Sementes do amanhã

Data de publicação: 22/11/2017

Por Victor Laszlo

A agroecologia nasce das sementes crioulas preservadas por gerações a fio pelos pequenos agricultores familiares

Em outro passo rumo à colonização humana em Marte, a Agência Espacial dos Estados Unidos (Nasa), anunciou em janeiro que iniciará pesquisas para o cultivo de batatas peruanas em superfície marciana. Júlio Valdívia, cientista ligado ao projeto, informou que a agência localizou ao sul do Peru, em uma área denominada Pampas de La Joya, um solo árido com características bastante semelhantes às do planeta vermelho e recentemente detectado pela sonda Curiosity. Segundo ele, nove tipos de batatas cultivadas por povos tradicionais andinos em várias altitudes, inclusive a mais de 4 mil metros, foram selecionados para testes por serem tubérculos extremamente resistentes que vingaram na maior parte dos ecossistemas do mundo. “Para a experiência, simularemos um espaço com as condições atmosféricas, temperatura, gravidade e níveis de radiação análogos ao do solo marciano”, adiantou o cientista, transpondo para a realidade uma situação vivida pelo personagem do ator Matt Damon, no filme Perdido em Marte, de Ridley Scott.
A novidade surpreendeu quem esperava uma agricultura interplanetária à base de sementes transgênicas e matrizes de laboratório. Afinal é o que se vê hoje na agricultura de larga escala da Terra. Sorte que parte da ciência está atenta aos saberes tradicionais e sabe que se o agronegócio não erradicou a fome na Terra – temos 800 milhões de famintos – ainda menos faria em Marte. Vide o engodo da Revolução Verde, programa criado nos anos 1960 por países desenvolvidos para aumentar a produção agrícola nos países em desenvolvimento, através do uso intenso da mecanização, insumos industriais (fertilizantes, agrotóxicos e sementes geneticamente modificadas) e redução de custos. Seu resultado foi aumentar a concentração fundiária, a dependência de sementes modificadas, destruir florestas e a cultura de pequenos proprietários, além de contaminar solo e água. E – ao contrário do prometido – aprofundar a fome entre os homens, pois quase toda a produção de alimentos é destinada ao mundo rico – Estados Unidos, Japão e União Europeia.

Guardiões – O fiasco da Revolução Verde fez as mentes conscientes entenderem que o equilíbrio entre produtividade, preservação do meio ambiente e satisfação das necessidades humanas pode estar na agroecologia ou na agricultura vista por uma perspectiva ecológica. Essa nasce obrigatoriamente das sementes crioulas, aquelas que são selecionadas, melhoradas e preservadas gerações a fio pelos agricultores familiares. Ao contrário do que ocorre entre as industrializadas, híbridas ou transgênicas, essas sementes são nativas, se caracterizam pela diversidade, resistência e rusticidade e por preservarem as espécies mais antigas de culturas que muitas vezes correm risco de extinção. Quanto mais variedades de sementes crioulas um agricultor planta, mais opções tem, pois se, algumas culturas resistem às pragas, outras resistem às geadas, além de cada uma ter sua finalidade. Enquanto um tipo de milho é melhor para ser processado como farinha, outro pode ser mais viável para alimentar a criação.
A missão de preservar as sementes crioulas fica por conta dos guardiões que se concentram nas comunidades tradicionais. Só o Rio Grande do Sul, por exemplo, tem pelo menos 80 guardiões, e mais da metade deles está na Associação dos Guardiões das Sementes Crioulas de Ibarama, município localizado no centro do estado gaúcho e considerado a capital nacional da biodiversidade, em função desse trabalho realizado em parceria com a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater). “Em 1998, percebemos que alguns agricultores ainda tinham o hábito de cultivar sementes crioulas e organizamos um grupo para iniciar a produção em escala, resgatando as sementes, multiplicando-as e possibilitando o acesso a outros agricultores. Em 2002, ajudamos a fundar a associação, que despertou o interesse de universidades e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que vêm a Ibarama buscar informações e o melhoramento das sementes. Antes, as portas dessas entidades estavam fechadas para a valorização das sementes”, afirma Giovane Vielmo, chefe do escritório da Emater em Ibarama. 


