilo de Lellis e tantos outros. Estes, provados pela dor e enfermidade, às quais reagiram positivamente, são presença de um alto senso de humanidade e agentes de especial humanização para a história.

Algo a mais que o sofrimento − Sofrer por sofrer não é humano e menos ainda cristão. A enfermidade e o sofrimento são tão duros na vida das pessoas, que, por nós mesmos não temos suficientes recursos para resistir e integrar. Necessitamos contar com o estímulo afetivo dos que nos cercam e do estímulo místico que vem esclarecer o sentido escondido do sofrimento, que nenhuma lógica e nenhuma ciência humana explicam.
Justamente nesse aspecto que a religião vem ajudar a pessoa na sua provada e frágil existência. Não se trata aqui de uma religião “ópio do povo”, que aliena e oprime, mas a religião como argumento de esperança e luta, de empenho e magnanimidade. É evidente que o senso religioso deve impregnar todas as ações da pessoa, mas é na hora mais frágil que a mística se torna mais urgente.
Nesse aparente caos do sofrimento humano, a religião projeta uma luz que nenhuma explicação humana consegue projetar. É a luz do sentido e da esperança que chegam, no caminho da vida, sem a qual tudo tem sabor de absurdo. Como toda a história humana, a Bíblia é uma história de sofrimentos e dores. Ela não induz à fuga, mas encara de frente tudo, como é na sua realidade.

Sofrimento na Bíblia − O Antigo Testamento retrata a realidade do sofrimento. Assim como toda a história humana, a Bíblia é também uma história permeada de sofrimentos e dores. As doenças de toda a espécie estão presentes nesta caminhada do povo de Deus. Por ser Palavra de Deus, a Bíblia não tira o realismo do sofrimento em toda a sua crueza (cf. Jó 13,1ss; Eclo 40,1ss; Ecl 9,1ss).
Há um agravante racional, quando se sabe do sofrimento evocado na Bíblia, pois parece mais incompreensível para o crente do que para o ateu. A visão pessimista e niilista do descrente, de quem considera a vida um caos feito pelo demônio, por si só já eliminou toda a revolta posterior.
A fé não tira a possibilidade de alguém se revoltar pela prosperidade dos ímpios, enquanto os pobres sofrem demais (cf. Jr 12, ; Hab 3,14ss; Sl 89,39ss). A indignação ética faz parte de quem cultiva critérios verdadeiros e sensibilidade religiosa. Acenamos alguns aspectos mais evidentes do Antigo Testamento, quando trata a doença e o sofrimento:

  •     Consequência do pecado e da infidelidade à aliança (cf. Ex 9,ss; Dt 28,21ss);
  • Prova e advertência para a conversão e reconciliação (cf. Tb 12,13-14; Jó 2,4-7);
  • Oportunidade para a aproximação com Deus e disposição ao dom gratuito de Deus. Muitos Salmos expressam esse diálogo sincero e confiante (cf. Sl 6,2-6; 32; 38,2-4; 39; 88; 102 etc)
  •  A prece pela saúde costuma estar ligada a uma confissão dos pecados (cf. Sl 38,2ss; 39,8-9).
  • Mesmo no meio da passageira treva do sofrimento, a Providência logo resplandece em favor dos eleitos (cf. Gn 37; 39ss), mas também é questionada (cf. Jó 4ss; 8; 11... Nenhuma razão convence ou consola quem sofre (cf. Jó 10,1-3; 13; 14,16s).
  •  A doença tem o seu caráter purificador (cf. Jr 9,6; Sl 65,10), seu valor educativo (cf. Dt 8,5; Pr 3,11-12; 2Cr 32,26) e seu alerta para o futuro (cf. Sb 4,14).
  •   Ponto alto e misterioso do Antigo Testamento é a narrativa do Servo de Iahweh (cf. Is 42,1-7; 49,1-9; 50,4-9; 52,13 – 53,12). Tudo o que é dito parece uma descrição antecipada da paixão de Cristo.

Perguntas
1.     Na experiência pessoal e na convivência com as pessoas, quais são as reações mais frequentes diante da doença, do sofrimento e da dor?
2.    Diante das situações de limites humanos, quais são as ações mais dignas e que mais contribuem?
3.    Além do que foi citado do Antigo Testamento, você conhece outros acenos importantes?




Fonte: FC edição 952- abril 2015
Postado por: Família Cristã




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