Atitudes desinteressadas

Data de publicação: 04/12/2017

Por Clovis Salgado Gontijo *   


O desinteresse estético e o desinteresse na ética cristã


É no século 18 que a reflexão sobre a experiência do belo se configura como área específica da filosofia: a estética. Esta só poderia se delimitar como disciplina no momento em que a própria experiência em questão fosse reconhecida na sua especificidade. Neste reconhecimento de campo, um conceito em especial se revelou de grande valia: o desinteresse.
Segundo alguns filósofos ingleses do período, tal conceito também se apresenta como característica indispensável do âmbito moral. Uma ação só é dotada de valor no momento em que não é motivada por interesses pessoais. Para a estética, o desinteresse marca significativa diferença entre duas espécies de prazer: um proveniente da contemplação do belo e outro do gosto exclusivamente sensual.
O desinteresse estético − Nesse último, que costuma ser impulsionado pela necessidade de preservação da espécie, o prazer implica a posse do objeto. Como diz Marguerite Yourcenar nas suas Memórias de Adriano, o alimento é degustado quando preferimos a nossa existência à dele. Enquanto isso, podemos nos comover com as harmoniosas formas de um corpo esculpido, sem precisar adquiri-lo nem sequer tocá-lo.
Além de significar indiferença em relação à posse, a atitude estética desinteressada também inclui, para os filósofos Addison e Shaftesbury que a identificaram, a ausência de interesse pela vantagem, utilidade ou finalidade do objeto contemplado. Esse ponto contribui para a distinção entre a experiência do belo e relações instrumentais com o mundo, fundadas no “para que” das coisas. Nesse sentido, o desinteresse estético não nega o interesse na satisfação proporcionada pelo contato com o belo, contudo tal satisfação não ultrapassa o próprio objeto. Assim, do puro prazer de se contemplar uma montanha, por exemplo, não participa a cobiça do ávido minerador diante da riqueza que dela poderia extrair, nem a curiosidade do cientista que se entusiasma ao imaginar sua idade e formação geológica.
Coincidentemente, também na nossa tradição religiosa, o desinteresse foi algumas vezes compreendido como característica da mais elevada atitude cristã, no que se refere às nossas relações tanto com o próximo quanto com Deus.

O desinteresse na ética cristã − No primeiro caso, se temos como nosso modelo de conduta o próprio Cristo, interessado na realização plena da humanidade, mas obviamente não no que esta poderia lhe oferecer em troca, não é difícil concluir que o amor gratuito deve reger a ética cristã. Tal necessidade de afastamento dos interesses pessoais é confirmada pelo apóstolo Paulo ao recomendar à comunidade de Filipos que “cada qual tenha em vista não os seus próprios interesses e sim os dos outros” (Fl 2,4), assim como no seu elogio a Timóteo, fiel diferente daqueles que “buscam os próprios interesses e não os de Jesus Cristo” (Fl 2,21).
Com maestria, Santo Agostinho mostra-nos que nossa recusa à motivação interessada no plano interpessoal está necessariamente associada à gratuidade do nosso amor a Deus. Segundo ele, “se a regra da amizade te convida a amar um homem gratuitamente, ainda mais Deus deve ser amado gratuitamente, ele que te ordena a amar o homem!” (Sermão 385,3).

O desinteresse na relação com o Absoluto − Mas o que significa ao certo o desinteresse no que tange à nossa relação com o Absoluto? Todos estamos de acordo que recorrer a Deus com o objetivo de obter bens temporais e excludentes não é a atitude espiritual mais elevada. É o próprio Cristo quem nos ensina que nossas preocupações não devem se focalizar no que simplesmente assegura nossa vida cotidiana (cf.Mt 6, 25-34) ou traz vantagens para ela. No entanto, toda atitude interessada seria ao mesmo tempo interesseira? Em outras palavras, seria legítimo manter, na nossa busca espiritual, o nobre interesse pela beatitude?
Tal problema não é nada simples de se resolver. Alguns autores, santos e místicos demonstraram a firme convicção de que nem sequer o desejo pelo Reino dos Céus – e com ele o temor pela condenação eterna – poderia nos mover quando a busca em questão é de fato autêntica. Acima do temor e da esperança, ainda dependentes de tendências e aspirações pessoais, o escritor grego, teólogo, Clemente de Alexandria situa a caridade, que “não busca seus próprios interesses” (1Cor 13,5), como a terceira e culminante etapa da vida espiritual. Nessa mesma linha, o filósofo Abelardo reconhece a recompensa divina como consequência natural do amor perfeito, que, por sua vez, só se exerceria quando não temos em vista tal recompensa... Esta compreensão, que também se verifica em Mestre Eckhart, Margarida Porete, São João de Ávila e ecoa em tempos mais recentes em Santa Teresinha e Santa Margarida Maria Alacoque, é sintetizada em célebre soneto barroco espanhol cuja primeira e última estrofes aqui traduzo: “Não me move, meu Deus, para querer-te / o céu que me tens prometido / nem me move o inferno tão temido / para deixar por isso de ofender-te. // Não me tens que dar porque te queira, / pois ainda que o que espero não esperasse, / do mesmo modo que te quero te quereria”.
A dúvida, curiosamente, entre um amor a Deus radicalmente desinteressado e outro que acolhe a participação dos nossos anseios gerou intensa polêmica na Europa da segunda metade do século17, poucos anos antes de o conceito do desinteresse despontar nas reflexões morais e estéticas dos filósofos ingleses. Na França, tal polêmica recebeu o nome de “querela do amor puro” e teve os teólogos Fénelon e Bossuet como seus respectivos defensores. O papa da época, Inocêncio XII, optou pela segunda posição, ao considerar quimérico o total desinteresse subjetivo e ao incluir no amor a Deus a realização de nós próprios.
Independentemente do grau de desinteresse na fé, a busca espiritual – assim como a experiência estética em que o conceito de um total desinteresse também pode ser questionado – nos coloca diante de uma realidade que devemos apreender e fruir por si mesma. Encontramos no desinteresse da contemplação, que não se apaga de todo quando incluímos a ele certo interesse de satisfação ou realização pessoal, um meio potente capaz de nos desconectar das relações meramente sensuais ou utilitárias tão estimuladas nos nossos dias.

O desinteresse foi algumas vezes compreendido como característica da mais elevada atitude cristã, no que se refere às nossas relações tanto com o próximo quanto com Deus





Fonte: FC edição 955- julho 2015
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Liturgia da Palavra
18 de novembro de 2018 - 33º Domingo do Tempo Comum - Ano B - Liturgia da Palavra
Possibilidades e desafios
É um desafio resgatar o protagonismo dos cristãos leigos e leigas numa Igreja paroquial concentrada
Liturgia da Palavra
11 de novembro de 2018 - 32º Domingo do Tempo Comum - Ano B - Liturgia da palavra
A inculturação do Evangelho
Quero caminhar com o meu povo e estar no meio dele, sofrer com ele as mudanças e enxergar
Sim, eu creio!
A primeira experiência no ato de crer não se faz com a inteligência. Num primeiro momento não cremos
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados