Uma casa e suas histórias

Data de publicação: 23/11/2017

Por Arthur Maciel, Recife (PE);
Fotos Jesus Carlos Imagemglobal

Casa da Cultura: de presídio a centro de compras, um século e meio de história do Recife
 



Durante mais de um século a imponente construção funcionou como a Casa de Detenção do Recife, principal presídio da cidade e referência do Brasil Império. Abrigou de ladrões a políticos e intelectuais, como o escritor alagoano Graciliano Ramos, autor dos livros Viagens, Pavilhão dos Primários, Colônia Correcional e Casa de Correção, que compõem a obra Memórias do Cárcere. Seria transformada em um museu-escola de arte moderna e de arte popular, uma biblioteca especializada nos mesmos assuntos e uma sala para concertos.
Veio a Quartelada de abril de 1964. Com ela, o banimento das intenções que atentavam pela liberdade e pela formação e desenvolvimento cultural da sociedade. Seguiram-se mais dez anos de serventia às masmorras, à tortura, ao confinamento e ao aniquilamento de indivíduos.
Arrastado amarrado pelo pescoço e preso a um cavalo, Gregório Bezerra foi um dos primeiros presos políticos exibidos nas dependências da Casa de Detenção, suplício que ele conheceria pela primeira vez em 1917.  Exemplo de como tratariam os comunistas e o patrimônio da cidade. Francisco Brennand, escultor e artista plástico, enxergava no monumento um palácio de cultura voltado ao povo. Os que tomaram o poder, viram nele a boa e velha masmorra.
     Projetada pelo engenheiro recifense José Mamede Alves Ferreira, a casa é um monumento inspirado no “panóptico radial” e é uma das maiores construções do século 19. Idealizado por Jeremy Bentham, jurista e filósofo inglês do século 18, o panoptismo consistia numa revolução arquitetônica e social, enquadrando o crime como uma quebra do contrato social. Tratava, então, de reparar o dano, no compromisso de reinserir o indivíduo na sociedade e evitar que ele voltasse a quebrar o contrato social. No plano arquitetônico, teve por modelo construções circulares, com uma torre de vigília que permitia a observação de todos os inquilinos. E foi aplicado, também, em manicômios, escolas e fábricas do século 19.
     É baseado nesses conceitos que José Mamede Alves Ferreira, também responsável pelas obras do Teatro de Santa Isabel, idealiza a Casa de Detenção, que serviria de modelo para estancar as revoluções que assolavam Pernambuco, a exemplo das de 1817 e 1824.  Ao invés de circulares, três pavilhões para os presos e um menor para a administração carcerária, formando uma cruz. No plano arquitetônico, seguiu bem os conceitos de Bentham. No plano social, nunca teve o mesmo sucesso.
     A construção teve início em 28 de janeiro de 1850. Cinco anos depois, com a conclusão do raio norte, das casas de administração e da guarda e da muralha com guaritas e portão de entrada, em 29 de abril de 1855, começaram a chegar os primeiros presos, oriundos da antiga Cadeia da cidade, responsáveis por uma tentativa de fuga em massa. Em 1860 seria concluído o raio sul e em 1867 o raio leste.
     Em 1973, sob o decreto do governador nomeado Eraldo Gueiros, a Casa de Detenção é fechada; e os presos, transferidos para cárceres mais afastados dos olhos gerais do povo. E sua história de torturas e repressão é gradualmente apagada da memória da sociedade. As muralhas inexpugnáveis foram abaixo. Ficaram pórticos e guaritas. O belo pátio externo serve de estacionamento de carros, nem todos de propriedade de visitantes da Casa da Cultura. As celas abrigam artesanato; e os corredores, um pouco de arte. É possível vislumbrar os dois gigantes painéis de Cícero Dias expostos na confluência dos pavilhões. Em 14 de abril de 1976, é reaberta à sociedade como Casa da Cultura de Pernambuco, um cadafalso ao projeto de Brennand para a cidade.
     É em sua essência um mercado de artesanato, sem o charme e a originalidade dos mercados públicos recifenses, visitado principalmente por turistas estrangeiros e muito distante do cotidiano sociocultural da população. Entre o pavor de sua história e o fascínio produzido pela sua arquitetura, vive como um elemento disposto mais aos turistas que a Pernambuco. Ao jovem e ao velho, ao estudante, ao trabalhador, pouco fala, tanto é muda. O artesanato não é outro que o mesmo vendido nos corredores do Mercado de São José, embora um dos mais belos do Brasil. O preço, talvez nem tanto diferente.