Tradição – Um dos principais interessados pelas sementes crioulas no mundo acadêmico é o professor Gilberto Bevilaqua, doutor em Ciências pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) e que hoje participa do Projeto gricultores Guardiões de Sementes e Desenvolvimento de Cultivares Crioulas. Segundo ele, a agricultura moderna está extremamente centrada em um pequeno número de culturas de interesse, como arroz, soja, trigo, milho e batata, e a utilização de cultivares crioulas poderia aumentar o número dessas culturas, diversificando os sistemas de produção e garantindo uma maior estabilidade. “Sem falar que as cultivares crioulas possuem um grande potencial para o desenvolvimento de novas cultivares adaptadas a sistemas de produção com baixa utilização de insumos e poupadoras de recursos naturais. O uso de cultivares crioulas seria a estratégia mais acertada para cultivo em áreas marginais de produção, garantindo produção de alimento mesmo sob condições desfavoráveis”, afirma. 
Para Jaci Pereira Prestes, produtor rural e presidente da Associação dos Guardiões das Sementes Crioulas de Ibarama, e que, na sua família, mantém a tradição iniciada há várias gerações de preservar e multiplicar diferentes modalidades de sementes de milho crioulo, seu trabalho exige cuidado e não admite erro. “A pureza de uma semente crioula deve ser rigorosa para evitar qualquer tipo de contaminação ou mistura. Um mínimo de alteração em uma semente já compromete a sua qualidade, principalmente com relação às sementes transgênicas. Para você ter ideia, em toda a nossa região é proibido o cultivo de qualquer milho transgênico para não haver mistura durante a floração. Caso contrário, pode haver alteração da qualidade das nossas sementes, que é o nosso maior patrimônio”, relata o guardião. Em Ibarama, as trocas e vendas de sementes são realizadas somente uma vez por ano, no segundo domingo de agosto, no Ginásio Esportivo João Lazzari, durante o tradicional Dia da Troca de Sementes Crioulas, quando acontece também o Seminário da Agrobiodiversidade Crioula.

Box
Pelas futuras gerações

Para Giovane Vielmo, da Emater, mais do que preservar a agricultura, zelar pelas sementes crioulas garante o futuro da humanidade.

FC – É possível as sementes transgênicas não contaminarem as crioulas?
Giovane Vielmo
– Pode haver convívio desde que, entre agricultores, se respeite o vizinho. Mas hoje a luta é desigual. A norma deveria ser modificada. Além disso há possibilidade de liberação de sementes que fazem as plantas produzirem sementes estéreis. Enquanto o agricultor protege as sementes crioulas, sem necessidade de comprá-las a cada ano, as sementes modificadas os atrelam às transnacionais. Nossa preocupação é com a pequena propriedade. Devido a proximidade de cultivos é quase impossível o isolamento e a coexistência da semente crioula com a modificada pode ser catastrófica. Até quando manteremos a pureza das sementes? A legislação deveria proteger os guardiões.

FC – É importante preservar as sementes crioulas sob um ponto de vista estratégico?
Giovane Vielmo
– É indispensável a conservação dos materiais genéticos das sementes em seus locais de origem para o fortalecimento da agricultura familiar e as diversidades ecológica e sociocultural. Convivemos com uma agricultura exigente em produtividade, mas isso não quer dizer que ela seja a melhor. Muitas sementes crioulas possuem alto potencial produtivo e alto valor nutricional que, com pouco investimento em tecnologia, geram boa renda às famílias. Uma política nacional seria uma forma eficiente de proteger esses materiais e manter essa cultura viva e replicável.

FC – As futuras gerações nos cobrarão se as sementes crioulas desaparecerem?
 Giovane Vielmo
– Certamente. Preservá-las é fundamental às futuras gerações. Além da seleção de sementes que o agricultor realiza, com o cultivo ano após ano, elas se tornam mais resistentes e adaptáveis. Devemos também avaliar o aspecto alimentar, cultural, ambiental, social, econômico, como de pesquisa, e evitar sua erosão, como forma de perpetuação da espécie humana e da agricultura. Até porque o aumento da produção de alimentos, como ocorre hoje, não leva comida para todos. O problema está na distribuição e no desperdício, entre outros fatores que precisam de ações urgentes.
   





Fonte: FC edição 962- fevereiro 2016
Postado por: Família Cristã




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