Casa da cultura? − Um paço público destinado mais ao turismo que à história. Com algumas atividades inclusivas, como sedes de associações e uma aula outra de cultura popular, para poucos estudantes da rede pública, um ensaio de frevo e maracatu, mas um apagar pleno de história e sociedade. Que independente dos usos de agora, principalmente pelos usos de ontem e que permanecem vivos em outras localidades da cidade, merece ser visto e pensado.
“Muito belo o prédio e certamente muito rico em história, mas longe de casa de cultura. A mim parece um mercado em sua essência”, sugere o argentino Pablo Marasas, em companhia da esposa, Gabriela, ambos pela primeira vez no Recife e na Casa da Cultura. “É um bom passeio, mas onde está a cultura além do artesanato?”, questiona. “Acho esse lugar belíssimo, gosto de tudo que me remete ao passado, e o prédio é muito bem conservado e mantido. O artesanato é lindo, tenho que me conter, porque a vontade é levar tudo e não posso”, enfatiza a paraguaia Miriam Cielo Elizalde, acompanhada da amiga e artista plástica olindense Érika Herzog. É a primeira vez dela na Casa da Cultura e a segunda no Recife, que da primeira vez preferiu um turismo dedicado exclusivamente ao litoral.
Proprietária de uma loja no térreo, Ana Maria Alves é esposa do xilogravurista Severino Borges, da tradicional família de J. Borges, de Bezerros, cidade do agreste de Pernambuco. As primeiras investidas na Casa da Cultura foram em lojas situadas no primeiro andar. “No térreo, sempre se tem mais procura, as lojas do primeiro e do segundo andares têm mais dificuldade de venda, são pouco vistas pelos turistas”, analisa Ana Maria.
Dependências internas, turistas no hall da Casa da Cultura de Pernambuco
Hoje são 168 lojas em funcionamento. Segundo uma das administradoras da Casa da Cultura, Noilde Abreu, apesar de o mercado de artesanato ser o carro-chefe do lugar, há espaço para atividades culturais, como formação de músicos, na orquestra de frevo do maestro Deodato, e do maracatu Várzea do Capibaribe, ambos dedicados ao público em geral e estimulados em escolas das redes públicas de ensino. No último sábado de cada mês, em parceria com a Fundação Itaú Criança, há mediação de histórias infantis.
Preserva também uma cela tal qual o último dia de funcionamento como presídio. Nas paredes, há os tradicionais riscos no reboco, sejam em grafites, oriundos de 1973 ou anos anteriores, sejam em ranhuras. Mas é o que diz a placa assentada do lado de fora da cela de nº 106, mantida como nos tempos dos cárceres em 1973.  Não condiz com a realidade de insalubridade descrita pelos estudiosos. Mesmo assim cansa e enfada, mesmo no olhar, mesmo tão seca, limpa e iluminada.
Pelos corredores, espalham-se as lojas de artesanato, de todo tipo e cores, em três andares servidos de escadas recostadas às paredes que se elevam às dezenas de metros de altura. Elevadores panorâmicos foram instalados para o conforto do turista. É o caminho mais utilizado para as celas dos andares superiores. O subir pelas escadas, mesmo ao olhar, é sufocante. Estreitas e íngremes dão passagem a uma pessoa de cada vez. Feito buracos nas paredes, estão as celas hoje transformadas em lojas e sedes de associações e sindicatos.



Valoração
A Casa da Cultura de Pernambuco, antiga Casa de Detenção do Recife, aos 158 anos de idade, passa hoje por uma crise de valoração. Tem seu valor reconhecido por ser patrimônio tombado, no entanto, para a população não tem valor de equipamento cultural. Possivelmente em virtude do seu atual uso, como mercado de objetos voltado para o turista. A sociedade não se vê representada, e consequentemente não se apropria do local, que se encontra subutilizado e esquecido pelos recifenses (BRENNAND, 2013).

Introdução do estudo apresentado pela arquiteta e urbanista Andréa Gáti (A Casa de Lina e Francisco – Idealização da Casa de Cultura de Pernambuco).
http://www.docomomo.org.br/seminario%2010%20pdfs/OBR_22.pdf





Fonte: FC Edição Nº954, Junho 2015
Postado por: Família Cristã




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